O concelho de Abrantes assinala hoje os 120 anos do nascimento do poeta António Botto, “com poesia no centro histórico da cidade e a apresentação do Prémio de Literatura Infantil dedicado ao autor”, anunciou a Câmara Municipal.

Em comunicado, a autarquia afirma que “a poesia na rua começa pelas 10:00, com uma arruada de contos e sessões de poesia de António Botto, com a colaboração do Grupo de Teatro Palha de Abrantes e da orquestra de percussão de S. Facundo, Arrebimbá FUNDO”.

Às 11:00, realiza-se a “Fábrica d´estórias” com contos do poeta, no Jardim da República, evento que volta a acontecer pelas 14:30 na Biblioteca Municipal, que tem como patrono o autor de “A Vida Que te Dei”.

António Botto foi um precursor, designadamente da poesia de discurso homoerótico e da introdução da quadra popular nesse discurso, disse à agência Lusa o escritor Eduardo Pitta.

Vários fadistas, como Maria da Fé, Camané e Mariza, cantam poemas de Botto, que foi obrigado a exilar-se no Brasil, onde morreu em Fevereiro de 1959.

António Botto foi um “rapaz pobre cuja ousadia nunca foi tolerada, não pertencendo a nenhuma casta, tinha tudo contra ele”, sentenciou Pitta, que coordenou a reedição da sua obra completa.

“Vivemos num país de castas e ele não pertencia a nenhuma, nem sequer vinha da classe média, vinha dos meios proletários, não pertencia aos meios académicos, isso desprotegia-o muito”, explicou.

Valeu ao poeta a amizade de Fernando Pessoa, que escreveu sobre ele e lhe enalteceu os méritos, bem como José Régio, Adolfo Casais Monteiro e João Gaspar Simões.

“Botto foi um ‘protegé’ de Pessoa que enquanto foi vivo escreveu sobre ele, prefaciou os livros, teve uma aura muito grande. A autoridade de Pessoa defendia-o e punha-o ao abrigo do preconceito e de uma certa maledicência”, afirmou Eduardo Pitta.

Hoje, às 19:00, será apresentado o Prémio António Botto de Literatura Infantil, na Junta de Freguesia de Alvega e Concavada.

António Tomás Botto nasceu em Concavada, no concelho de Abrantes, a 17 de Agosto de 1897, foi poeta, contista, dramaturgo, escritor epistolar, e é apontado como “ o maior vulto literário do concelho de Abrantes”.

O autor de “Flor do mal”, “Canções e outros poemas” e “Fátima – Poema do Mundo”, morreu a 17 de Fevereiro de 1959, depois de ter sido atropelado por uma viatura oficial 13 dias antes, no Rio de Janeiro.

Este exílio contribuiu, na opinião de Eduardo Pitta, para um maior afastamento dos meios literários portugueses e “de certos círculos”.

Após a sua morte, fizeram-se 30 anos de silêncio “até que em 1989 Joaquim Manuel Magalhães publicou o primeiro grande texto sobre o Botto, até lá toda a gente assobiou para o lado”, acrescentou.

A partida de Botto para o Brasil, “depois de vários problemas e de ter sido expulso da função pública” contou com “a ajuda do banqueiro Ricardo Espírito Santo, que lhe ofereceu 40 contos”, recordou Eduardo Pitta.

António Botto é uma figura de “primeira linha da Literatura Portuguesa” e “continua hoje a ter o interesse do público em geral, sendo seguramente mais lido que Eugénio Andrade”, disse Eduardo Pitta.