No mundo do futebol, o chamado vídeoárbitro fez (re)lançar o debate sobre o valor da prova factual, mesmo que posterior aos acontecimentos. Quem tem de ajuizar e decidir pode consultar provas e, se assim entender, reverter decisões após as jogadas, aumentando o rigor e a justiça. A partir daí, o jogo evolui dentro de uma quadro mais justo e desportivo.

No campo da Saúde Pública, algumas decisões importantíssimas foram sendo sustentadas em resultados de estudos científicos que apontavam causas para grandes males. A relação entre o hábito de fumar e várias doenças, por exemplo, está muito bem documentada de várias formas. Os hábitos alimentares estão também relacionados com o eventual aparecimento de várias doenças. As gorduras, por exemplo, têm sido apontadas desde os anos 60 como as principais causadoras de doenças cardiovasculares.

Acontece porém que os estudos iniciais que estabeleceram a correlação entre gorduras saturadas e risco cardiovascular foram revisitados como se de um vídeo-árbitro se tratasse. Foram reanalisados todos os dados em arquivo. Com alguma surpresa, foram descobertos resultados deixados de lado para as conclusões finais. Para espanto geral, a correlação entre gorduras saturadas na alimentação e risco cardiovascular existe mas não é tão forte como se pensava. A ânsia de explicar o aumento da mortalidade por ataque cardíaco nos EUA em meados do século XX pode ter levado os responsáveis do estudo a enviesarem parcialmente os resultados para que a conclusão parecesse mais forte.

Curiosamente, foi tornado público recentemente que uma outra reavaliação de estudos passados teve resultados surpreendentes: há cerca de 50 anos alguns resultados apontaram para os perigos da ingestão exagerada de açúcares refinados.

Esses estudos poderiam ter revelado, com meio século de antecedência, o que hoje se vai tornando evidente: o exagero de açúcar na alimentação de muitos países da Europa e América é responsável por uma catástrofe em matéria de saúde pública (diabetes, risco cardiovascular acrescido, entre outros).

No entanto, esses mesmos estudos eram financiados pela indústria do açúcar, na esperança dos resultados demonstrarem o poder “fortificante” do açúcar. Desmotivados por resultados pouco encorajadores, os financiadores interromperam os estudos.

A falta de independência na condução dos estudos científicos nestes dois casos pagou-se muito cara em muitas regiões do globo: mais de meio século à mercê da obesidade, da diabetes mellitus e das doenças cardiovasculares. Num caso, foi por fraqueza humana, noutro por fragilidade do sistema de financiamento. É bom saber que assim aconteceu, entender porque aconteceu e poder retificar, embora o tempo e as vidas humanas entretanto perdidas sejam irrecuperáveis. É a
oportunidade que nos é dada de viver mais e melhor, caso estejamos à altura de aprender com os erros.

Miguel Castanho
Investigador em Bioquímica