O Professor Vítor Serrão é colaborador deste Jornal onde assina artigos, sobretudo de História de Arte. Reconhece a importância do seu avô, Joaquim Vicente Serrão, de seu pai Joaquim Veríssimo Serrão e de João Moreira enquanto escalabitanos que lhe “desvendaram muito cedo as valências do património cultural ribatejano”.

O professor universitário vê “com optimismo” a evolução do ensino da História de Arte em Portugal.

Porque é que se especializou em História da Arte, o que é que o apaixona nesta área?

É uma disciplina que procura investigar nas obras de arte as suas memórias acumuladas e sentidos profundos, e que tende a retomar com elas um diálogo estético o mais possível integral. A arte tem esta capacidade constante de renovar fascínios: ontem, hoje, amanhã.

Há pessoas fundamentais no seu percurso? Quais são aquelas que mais o influenciaram?

Bom, dos escalabitanos, meu Avô Joaquim Vicente Serrão, meu Pai Joaquim Veríssimo Serrão, o saudoso João Gomes Moreira, que me desvendaram muito cedo as valências do património cultural ribatejano. E historiadores de arte como José-Augusto França, Adriano de Gusmão, Túlio Espanca e Vergílio Correia entre os antigos, que me revelaram os métodos e vias de abordagem das artes.

Como observa a evolução do ensino da História da Arte em Portugal?

Com optimismo. De um tempo em que dominava a ideia de um país patrimonialmente irrelevante, evoluímos para um tempo de auto-descobrimento de nós próprios. Tomamos consciência de que o país é extremamente rico em termos artísticos, e, portanto, é fundamental estudá-lo, protegê-lo e divulgá-lo.

Olhando, por exemplo, para os principais jornais e revistas de actualidade nacional, acha que em Portugal a Arte tem espaço suficiente no debate público?

Não. Faltam rubricas dedicadas ao património na imprensa diária. Não existem mais os importantes suplementos culturais que certos jornais tiveram. Os temas de arte estão hoje restritos a revistas de especialistas e para especialistas (como a ‘Monumentos’ da DGPC, p. ex.).

Numa obra de arte o que é mais importante: a verdade ou a beleza?

Toda a obra de arte, melhor ou pior, tem a sua própria verdade, o seu próprio comprometimento com o mundo das ideias em que foi gerada. Mas é o impacto da aura, a sua chama criativa, que lhe confere maior ou menor relevância num dado contexto histórico (e além dele).

Numa obra de arte, a que atentam primeiramente os historiadores?

À sua história contextual: estilo, época, encomenda, iconografia, objectivo ideológico, técnica, modelo, autor. Definidos estes, o diálogo estético pode ser levado a cabo por nós com outra objectividade, sem se perder nunca a capacidade de arrebatamento afectivo face à obra em estudo.

Para si, quais são os títulos indispensáveis à biblioteca de um historiador da arte?

No campo da iconologia, Aby Warburg, Erwin Panofsky, Ernst Gombrich, George Didi-Huberman; dos marxistas, Frederick Antal e Theodor Adorno; do feminismo, Linda Nochlin; da filosofia, Umberto Eco; e Arthur C. Danto no campo da Trans-Contextualidade das artes.

O que é a Arte, segundo Vítor Serrão?

É o discurso criativo dotado de um poder inesgotável e irrepetível e de uma capacidade social de intervenção com que muitos homens e mulheres deste planeta, desde há 30.000 anos, contribuíram para enriquecer a vida das suas comunidades dotando-as de sentido estético e de futuro. É o campo atractivo das auras, que permite reunir as gentes mais diversas, para além do que as divide em termos de língua, etnia, religião, ideologia ou política, para a partilha integral daquilo que são as suas mais-valias comuns.

Qual o seu museu preferido e porquê?

O Museu Nacional de Arte Antiga, em Portugal, pela extraordinária qualidade dos acervos entre o Gótico, o Renascimento, o Maneirismo, o Barroco e o Rococó. E o Museu do Louvre em Paris, pelo gigantismo e variedade dos núcleos reunidos e coerentemente expostos.

Que museu lhe falta visitar?

Tantos… quer grandes museus (na Europa e EUA), quer micro-unidades periféricas, eco-museus, etc.

Se tivesse de entrar num filme, que género preferiria?

O papel de discreto mas atento figurante, independentemente do género.

Lema de Vida?

Contribuir, nas limitadas capacidades de professor, investigador, académico e homem de causas, para um mundo mais igualitário e justo, isto é, uma sociedade sem classes mas com classe, ancorada numa memória histórica, cultural, ecológica e social com sentido de partilha.

Viagem de sonho?

Algumas ilhas gregas, acho.

Prato favorito?

Bacalhaus de mil modos.

Música preferida?

Ópera romântica (a abertura do ‘Freischutz’ de Weber). Toda a obra de Zeca Afonso. O fado vadio. O musical silêncio. E a sonoridade dos mares.

Quais os seus hobbies?

Ler (poesia, romances, ensaios). Ir a tertúlias: aprender ouvindo. Ver arte, não só a que estudo, mas muitos outros tipos e géneros.

O que mais aprecia nas pessoas?

A fraternidade inata. A humildade. A capacidade de interrogar o mundo. O pensar livre.

O que mais detesta nelas?

O preconceito, raiz de todos os males, que conduz inevitavelmente aos actos de xenophobia e homofobia, aos elitismos de classe, aos fascismos, às guerras de cobiça…

Acordo ortográfico, sim ou não?

Não o aplico, por comodismo e convicção. Mas não o posso ignorar; vejo-me confrontado com ele quando acompanho os estudos das minhas netas…