yogaO livro ‘Contos de Verdade’ marca a estreia literária de Marta Cóias, que, depois de uma licenciatura e dois mestrados “mandou tudo às urtigas” e dedicou-se ao Yoga e a partilhar com quem quer ouvir os ensinamentos desta tradição milenar. Editada sob a chancela da Chiado Editora, a obra partilha a visão da autora sobre a vida, “esta jornada de autoconhecimento e os seus desafios práticos”.

Qual é, para si, o grande propósito do Yoga?

Podemos dizer que o Yoga tem pequenos objectivos e um Grande objectivo. A prática de yoga permite ao praticante conhecer-se mais através da exploração das suas várias camadas: corpo, mente, espírito. Através dos asanas (posturas físicas do Yoga) tornamos o nosso veículo físico mais apto a uma vida saudável e consciente, percebemos os nossos hábitos e limitações e trabalhamos no sentido de os corrigir até regressar ao seu estado biomecânico natural, onde o corpo funciona de forma harmonizada e equilibrada, permitindo à energia que nos constitui fluir livremente, sem bloqueios, mantendo patologias e as preocupações adjacentes delas longe das nossas vidas.

Através das práticas de concentração e meditação tomamos consciência do funcionamento da nossa mente, percebemos os nossos vícios e padrões mentais, que aparentemente nos aprisionam em repetições de ciclos que perpetuam o passado para o presente. Ao tomarmos conhecimento desta influência que a forma de pensar (quase sempre autodestrutiva e autocrítica em excesso) tem nas nossas vidas podemos começar a trabalhar nelas no sentido de acalmar esta influência da mente na vida prática. Mais importante é a capacidade de reconhecermos que além de termos uma mente prática que nos auxilia em tudo na nossa vida, temos uma mente psicológica que cria um mundo totalmente inventado por cada um consoante o condicionamento que apanhou desde o nascimento, e que essa mente é o que gera a sensação de sermos muito diferentes do próximo.

Esta mente deve ser transcendida, vista pelo que é: um aglomerado de pensamentos, crenças, ideais e valores que nos foram passados e não nos são originais. Entra aqui o grande objectivo do yoga, Moksha, palavra em sânscrito que significa “libertação daquilo que não é real”. Isto implica descobrirmos que não somos este aglomerado de crenças e pensamentos limitadores, que não somos um corpo (apenas temos um corpo, que não é mais que um veículo, uma roupa, um instrumento), que somos consciência, espírito, UM com o Universo.

Esta descoberta não pode ser teórica, não se pode tornar em apenas mais uma crença que substitui as antigas, é um reconhecimento prático, directo e experiencial da nossa natureza divina. E nesse momento acontece Yoga: que traduzindo de forma literal significa União. União entre as nossas várias camadas, entre o manifesto e o não-manifesto, o visível e o invisível, a camada física e espiritual, o céu e a terra, o espírito e a matéria. É importante deixar claro que esta união já lá estava, não é algo que se alcança, há apenas o reconhecimento da união que sempre existiu, este reconhecimento liberta-nos de todas as noções de separação, de isolamento, de aparentes opostos, de vida e morte, de mim e do outro. E a frase “somos todos um” deixa de ser uma frase para passar a ser uma experiência prática.

Como é que começou no caminho do Yoga?

Desde pequena que pratiquei muito desporto, alguns deles bastante violentos para o corpo, como foi o caso da ginástica, capoeira, kung fu. Aos 18 anos percebi que se continuasse naquele registo ia terminar mal, já que nessa idade acumulava lesões que me estavam a retirar qualidade de vida. Então fiz a minha primeira aula de Yoga aos 18 numa busca por algo que me curasse. Mal sabia eu que curaria muito mais que o meu corpo.

Qual é o panorama da prática do Yoga no País?

Quero deixar muito claro que esta é apenas e só a minha opinião. Não é a verdade absoluta. É a minha verdade sobre este assunto, como cada um terá a sua. O que vejo é que a maioria dos profissionais da área se esqueceu ou ignorou desde o início que Yoga não é meramente uma prática física, tem uma componente física que serve a um propósito maior: autoconhecimento. Vejo as pessoas que ensinam e, como consequência, os praticantes extremamente focados no corpo, no fazer asanas bonitos e artísticos, que muitas vezes lhes estão a criar problemas maiores do que já tinham, e não falo apenas a nível físico, porque depois o emocional e o ego entram no jogo e a prática torna-se uma espécie de competição mais interna ou mais externa, para alcançar a execução daquela asana difícil que “o colega do lado consegue fazer e eu não”.

São poucos os profissionais que se ocupam de facto com o passar da verdade no Yoga, porque esta passagem de conhecimento real, implica que os professores apliquem neles próprios o questionamento de “quem sou eu?” para que as suas palavras possam ter algum poder de transformação. Não adianta querer ensinar o que não se pratica porque simplesmente a palavra chega ao outro lado completamente distorcida e desprovida de verdade. E então fica-se pela parte física, que é mais fácil, mas que não é o objectivo do Yoga.

Para dar uma melhor noção disto vou dar um exemplo: a “Bíblia” do Yoga são os Yoga Sutras de Patanjali, uma obra que contém 196 aforismos que sistematizam toda a prática de autoconhecimento deste sistema milenar. Querem saber quantos deles são dedicados à parte física? Apenas um… que afirma simplesmente “o asana deve ser estável e confortável”. O resto da obra dedica-se a explorar o funcionamento da nossa mente (raja yoga), a nossa verdadeira natureza e como chegar a ela numa espécie de passo-a-passo. Por aqui é fácil de entender como o Yoga está a ser passado de forma incompleta e, no fundo, enganadora, já que a mensagem original se tem vindo a perder.

A prática mudou a sua vida?

Completamente. Deu-me resposta a perguntas que eu nem sabia de forma consciente que tinha. Além de me ter curado o corpo das lesões antigas, levou-me a um estudo profundo de mim, possibilitou o meu encontro com mestres e seres iluminados (que atingiram Moksha, o propósito do Yoga – a LIBERDADE) e que têm sido luzes fundamentais que me iluminam o caminho, desmontando e expondo toda a tralha conceptual e ilusória que fui acumulando como qualquer outro ser humano e que me impediam de Ver. Este caminho de descoberta é infinito…sinto que ainda agora comecei.

Porque é que decidiu lançar o livro‘Contos de Verdade’?

O livro já existia antes de eu saber que ele era um livro. Nos últimos dois anos tenho sentido e manifestado esta vontade de ir partilhando com quem queira saber, o que é esta jornada de autoconhecimento e os seus desafios práticos.

Sempre que chegava a um melhor entendimento de determinado assunto, como eu costumo dizer “quando me caía a ficha” escrevia um texto que sentia que podia iluminar alguns caminhos. Quando reparei tinha uma quantidade considerável de textos. Por sugestão de vários alunos e seguidores do meu trabalho decidi tornar este conjunto de textos público. Acredito que possam ajudar muita gente a começar a questionar as suas “verdades” e a aproximá-los mais da Verdade.

De que trata esta obra?

A jornada de autodescoberta, de “regresso” à essência, à unidade está longe de ser fácil, costumo dizer que é um caminho para valentes. Ela destrói-nos. Tem que destruir, porque o que lá está não é verdadeiro, e dessa destruição nasce espaço para o novo, que no fundo era o que já lá estava antes, sempre esteve, mas não conseguíamos ver. Ao destruir o que é falso o que é verdade revela-se naturalmente. Mas este processo, além de mágico, transformador e poderoso tem etapas que podem ser sentidas de forma mais complicada, e este livro pretende ser um apoio, um amigo, uma voz do coração que vai trazendo respostas e luz ao que todos, sem excepção, vamos sentido nesta aventura que é viver. Porque mesmo quem não é espiritual ou diz não acreditar em nada, está no mesmo processo que um ser que se diz “super espiritual”, só não faz o processo de forma consciente, mas ninguém escapa do processo de reconhecer-se Um com o Universo.

Por isso as palavras neste livro ressoam tão facilmente com qualquer ser humano, independentemente do contexto de onde venha. Somos todos filhos do mesmo Deus, filhos da mesma Terra, movidos pela mesma energia cósmica, mais que irmãos de sangue, irmãos de átomos, uma só família, Um só coração. Só há Um. Mais cedo ou mais tarde, todos vão reconhecer esta unidade e as aparentes barreiras que as sociedades, religiões, ideologias e egos criaram vão desaparecer. Para que possamos finalmente expressar a paz e felicidade que já somos!

 

Lema de vida?

Questionar o que é mesmo verdade a cada instante com amor, coragem e sinceridade.

O que mais aprecia nas pessoas?

Transparência, honestidade, capacidade de assumir o que se sente sem escapismo.

O que detesta nelas?

Detestar é uma palavra forte demais. Vamos dizer que não aprecio jogos mentais e manipulação.

Viagem de sonho? 

Era à Índia, onde graças a Deus já fui várias vezes.

Se os sete pecados fossem oito, qual seria o oitavo?

Para começar não acredito na noção de pecado. Isso leva à noção de um Deus castigador que é no mínimo, absurda e desactualizada. Mas se há algo que gostava que não acontecesse seria: não conhecermos a nossa verdadeira essência enquanto estamos num corpo e na Terra.

Se pudesse alterar algum facto da História de Portugal qual alteraria?

Menos regras, mais amor e liberdade. Não só em Portugal, mas em todo o lado.

Prato preferido?

Sushi.

Livro de cabeceira?

Ironicamente nunca gostei de ler. Se a Bíblia não tivesse sido completamente distorcida, talvez esse.

Acordo ortográfico. Sim ou não?

Em certas palavras faz sentido. Noutras nem tanto.