Grupo C Pequeno Placa 23-7-2015O Grupo de Santarém na Homenagem do Campo Pequeno

 

Historicamente é amanhã, dia 8 de Agosto, a data precisa do centenário sobre a fundação do prestigiado Grupo de Forcados Amadores de Santarém, que fez a sua primeira apresentação pública na antiga Praça de Toiros de Almeirim, capitaneado por António Gomes de Abreu, corria o ano de 1915.

Com o Grupo de Santarém iniciou-se uma nova fase da sorte de pegar toiros, a qual tem evoluído técnica e artisticamente muito devido à acção de valorosos forcados escalabitanos que nas diferentes épocas contribuíram para que a “pega” deixasse de ser apenas uma manifestação de valentia e de destreza física – atributos que continuam a ser indispensáveis na afirmação de qualquer bom forcado – mas passasse a ser, igualmente, uma demonstração de técnica, de saber, de arte e de afición.

Com o Grupo de Forcados Amadores de Santarém incrementou-se também a época do romantismo na arte de pegar toiros, com a consolidação da figura do Forcado Amador, intérprete de tão sublime manifestação taurina que se sujeita aos mais imponderáveis riscos físicos, e até pondo em perigo a própria vida, para, sem qualquer interesse material, proporcionar aos imensos apreciadores de tal sorte momentos de rara emoção e de uma evidência de valor e de generosidade insuperáveis.

Ao longo do século que este sábado se completa, o Grupo de Forcados Amadores de Santarém foi capitaneado por nove Cabos, nove Homens de uma nobreza de carácter e de um espírito de serviço notáveis, que no seu tempo souberam superar as diversas vicissitudes com que tiveram de confrontar-se, constituindo-se sempre como exemplo para todos os jovens que aspiravam a envergar tão mítica e responsabilizadora jaqueta de ramagens.

A história mundial e a história pátria permitem-nos avaliar as circunstâncias sociais, económicas e políticas que tiveram tão grande impacto na sociedade portuguesa de cada período, porém, no seio do Grupo de Forcados Amadores de Santarém, no passado como no presente, sempre se cultivou o respeito pela forma de estar e de ser de cada um, pondo, inquestionavelmente, os interesses do colectivo acima de quaisquer interesses ou motivações individuais. Deste modo, podemos ufanar-nos de reconhecer imensas Famílias que em todas as gerações serviram o Grupo com alguns dos seus membros, permitindo-se, assim, a transmissão de valores de carácter e de imperativo social, tão evidentes e notórios na constante disponibilidade do Grupo para integrar cartéis de corridas e de festivais de benemerência, arriscando a sua integridade física e a própria vida para servir o próximo, seja uma Corporação de Bombeiros, seja uma Santa Casa de Misericórdia, seja uma Fábrica Paroquial, seja uma campanha de angariação de fundos para socorro a vítimas de doenças ou de catástrofes. O Grupo de Forcados Amadores de Santarém – e a grande maioria dos Grupos de Forcados portugueses, manda a verdade que se diga! – tem estado sempre solidário com quem necessitou dos seus préstimos.

António Gomes de Abreu capitaneou o Grupo de Santarém nos seus primeiros trinta anos, consolidando este punhado de valentes homens que nunca viraram a cara a qualquer desafio e se impuseram pela galhardia com que pegavam os toiros na arena e com o senhorio que os pautava na sociedade, da qual generalizadamente eram figuras prestigiadas. Sucedeu-lhe, em 1945, D. Fernando de Mascarenhas, o principal cultor da sorte de frente, citada na cara do toiro e concedendo-lhe vantagens na investida, porém, devido à sua paixão pelo automobilismo, que haveria de ser-lhe fatal, apenas lhe permitiu ser Cabo ao longo de três temporadas, cedendo o seu posto, em 1948, a uma figura imensa da forcadagem, Ricardo Rhodes Sérgio, que se tornou, enquanto forcado, no principal e sempre lembrado intérprete da pega de cernelha, mas que foi um líder incomparável e um Senhor em todos os aspectos da sua vida, respeitado com idolatria pelos agentes da Festa de então, desde os Toureiros, aos Ganadeiros e aos Empresários. Uma figura de excelência que derramou simpatia e lhaneza no trato, mas exigindo sempre responsabilidade e nobreza de carácter aos valorosos forcados que serviram o Grupo de Santarém até à hora da sua despedida, ocorrida em 1969.

José Manuel Souto Barreiros, membro de uma dedicada Família que desde os primeiros tempos disponibilizou forcados para o Grupo de Santarém, foi o eleito para substituir um Cabo tão carismático e respeitado como era Ricardo Rhodes Sérgio, tarefa de que se desincumbiu com a maior dignidade e competência, superiormente coadjuvado por uma plêiade notável de jovens que souberam responder com galhardia e entusiasmo aos difíceis tempos que se viveram na década da sua chefia, até que, naturalmente, em 1979, Carlos Empis assumiu o efectivo comando, responsabilidade que lhe fora atribuída pelos membros do Grupo durante o período em que Souto Barreiros esteve forçadamente ausente do país.

No ano de 1981 o jovem competente e dedicado Carlos Grave – também ele membro de uma Família tão intimamente ligada ao historial do Grupo – foi eleito Cabo, cumprindo um  mandato de quinze temporadas com uma segurança e uma dignidade extraordinárias, impondo ao próprio Grupo a austeridade que o caracteriza pessoalmente, contribuindo de forma decisiva para a afirmação de novos e valorosos jovens forcados que haveriam de consolidar ainda mais – se era possível! – a imagem do Grupo, no seu colectivo, e de cada membro, como homem e como Forcado. Mercê da sua juventude, e sinal dos tempos que se anunciavam, Carlos Grave criou uma base de dados informatizada onde inscreveu toda a actividade de cada Forcado, tarefa que se revelaria fundamental para a construção da prestigiada história do Grupo de Forcados Amadores de Santarém.

O signo da juventude e da competência prosseguiu sob a acção de Gonçalo da Cunha Ferreira, valoroso forcado que em 1996 assumiu a chefia dos Amadores de Santarém, mantendo o espírito do forcado amador e a disponibilidade do Grupo para honrar o seu tempo no preito de homenagem pelos antigos forcados que haviam sido capazes de prestigiar tanto a arte de pegar toiros, enquanto se impunham como gente ilustre e respeitada nas suas actividades empresariais e profissionais. Os tempos eram outros, mas a mística e a espiritualidade que caracteriza o Forcado mantiveram-se indeléveis.

Seis anos volvidos, em 2002, Pedro Figueiredo (Graciosa), outro jovem membro de uma família tão dedicada ao Grupo, assumiu o ceptro da liderança dos Amadores escalabitanos, honrando a sua missão com um contributo assinalável para o tempo em que se aproximava a celebração do centenário da fundação do mais antigo grupo de forcados amadores e, cultivando a mística do Grupo, soube trilhar um caminho seguro e digno por mais meia dúzia de anos, cedendo em 2008 o seu prestigiado cargo de Cabo a outro jovem que haveria de vencer o século, para satisfação de todos quantos vivem e sofrem com as incidências que constituem a vivência de um Grupo como o de Santarém – Diogo Sepúlveda.

Natural de Marvila, como o Cabo Fundador, e membro de uma Família sempre habituada a servir o Grupo de Forcados Amadores de Santarém, Diogo Sepúlveda tem aliado a sua competência como Forcado à sua determinação e empenho como jovem, profissional de referência no sector vitivinícola nacional, construindo um Grupo pujante de valores humanos e taurinos de eleição, proporcionando jornadas de uma grandeza assinalável, como foi o recente triunfo no Campo Pequeno, em que uma vez mais se fez história, sendo o primeiro Grupo de Forcados a sair triunfalmente pela Porta Grande da Praça do Campo Pequeno.

Parabéns a Todos quantos ao longo de um século souberam e quiseram servir Santarém, Portugal e a Tauromaquia de forma tão meritória e qualificada!

1 - GFAS 1915 António AbreuFormação inicial do Grupo de Forcados Amadores de Santarém, capitaneado por António Abreu

 

14-6-2008 Despedida de Pedro GraciosaDespedida de Pedro Figueiredo (Graciosa) – Cinco Cabos na arena escalabitana

 

*Texto publicado em edição impressa de 07 Agosto