1

 

“Mostrar a importância do estabelecimento de um percurso, para quem visita o centro histórico da cidade de Santarém” o que “mais o diferencia dos demais” e que “falta rentabilizar, aos diferentes níveis”, foi a intenção do arquitecto Carlos Guedes de Amorim ao convidar um conjunto de lideres de opinião, alguns amigos e jornalistas, na manhã deste sábado, para uma visita ao centro histórico de Santarém, nomeadamente, Museu Diocesano, Catedral, Santuário do Santíssimo Milagre, Igreja da Misericórdia, Igreja da Graça, Portas do Sol e Igreja da Piedade.

7

O grupo entrou no centro histórico pela Praça Sá da Bandeira onde o Padre Joaquim Ganhão contou a história dos frades que habitam os nichos da fachada da Sé, seguindo-se a visita guiada ao Museu da Catedral, integrado na Rota das Catedrais e galardoado com o prémio ‘Europa Nostra 2016’.

4 3

Depois de provado o celeste, doce conventual, numa pastelaria da cidade, o grupo rumou ao Santuário do Santíssimo Milagre onde o padre Ganhão explicou a razão da sua existência.

Daí o grupo seguiu até à Igreja da Misericórdia para audição de um breve momento musical, proporcionado pela professora organista Marta Cruz e a aluna Maria Sofia Saramago, de apenas 12 anos de idade, ambas do Conservatório de Música de Santarém que fizeram ouvir o órgão histórico daquela igreja.

6 5

Seguiu-se a visita ao túmulo de Pedro Alvares Cabral, na Igreja da Graça, onde foi deixada uma coroa de flores, num momento de homenagem.

2

Já nas Portas do Sol, o grupo almoçou no restaurante ‘Tejá’ e apreciou a paisagem natural que esse miradouro proporciona. De regresso ao centro antigo da cidade, e antes do fim da visita, o grupo parou na igreja de Nossa Senhora da Piedade, de restauro recente, para apreciar e conhecer a história da Torre de Belém, no quadro do altar mor.

“Esta é uma visita única e eu escolhi um grupo de pessoas, figuras públicas que gostam da cultura para conhecerem de perto o que diferencia Santarém das outras cidades”, disse ao Correio do Ribatejo o arquitecto Carlos Guedes de Amorim, promotor da visita.

“Santarém cada vez está mais longe do mapa e a mim, como escalabitano, isso faz-me muita impressão e não vejo razão nenhuma para isso”, acrescentou, para dar sentido à iniciativa.

“Nós temos investimentos feitos, por exemplo no Museu Diocesano, há muito trabalho feito, há muita camisola vestida, mas o número de visitantes que estes museus têm é quase nada, os peregrinos vão ao Milagre, entram, saem, não vêm aqui [Museu Diocesano] que também é da Igreja. É claro que me vão dizer que o turismo religioso é muito específico, que as pessoas vêm com um horário apertado que vão visitar os santuários todos até Santigo de Compostela, mas dos 17 mil que aqui vieram o ano passado certamente que nem todos foram fazer esse percurso e nenhum veio aqui o que não faz sentido. O Santuário do Milagre faz parte da cidade de Santarém, não é uma entidade autónoma e, portanto, tem de partilhar com a cidade aquilo que tem. Não faz sentido fazer diferente”, argumenta.

“A minha ideia foi trazer lideres de opinião, jornais nacionais [Expresso e Público], para dar uma ajuda e mostrar que Santarém existe mas está pouco aproveitada e isso faz-me muita impressão”, justifica.

Para Carlos Guedes de Amorim parte da solução passa por cativar as agências de viagem “para que as coisas possam funcionar de outra maneira”.

“Câmara, Igreja e Associação Comercial, todos em conjunto, têm de dinamizar a cidade. A igreja tem fortes investimentos aqui. Os comerciantes, se as ruas estiverem cheias facturam, e a câmara tem todo o interesse nisso também”, alega.

“Escalabitanos devem ser os primeiros promotores

do turismo da sua cidade”

Presente na visita, o vereador do Turismo da Câmara de Santarém, Luís Farinha, valorizou a iniciativa de Guedes de Amorim: “O que pretendemos em Santarém é, naturalmente, atrair pessoas e, através de uma iniciativa como esta, estes convidados são promotores de uma mensagem que é ‘visite Santarém’”. Contudo, nota, “não se conseguem resultados de um dia para o outro. É algo que se tem vindo a construir e a Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo tem-nos apoiado em todas as iniciativas”, recorda.

O vereador deu o exemplo de Évora, onde as visitas turísticas à cidade “demoraram um ano” a consolidar.

“Isto é revelador das dinâmicas que são necessárias. Hoje foi um bom exemplo, tínhamos a cidade completamente cheia”, nota.

11

Segundo Luís Farinha existem factores que concorrem para estes resultados: “desde logo a animação, fundamental nas cidades”, observa.

“O projecto In.Str tem dado um contributo muito grande. Até 23 de Setembro, temos animação e isso reflecte-se, naturalmente, naquilo que é a dinâmica da cidade e na sua capacidade de atracção”, admite.

“Entendo que os maiores embaixadores, os maiores promotores do turismo em qualquer local são os próprios locais, isto é, todos os escalabitanos devem ser os primeiros promotores do turismo da sua cidade. Para além de gostarem dela devem promove-la, nos seus círculos de amigos e de conhecidos. Foi o caso e, por isso, não posso estar mais satisfeito com esta iniciativa”, remata.

Júdice, José Luís Vilaça, Maria João Avillez

e Rui Nery  entre os convidados

Entre os convidados de Guedes de Amorim encontrava-se José Miguel Júdice que ao Correio do Ribatejo elogiou a iniciativa em redor de Santarém, cidade da qual tem “memórias próprias muito antigas”.

“É evidente que Santarém vale a pena, não só pelo gótico, é um sítio que merecia ser melhor conhecido”, opina.

Por sua vez, José Luís Vilaça, juiz do Tribunal de Justiça europeu, testemunhou ao Correio do Ribatejo porque aceitou de bom grado o convite do “grande amigo” para visitar “os tesouros históricos e arquitectónicos” de Santarém”: “Conhecia a cidade mas não tão aprofundadamente como estou agora a conhecer. Estou deslumbrado com aquilo que tenho visto. A Catedral possui uma história interessantíssima, onde cada peça conta uma história”, aludiu.

“A mensagem que deixo é simples: visitem Santarém. Eu nasci em Braga, mas Santarém é uma das minhas terras preferidas”, rematou.

8

Opinião partilhada por Maria João Avillez, escritora e jornalista: “Santarém é uma cidade que gostava de conhecer bem porque já estava ao corrente do seu belíssimo e valioso património. Não tenho outra ideia senão voltar”, refere.

Maria João Avillez admitiu ao Correio do Ribatejo que o que viu na visita irá repartir com os seus leitores num dos seus próximos textos: “Eu partilho muito com o leitor as minhas vivências porque sinto que tenho responsabilidades e gosto de chamar a atenção para alguma coisa que mereça ser visitada, lida, ouvida, logo, mais dia menos dia, debruçar-me-ei sobre esta visita que fiz hoje a Santarém”, revela a jornalista.

O musicólogo Rui Vieira Nery, ex-secretário de Estado da Cultura (1995/97), admitiu ao Correio do Ribatejo conhecer bem Santarém. “Fui aluno de Jorge Custódio e amigo de Mário Viegas, José Niza e Pedro Canavarro. Tenho laços fortes que me fazem vir muitas vezes a Santarém, cidade que tem um património muito rico e diversificado, agora, felizmente, muito bem preservado, e com um potencial enorme. Um segredo muito bem guardado,” frisou.

“A maior parte dos não ribatejanos não faz ideia da riqueza deste património e, portanto, a ideia do arquitecto Guedes de Amorim parece-me muito boa: tentar criar um pacote de visita rápida à cidade que ajude os que vêm para o turismo religioso só para a igreja do Milagre, mas também para outros itinerários para explorar nas suas múltiplas atracções. Eu vim porque vinha entre amigos e foi muito agradável, também pelo prazer de revisitar”, notou.

Segundo Rui Nery, Santarém encerra “um potencial grande no melhor sentido do termo, cultural, histórico, de gente que se interessa não só por praia e sol mas também por história e património, ou por tradições culturais”, admite.

“Pelo meio desta visita cruzámo-nos com um rancho folclórico [Rancho do Bairro, no âmbito do projecto In.Str] que também é um outro lado interessante da cultura local e provámos a gastronomia local. Há muitas coisas entusiasmantes para fazer em Santarém e é isso que é preciso dar a conhecer às pessoas”, rematou.

Carlos Guedes de Amorim considera que Santarém “já deixou fugir muita coisa” e que chegou a hora de “aproveitar aquilo que tem e o investimento que aqui foi feito”.

“A câmara e a igreja têm de sensibilizar as agências de viagens e têm de trabalhar com eles. Se não for assim não se consegue nada,” conclui o arquitecto. JPN