Na madrugada fria de 31 de Janeiro de 1891, levanta-se o marco decisivo da luta contra a monarquia, sonho e esperança na cândida imagem da liberdade, da labareda do ideal republicano, nasce o clarão sagrado do futuro, referenciado nas páginas da História de Portugal, como a prefiguração do 5 de Outubro de 1910.

Em 9 de Abril de 1891, o republicano João Arruda, da nossa longínqua admiração, cria o jornal “Correio da Estremadura”, raiz do Correio do Ribatejo. João Arruda é o escultor do sonho de um jornal, feito na mestria do tipógrafo, no milagre da vida do ilustre vereador e do hábil administrador do concelho de Almeirim. Fazia parte de uma nova “nação intelectual” de jornalistas e de mestres do bom uso do saber, cerne do republicanismo que sufocava a monarquia.

Estamos no tempo de uma classe intelectual formada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação. Na sua frente, o rio do novo jornalismo industrial, ideológico, militante, aguerrido, virado para a democracia das massas, apertado entre as margens dos anos 1891 e 1910, aproveitando, por um lado, o declive da falência interna da monarquia, por outro, o descontentamento político social.

Em 4 de Outubro de 1910, na cidade de Lisboa, às primeiras horas do dia, eclodiu a revolução que aboliu a Monarquia e implantou a República em Portugal, proclamada em Lisboa. O tenente António Maria de Azevedo MACHADO SANTOS, os cadetes da Escola do Exército e o povo de Lisboa como actor fundamental, foram os principais obreiros da revolução: uma revolução, desde o assassinato do rei D. Carlos em 1 de Fevereiro de 1908, era aguardada a qualquer momento.

O republicanismo português, se por um lado é autêntico neo-vintismo, a reivindicar antecedentes históricos sentidos na Revolução Setembrista de 1836, por outro, tem o cerne da oposição dos anos 40 ao cabralismo, e da galhardia desfraldada na revolta dos 15 meses da “patuleia”.

Os tempos eram conturbados, a ideia da revolução era parte integrante da ordem do dia, a carbonária, uma espécie de maçonaria, clara matriz republicana e anticlerical, tornara-se uma força importante da conspiração republicana para derrubar a velha monarquia.

Implantada a República, o Partido Republicano Português, que ordenara a revolução, era a única entidade legítima para decretar e exercer a autoridade. Foi o que fez, ocupando o governo da Nação e tornando-se o detentor de todos os poderes do Estado.

D. Amélia, a última Rainha de Portugal, dos jornais do dia 31 de Outubro de 1910, disse: “Os jornalistas que nos testemunhavam um servilismo apressado, bajulavam agora os revolucionários. É verdade que, agora arriscam a pele, enquanto sob o nosso reinado se expunham a simples reprimendas ou a algumas multas.”

Em 28 de Outubro de 1910, o Ministério da Justiça lavra um decreto com força de lei, regulando o exercício do direito de expressão do pensamento, tornando o seu exercício “[…] livre, independente da caução ou censura prévia […].”

Com o triunfo da república, no dia 5 de Outubro de 1910, não só a Monarquia tinha sido juridicamente apeada do Estado. Entre as primeiras medidas do novo regime contava-se a expulsão das congregações religiosas, a lei do divórcio, a proibição dos feriados católicos, a supressão de todas as despesas oficiais com o culto religioso e outras que, culminadas com a Lei de Separação do Estado das Igrejas, assinada em 1911, fechavam o edifício anticlerical da República e conduziriam, em 1913, à ruptura das relações oficiais com o Vaticano.

Ora, o jornal “Correio do Ribatejo”, dá os seus primeiros passos nos anos como “Correio da Extremadura”, depressa se transforma de simples órgão local, em veículo de informação e opinião que atinge as camadas mais largas de público. Não se fica pelo objectivo de tratar problemas locais, cresce até se tornar um dos jornais regionais de maior dimensão e capacidade de intervenção.

João Arruda, o republicano de princípios, soube conduzir o seu jornal numa I República que se precipitou no abismo. Assiste, na oposição, à incapacidade das elites dirigentes de promoverem a auto-regulação do sistema, e desencadearem o plano sistemático de reformas que a realidade impunha.

João Arruda está no panorama do desafio do papel da imprensa, num Portugal onde os níveis de analfabetismo rondavam os 65% para os homens e os 80% para as mulheres.

“Em 1917, circulavam pelo país 414 periódicos, contudo, parece haver um grande número de jornais políticos, órgãos de informação de determinado partido ou facção.” Contava-se da linha democrática O Mundo; a evolucionista República; a unionista A Lucta, fundado por Manuel Brito Camacho, médico, escritor e jornalista, tem uma importante obra legislativa; a socialista O Combate; O Intransigente, de Machado Santos, e quantos mais.

Sempre preparado para a luta da vida, o republicano João Arruda chegou a imprimir, sozinho, todo o jornal, augurando-lhe larga existência.

Em 28 de Maio de 1926 um golpe militar chefiado pelo general Gomes da Costa, corrente republicana, constelação de várias tendências políticas, aguarela de diversas cores, que pôs fim ao regime da 1ª República e inaugurou um novo regime na história portuguesa: a ditadura. Com o surgimento de António de Oliveira Salazar na cena política (em 1928 como ministro das Finanças e em 1932 como chefe do Governo) o novo regime estrutura-se ideológica e organicamente: o «Estado Novo» vigoraria até 25 de Abril de 1974.

A 19 de Maio de 1934 faleceu João Arruda, ficando como Director do Jornal seu filho Virgílio Baptista Cravador Arruda, advogado em Santarém. A ambos é comum a consciência da necessidade de prosseguir nas asas do desejo de imaterializar a informação.

Foram inúmeros os assuntos, acontecimentos comemorados, os temas desenvolvidos que durante 119 anos passaram pelas páginas deste jornal. Quantos factos e personagens marcantes dos quase cem anos da “República”, na memória histórica sintetizada de um belo modo de olhar e contar em cada jornal. Podemos fazer uma digressão por dois dedos de acontecimentos tão referenciados.

No feriado de 3 de Maio de 1933, realizou-se uma romagem ao túmulo de Pedro Álvares Cabral em Santarém. Estiveram presentes o ministro da Marinha, os dirigentes da Sociedade de Propaganda de Portugal e do Clube Brasileiro, os representantes da Embaixada do Brasil e da Sociedade de Geografia. A Câmara Municipal recebeu-os em Sessão Solene, seguindo, depois, em cortejo, pela cidade engalanada, até à igreja da Graça, onde teve lugar uma cerimónia de homenagem ao descobridor oficial do Brasil.

Na sede da Junta Geral do Distrito, foi servido um “Extremadura de Honra”. O objectivo desta homenagem foi o de motivar portugueses e brasileiros a poderem “firmar e jurar o Pacto inviolável da nossa Raça, da nossa Língua e da nossa Fé”.

Estava esquecido o quarto centenário do descobrimento oficial do Brasil por Pedro Álvares Cabral, de 1900, em cujo projecto (muito contestado), constava a transladação das ossadas do navegador, da Igreja da Graça de Santarém para os Jerónimos, “com a maior pompa”.

Há um papel de verdade e respeito pela História em todos os tempos. A este propósito, um outro quadro de memórias das notícias de Santarém, quando em 17 de Maio de 1936, o Chefe do Estado, General António Óscar de Fragoso Carmona, acompanhado pelos ministros da Justiça, Dr. Manuel Rodrigues, das Obras Públicas, Major Joaquim Abranches, do Comércio, Dr. Pedro Teotónio Pereira, da Agricultura, Dr. Rafael da Silva Duque, e Sub-secretário das Corporações, Dr. Manuel Rebelo de Andrade, que depois de entusiástica recepção, abriu ao público a Exposição-Feira, que durante um mês inteiro constituiu um notabilíssimo sucesso para a cidade e para todo o Ribatejo.

Em breves dias vinha a Santarém, o Presidente do Conselho, Doutor Oliveira Salazar, os Ministros do Interior, Dr. Mário Pais de Sousa, das Colónias, Dr. Francisco Vieira Machado, da Educação Nacional, Dr. António Faria Carneiro Pacheco, o Cardeal Patriarca de Lisboa, o Arcebispo de Évora, além de muitos diplomatas estrangeiros acreditados no nosso país. E uma multidão enorme, computada em mais de quatrocentas mil pessoas, passou extasiada perante os pavilhões dos concelhos, erguidas dentro do recinto da Exposição.

Em 17 de Maio de 1959, entre os acontecimentos de assinalável relevo, está a inauguração do monumento a Cristo-Rei. ” Para construir a estátua do Cristo-Rei, o arquitecto António Lino e o Engenheiro Melo e Castro, completaram o trabalho de Francisco Franco. Uma centena de operários trabalhou 12 horas por dia, durante oito anos, na estátua que tem as mesmas dimensões do Cristo que domina a baía do Rio de Janeiro.”

Senhor Director João Paulo Narciso, digna Redacção, Senhores Gerentes e Proprietários, cumpre felicitar V. Exas., pelo jornal, que sempre viveu a informação em liberdade, que sempre soube estabelecer a relação entre a memória e a identidade, que tão bem está em vossas mãos, com um possessivo amor, acto de cultura, vínculo eterno de tantos Santarenos e quantos mais…

*Historiador