João Telles - Abiul - ViolinoNa passada sexta-feira tivemos a oportunidade de assistir a mais uma corrida de toiros transmitida pela RTP 1, a partir de Abiul, o mais antigo tauródromo português ainda em actividade e que serve uma região tão aficionada como é esta. Lotação esgotada, noite agradável e um cartel interessante, onde pontificavam os cavaleiros Luís Rouxinol, Gilberto Filipe e João Telles Jr. e os Grupos de Forcados Amadores de Santarém e os de Alcochete, que enfrentaram toiros de António Silva, bem apresentados, mas difíceis e a não consentirem quaisquer equívocos.

Luís Rouxinol abriu praça com uma actuação plena de maturidade, na qual o veterano marialva de Pegões superou as dificuldades colocadas pelo hastado recorrendo ao saber, à experiência e, claro, ao enorme empenho que sempre o anima. Cravou certeira ferragem em sortes emotivas e correctas e rematou a sua primeira actuação com o habitual par de bandarilhas, com o toiro colocado nos médios, o qual resultou muito bem. Frente ao seu segundo toiro Rouxinol esteve uma vez mais em bom plano, pondo no seu oponente aquilo que lhe faltava, arriscando nas sortes frontais com que colocou a ferragem curta e os palmitos, não evitando um ou outro toque, em consequência dos terrenos que pisou e também das imprevistas investidas do hastado.

Gilberto Filipe não teve pela frente um lote cómodo, porém, também não conseguiu dar boa conta do recado. Até nem começou mal frente ao seu primeiro oponente com a ferragem comprida, rematando muito criteriosamente as sortes, a equilibrar a investida do toiro, mas na colocação dos ferros curtos abriu demasiado os quarteios, originando ora passagens em falso ora sortes demasiado aliviadas, o que, obviamente, deslustrou a sua função. O quinto toiro da noite saiu complicado e Gilberto Filipe sentiu imensas dificuldades para levar a carta a Garcia. Os dois primeiros ferros compridos ficaram muito traseiros e público não gostou, assobiando. Com a ferragem curta a lide veio a mais, porém, no adorno a uma das sortes o toiro carregou imenso e colheu o cavalo que passou por transes difíceis enquanto o marialva foi projectado para a trincheira, saindo felizmente ileso deste percalço que uma vez mais desagradou ao conclave. Mudou de montada e logrou reencontrar-se, colocando vistosos ferros em sortes de violino, aplaudidas pelos aficionados espectadores, que, maioritariamente, o confortaram, embora fosse perceptível algum desagrado por parte do cavaleiro em relação a algum público, eventualmente mais exigente ou menos tolerante, o que levou o cavaleiro a dirigir- se-lhe ostensivamente quando abandonava a arena. Coisa feia, reveladora, no mínimo, de pouca diplomacia. O público é quem paga os seus honorários e por isso tem o direito de não gostar do que lhe é dado ver e de se manifestar em concordância, desde que o faça cordatamente, como parece que foi o caso!

João Telles Jr., a quem igualmente tocou em sorte um toiro complicado, despachou os ferros compridos em sortes menos vistosas, todavia, após mudar de montada, sacando o Ojeda, logrou rubricar uma lide de grande qualidade técnica e artística, obrigando o toiro a investir, tão apertados eram os terrenos que o marialva pisava, consumando sortes plenas de emoção e de verdade, terminando em apoteose com a colocação de dois poderosos ferros de palmo. João Telles Jr. viria a rematar a corrida com chave de ouro desenhando uma boa actuação, cravando bem os ferros compridos e, sobretudo, os curtos, em que consumou algumas sortes muito sérias e arriscadas, e na fase final da sua actuação soube sacar partido da sua alegria e expressão artística colocando três ferros em vistosas sortes de violino, muito aplaudidas pelo público que se deixou entusiasmar pela vivacidade da lide e pelas boas maneiras do marialva da Torrinha.

O Grupo de Forcados Amadores de Santarém começou a noite com uma pega de grande nível consumada por Luís Sepúlveda, que esteve irrepreensível tecnicamente, tornando fácil o que poderia não o ser. António Goes, valoroso forcado da nova geração, teve de porfiar imenso para, à quarta tentativa e já com ajudas carregadas, consumar a sua sorte, pois o toiro investia estranhamente e sacudia os forcados derrotando de cima para baixo, impedindo a eficácia das ajudas. Para rematar esta noite dura, o Cabo
Diogo Sepúlveda confiou na competência e poder de João Brito, que consumou uma excelente pega ao primeiro intento.

O Grupo de Forcados Amadores de Alcochete esteve uma vez mais ao nível dos seus pergaminhos, dignificando a sua jaqueta de ramagens. O valoroso forcado Nuno Santana foi desfeiteado violentamente na sua única tentativa, tendo recolhido à enfermaria, sendo dobrado pelo Cabo Vasco Pinto que, com eficácia e muito poder, concretizou boa pega ao primeiro intento, sendo as restantes pegas consumadas também à primeira tentativa por intermédio de Fernando Quintela e Diogo Timóteo, em sortes muito meritórias.

E assim decorreu com entusiasmo e interesse uma corrida marcada pela seriedade dos toiros de António Silva e pela entrega e valor de quem teve de os enfrentar, destacando-se a correcta direcção de Lourenço Luzio, assessorado tecnicamente pelo Dr. José Luís Cruz.

João Brito - Abiul

*Texto publicado em edição impressa de 21 Agosto

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