Há algumas festividades às quais está intimamente ligada uma forte componente gastronómica. São as bodas cerimoniais, às quais, como é natural, está associado outro significado para além da mera satisfação fisiológica. Após a Quaresma, em que é mister que se guarde uma profunda abstinência e jejum, a Páscoa consagra, também, uma atenção especial ao ritual gastronómico, porém, o Natal será, decerto, a festividade mais devotada à refeição colectiva envolvendo os familiares mais próximos e alguns amigos mais íntimos.

Dentro do espírito de reunião familiar próprio das tradições natalícias, as refeições em noite de Consoada e no próprio Dia de Natal constituem momentos especiais nas celebrações do nascimento de Jesus, nomeadamente em relação às respectivas ementas.

De norte a sul do país, regista-se um enorme consenso em relação ao bacalhau com couves e batatas, o célebre “bacalhau com todos”, embora em algumas regiões, sobretudo no norte, o fiel amigo seja muitas vezes substituído pelo polvo.

No almoço de Natal é frequente servir- se o peru assado no forno, o que até inspirou aquele dito popular de uma pessoa quando está triste, com um ar de derrotado, se parecer com peru em véspera de Natal.

Também os fritos de Natal são muito característicos, recaindo uma grande preferência pelos coscorões e pelas filhoses, embora nas mesas mais abastadas aparecessem já outras guloseimas, pois, tratando-se de uma refeição festiva e que envolvia grande parte da família todos se esmeravam em oferecer o melhor que podiam. O Bolo-Rei, apesar de ter uma origem tão antiga e de ser tão apreciado nos nossos dias, não marcava presença na mesa do povo…

A véspera de Natal era um dia de grande azáfama para as mulheres da casa, pois, sobre elas recaíam quase todas as tarefas domésticas, deste a preparação da mesa à própria confecção das refeições. Para acompanhar o bacalhau, ou o polvo, sempre se teriam de cortar e lavar as couves e cortar as batatas, tarefa que só era complexa pela maior quantidade do que era habitual, mas já em relação ao peru e aos fritos a coisa fiava mais fina.

Pela tarde da véspera tinha de se embebedar o peru, forçando-lhe a ingestão de aguardente, o que sempre provocava algumas cenas hilariantes, sobretudo para as crianças que se deliciavam com as “tristes figuras” do embriagado peru, aqui caindo e ali se levantando, sem controlo do equilíbrio do seu corpo.

Depois, era todo o afã de o depenar e cortar para ser assado no forno de lenha, que por estes dias não tinha um segundo de parança. Também por esta altura, tinha de se fazer a cozedura do pão e, claro, começar a amassar os fritos, alguns dos quais tinham de ficar a crescer, como se dizia, num alguidar de barro, bem envoltos em cobertores ou xailes de lã, para a massa levedar melhor.

Pouco antes de se começar a comer o bacalhau, dava-se início à fritura dos coscorões e das filhoses, para que os mesmos fossem servidos bem quentinhos. Se, porventura, era de obrigação oferecer alguns fritos a pessoas a quem se deviam favores, então, este processo era ligeiramente antecipado, de modo que se pudesse fazer a oferta antes do início do jantar da família obsequiada.

Nestas refeições há condimentos que valem tanto por aquilo que simbolizam como pelo préstimo e pelo apreço nas próprias refeições. A farinha de trigo, do pão e das filhoses, o azeite, com que se tempera o bacalhau ou o polvo e onde se fritavam os coscorões, e o vinho, sempre presente em todas as mesas festivas.

Finalmente, uma tradição comum a algumas regiões do nosso país era comer- se uvas e melão em Dia de Natal, os quais eram dependurados no tempo próprio em redes de sisal para não apodrecerem, e neste dia fazia-se questão de os partilhar entre todos. Hábito especial, que representava a necessidade da poupança e o espírito da partilha. Enfim, uma vez mais, e sempre, a expressão do Natal.