Cumpriu-se no passado dia 3 de Maio um século sobre a data de nascimento de António Ferreira Madeira Cacho, um Homem de eleição, que marcou o seu tempo e se constituiu com um dos mais eloquentes paradigmas do que é ser Filho, Irmão, Marido e Amigo, para além de um Cidadão de carácter impoluto e honrado. Em todas estas dimensões da sua vida este “cidadão do mundo” natural da Golegã, mas residente uma vida quase inteira na cidade de Santarém, se destacou pela lhaneza do seu trato, pelo seu espírito solidário e cooperante, pela sua inteligência, pela verticalidade de que sempre deu sobejas provas e pela amizade que soube cultivar com tantos e tão bons Amigos.

Evocar nesta efeméride António Cacho, que faleceu em 18 de Outubro de 2004, é exaltar os valores maiores da vida em sociedade, é enaltecer um cidadão que sempre pensou mais nos outros do que em si próprio, é lembrar alguém que se cumpriu dando-se por inteiro às causas em que acreditava e às obras a que metia ombros. António Cacho, Presente!

Um Homem de Família

Eram cinco irmãos. O António nasceu em 1917, o Carlos em 1919, o Manuel em 1922, o Francisco em 1925 e o Rui nasceu em 1930. Só o Rui nasceu em Santarém, todos os outros nasceram na Golegã. Seu pai era aí secretário de Finanças e pediu transferência para Santarém, para que os filhos pudessem estudar. Foi assim que o António, o mais velho, entrou em 1928 para o Liceu tendo sido sempre um excelente aluno. Quase no 5º ano começou a fazer uns trabalhos nas Finanças… para angariar uns tostões para as suas despesas.

António Cacho, de pé, do lado direito, com a sua família

António Cacho, de pé, do lado direito, com a sua família

Mas era preciso ajudar em casa e o António deixou o Liceu para trabalhar na Casa de Secos e Molhados, do Sr. António Rodrigues Lourenço, na Ribeira de Santarém, o que o obrigava a fazer diariamente uma longa caminhada a pé. Ao fim de um ano libertou-se deste penoso emprego e ingressou na Sociedade de Tecidos de Santarém. Estávamos em 1934.

Seu pai, António Pereira Cacho Júnior, morreu ainda muito novo, em 1938, o que deixou a família em sérias dificuldades. O António, consciente dessa situação, viu-se, de um dia para o outro, arvorado em chefe de família, pois, todos agora dependiam do seu magro salário. Foram anos difíceis, mas o António, com muito sacrifício, conseguiu que todos os irmãos frequentassem a escola e fossem depois para o Liceu.

Em 1940 ingressou na Escola de Sargentos Milicianos, em Tavira, de onde foi destacado no ano seguinte para os Açores, já com o posto de sargento-miliciano. Mas o azar continuava a persegui-lo e em 1942, faleceu sua mãe, D. Faustina Madeira Cacho. António Cacho regressou a Santarém para enfrentar esta nova situação. Tinha um irmão ainda com 12 anos de idade, o Rui, pelo que teve de contratar uma governanta, a Sr.ª Tomásia, de Pernes, que foi uma segunda mãe para esta irmandade Cacho e a orientadora da economia doméstica. Dois anos depois, em 1944, faleceu o irmão Manuel, vítima de tuberculose.

Mas, apesar de mais este desgosto, a situação financeira melhorava um pouco, pois, os seus irmãos Carlos e Francisco já davam explicações em casa, na Rua de S. Martinho, nº 5, à Praça Velha. Antes moraram na Av.ª das Portas do Sol (5 de Outubro). Em 1953, com 36 anos de idade, casou com D. Regina Gomes Peixoto Cacho, que faleceu em 4 de Outubro de 2010.

O Desporto e a Cultura

António Cacho foi um homem inteligente, trabalhador e perseverante, dedicando-se muito à vida desportiva e cultural de Santarém. Com tendência para as letras, participou, a partir de 1945, em diversos jogos florais, tendo alcançado um primeiro prémio, diversos segundos e algumas menções honrosas, facto que o levou a colaborar em jornais, revistas e boletins desportivos. A partir de 1950 começou a colaborar no “Correio do Ribatejo”, publicando dezenas de crónicas de viagens, de agradável e sugestiva leitura.

António Cacho – Bom praticante e treinador de basquetebol da Académica de Santarém

António Cacho – Bom praticante e treinador de basquetebol da Académica de Santarém

A literatura é espírito e a vida de António Cacho exige cada vez mais de si. Assim, desejoso de evoluir, foi, em 1946, trabalhar nos escritórios da Camionagem Ribatejana, Lda., cujo sócio-gerente, o Sr.
José Roque Dias, veio a tornar-se um seu grande amigo, assim como os seus filhos, Manuel e José Roque. Aqui se manteve até se reformar. Mas continuemos… António Cacho esteve ligado à fundação da Associação Académica de Santarém, em 1931. Levava os seus irmãos a frequentar a sede da Briosa e a partir de 1938 foi o treinador e responsável pelos jovens que se dedicaram ao basquetebol, os quais, devido à sua óptima preparação, viriam a conquistar diversos torneios e campeonatos regionais. Esses sucessos duraram até 1952.

Entre 1938 e 1958 António Cacho integrou os Órgãos Sociais da “Académica”, algumas vezes até com os seus irmãos. Mas, este bom amigo não esteve apenas ligado ao desporto. Em 1938, de parceria com o seu amigo e companheiro de boémia Carlos Mendes Júnior, criou o Grupo Cénico da Académica, do qual fizeram parte excelentes amadores de Santarém, que apresentavam um espectáculo anual de grande sucesso. Pujante de dinamismo, o António esteve também na base da organização de Ciclos de Conferências da Associação Académica de Santarém, que duraram até ao ano de 1961.

Passada uma época de má lembrança em que se envolveu na política nacional, tendo sido detido durante alguns dias, lá vamos encontrar o Amigo Cacho como Bibliotecário do Sindicato dos Empregados de Escritório, onde tomou diversas iniciativas no sentido de estimular a leitura entre os associados.

No ano de 1949 esteve em grande desenvolvimento a prática do campismo. António Cacho aderiu ao movimento e fundou o Núcleo Campista “Scálabis”, que chegou a ter trinta membros, entre os quais o seu amigo João Gomes Moreira. Neste tempo, e conjuntamente com os membros do Núcleo de Santarém “Os Livres”, fundado por João Coelho das Neves, percorreram o país animando diversos acampamentos regionais. Em 1951, em colaboração com a Federação Portuguesa de Campismo, os dois Núcleos escalabitanos organizaram na Quinta dos Anjos, o 2º Acampamento Nacional, que foi um êxito e trouxe a Santarém umas boas centenas de campistas.

O Teatro, os Palhaços e a Arte de Dizer

Mas, o meio cultural continuava a atrair António Cacho e lá vamos encontrá-lo, a partir de 1941, como um dos elementos mais activos do Círculo Cultural Scalabitano, sediado no Club Literário Guilherme
de Azevedo (Taborda). Entre outras actividades, foi aluno do Curso de Arte de Dizer e Representar, orientado pelo Prof. Carlos de Sousa, do Conservatório de Lisboa, tendo entrado em recitais de poesia
e participado em inúmeras peças com outros ilustres amadores desta cidade, como Carlos Mendes Júnior, Joaquim Campos, Nuno Netto de Almeida, Manuel Afonso, Deline Martins, José Freitas Lopes e João Gomes Moreira, entre outros. Destaca-se a sua participação nas peças “Os Velhos”, de
D. João da Câmara, onde compôs a figura do galã Júlio, e no “Alfageme de Santarém”, de Almeida Garrett, onde interpretou a figura heróica do Condestável, D. Nuno Álvares Pereira. Outra intervenção preciosa dentro do Círculo foi a criação dos “Jograis de Santarém”. Um quarteto que fez muito sucesso na época (1960) sobretudo na interpretação da telúrica poesia “Capricho Ribatejano”, da autoria do poeta Augusto Souto Barreiros. Nesse período de intensa actividade cultural António Cacho e João Moreira fundaram uma Parelha de Palhaços, “Juanito e Tonecas”, que animou diversas épocas os miúdos do Círculo Cultural Scalabitano pelo Natal e pelo Carnaval. Aliás, o Circo, o maior espectáculo do mundo, e a Ópera são expressões artísticas que António Cacho sempre apreciou, pelo que viria a organizar diversas excursões ao Coliseu e ao Teatro S. Carlos, para além de criar na Camionagem Ribatejana a “carreira dos teatros”, que permitia a quem o quisesse ir assistir a espectáculos em Lisboa e regressar depois a Santarém.

É muito vasta a biografia de António Cacho no que respeita à sua intervenção na vida pública de Santarém, como amador, claro está, porque profissionalmente ele foi o máximo expoente na sua actividade de Chefe de Escritório da Camionagem Ribatejana, Lda., mais tarde Rodoviária Nacional, onde esteve oficialmente até ao ano de 1984.

A Feira do Ribatejo, o Folclore e o Turismo

A partir de 1954 António Cacho esteve ligado à Feira do Ribatejo, dez anos depois elevada a Feira Nacional de Agricultura, como membro da Comissão Executiva, onde desenvolveu, a par dos restantes
companheiros uma notável actividade que se prolongou até 1974, data em que toda a Comissão, por motivos óbvios, cessou as suas funções. Amigo pessoal de Celestino Graça desde os primórdios da Associação Académica, prestou-lhe a ele e a toda a Feira a maior colaboração possível. E foi muita!

António Cacho sempre próximo de Celestino Graça, na Feira do Ribatejo

António Cacho sempre próximo de Celestino Graça, na Feira do Ribatejo

Teve, ainda, a seu cargo durante todos estes anos a difícil tarefa de organizar o Programa Oficial da Feira, de distribuição gratuita, documento hoje precioso por nos contar a História da Feira e nos pôr em contacto com poesias e textos inéditos ali publicados, da autoria de ilustres ribatejanos, alguns dos quais ensaiando aqui as primeiras composições.

Após o falecimento de Celestino Graça, a 24 de Outubro de 1975, António Cacho dinamizou uma homenagem nacional à sua memória, nos dias 16 e 17 de Setembro de 1977, tendo acorrido a Santarém mais de cem representações folclóricas de todo o país, coordenadas pelos amigos Augusto Gomes dos Santos e José Maria Marques, respectivamente, Presidente e Vice-presidente da Federação do Folclore Português.

O Festival realizou-se na Praça de Toiros que hoje tem o seu nome e junto da qual foi inaugurado, nessa data, um busto de Celestino Graça, obra do escultor Leopoldo Soares Branco.

Tentando sintetizar num pensamento toda a grandeza do saudoso amigo Celestino Graça, António Cacho escreveu: “O Homem que disse não à mediocridade e superou os seus defeitos”. Entretanto, António Cacho fundou o Grupo dos “Amigos de Celestino Graça” e, um ano depois, editou o livro “In Memoriam”, com o relato das manifestações integradas no programa da homenagem.

Pela sua desinteressada colaboração na organização da Feira do Ribatejo, António Cacho foi agraciado pelo Governo, conjuntamente com outros colegas da Comissão, com a Medalha da Ordem de Mérito Agrícola.

Em 1960 fundou uma moderna tipografia, a “Galdete”, em sociedade com Manuel Galveias e António Cadete, a qual veio arejar o panorama tipográfico da cidade, pela qualidade dos trabalhos em offset.

Ao fim de uma dezena de anos, tentando libertar- se dos seus muitos afazeres e num acto de profunda generosidade, cedeu quase graciosamente a sua quota a quatro tipógrafos do seu quadro de pessoal, pois, tratava-se de jovens trabalhadores interessados em singrar nesta actividade, algo a que António Cacho era muito sensível.

No meio desta euforia toda, mais um duro golpe atinge a sensibilidade e os sentimentos de António Cacho. O destino inexorável nos seus desígnios não perdoa, e o seu irmão, Prof. Dr. Carlos Cacho, cientista de grande prestígio internacional, adoeceu gravemente, falecendo em 14 de Agosto de 1976.

Quase aos setenta anos de idade, António Cacho ainda frequentou os Cursos Livres do Instituto Politécnico de Santarém, então dirigido pela mão firme e competente do Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, nosso conterrâneo e ilustre historiador, a quem ligava uma profunda amizade, tendo concluído com brilhantismo os Cursos de Literatura Portuguesa, História de Portugal e Jornalismo, tendo sido, por tal motivo, convidado para proferir a Oração de Sapiência numa das sessões de fim de curso.

Entretanto, António Cacho mantinha a sua dedicação à causa pública, e foi ainda Presidente do Conselho Fiscal da Santa Casa da Misericórdia de Santarém e membro da Região de Turismo do Ribatejo, em representação da APAVT – Agência Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo, de que foi dirigente.

rumagem celestino

António Cacho com os Campinos numa romagem de saudade à campa de Celestino Graça

Natural da Golegã, terra de toureiros famosos, compreende-se a afición de António Cacho pela Festa Brava. Assíduo frequentador das praças portuguesas e espanholas, era um prazer ouvi-lo discorrer sobre os últimos sucessos das grandes figuras do toureio que apreciava. Ao citar Espanha, recordamos que António Cacho foi um viajante extraordinário. Sempre que surgia uma hipótese lá ia António Cacho por esse mundo fora à procura de novas emoções. Mais tarde organizou excursões às grandes capitais, por ocasião de mediáticos acontecimentos, como foram, por exemplo, algumas peregrinações a Roma ou a finais internacionais de futebol, destacando-se nessas jornadas como um competente guia. Aposentado da Camionagem Ribatejana, onde permaneceu cerca de quarenta anos, fundou e dirigiu uma Agência de Viagens que lhe permitiu visitar outros países que não conhecia, acabando por ceder mais tarde a Agência aos funcionários que com ele trabalharam. Mais um gesto da sua generosidade!

Em 1978, em amigáveis conversações com os antigos proprietários da Casa de Almeirim, instalada no Campo da Feira do Ribatejo, António Cacho teve participação importante na cedência desse espaço para a sede dos Grupos Infantil e Académico de Santarém, no que, igualmente, colaborou Ladislau Teles Botas, na qualidade de presidente da edilidade escalabitana. Depois de uma vida de trabalho profissional intensa e de uma dedicação à família e à cidade sem limites, António Cacho adoeceu gravemente em 1997, esteve por diversas vezes internado no Hospital de Santarém, onde os amigos, entristecidos, o visitavam, vindo a falecer em 18 de Outubro de 2004.

Homenageemos, pois, a memória de António Cacho, que foi um homem bom, de forte personalidade, de apreciável cultura, orador brilhante e de raras virtudes, deixando aqui o testemunho da nossa admiração e da nossa Saudade.

Muito obrigado, António Cacho!

João Gomes Moreira e Ludgero Mendes