aurelio lopesO antropólogo e colaborador de longa data do Correio do Ribatejo, Aurélio Lopes, lançou sábado, dia 30, na Sala de Leitura Bernardo Santareno (antigo Ginásio do Seminário), em Santarém, o estudo “Ritual, Natura e Magia: Sentidos e saberes das terapias tradicionais portuguesas”.

Publicado pelas edições “Apenas Livros”, apoiado pela Fundação Ciência e Tecnologia, a obra, que foi apresentada pelo Padre Lourenço Fontes, debruça-se sobre o sentido e significado dos rituais curativos bem como sobre as atitudes e estratégias de curandeiros e afins bem como as suas diferenças e semelhanças com o médico convencional.

Na apresentação pública do estudo, Lourenço Fontes considerou que a obra “mostra o País real e profundo”, destacando “as contradições entre a medicina científica e a popular”.

“É um estudo que recomendo a médicos e profissionais de saúde”, disse o Padre Fontes, que organiza há vários anos os Congressos de Medicina Popular de Vilar de Perdizes.

Na sua perspectiva, “Medicina é aquilo que nos cura, o que previne a nossa saúde. Popular é tudo o que é à base do não científico, do não erudito, do tradicional, do caseiro, do amadorístico, da natureza”.

Contudo, afirmou, “há curandeiros que têm capacidade de curar. E não é por sugestão. Existe a cura pelas mãos, pelas palavras, pelos olhos, pelas massagens. Umas vezes melhor, outras vezes pior. Acreditar na cura é meio caminho andado”, afirmou.

“Há males que não são do médico. Sei que o problema é criado pelos médicos, pois não ouvem as pessoas, não têm tempo. Talvez seja de tempo e atenção, algum carinho, que os pacientes necessitem”, reflectiu.

Segundo o autor, o estudo agora publicado partiu de uma edição do espólio de Michel Giacometti (‘Artes de cura e espanta males’), do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional e Património Imaterial (IELT) da Universidade Nova de Lisboa, que lhe permitiu o acesso “a alguns milhares de registos”, a que juntou dados de outras proveniências e trabalho de campo que realizou no Ribatejo.

Trata-se de uma obra que “versa as lógicas subjacentes das práticas de medicina popular (ontem e hoje), as suas razões de ser, configurações e explicações”, numa “concepção do mundo holística, empírica e analógica”.

No livro, Aurélio Lopes procurou descortinar as “maneiras de pensar”, a linguagem, os rituais, o porquê do uso de determinadas plantas, do que está para além da eficácia da cura, ou seja, “as analogias, as configurações, o entendimento do mundo, a noção cíclica do Mundo”.

Uma das questões que se colocou foi  por que razão as pessoas continuam hoje a procurar o “curandeiro”, visto como “um membro da comunidade” a que se vai “porque alguém recomenda e lhe reconhece competências também transcendentais”. Ao contrário do médico, a medicina tradicional usa a “sugestão”, pelo que o “curandeiro” tem que “se interessar pelo doente, criar empatia”, disse o investigador durante a sessão de apresentação pública, na qual participaram cerca de meia centena de pessoas.

Exige uma “perspicácia empírica”, sublinhou, referindo que, se a doença não passa, “nunca a culpa é do curandeiro. Ou é vontade de Deus ou a culpa é do paciente”.

A confiança no médico é condicionada pela relação que este estabelece com o doente. Se este “não gostar do médico, não só não acredita nele como não acredita nos medicamentos que ele receita”, afirmou.

“O famoso placebo é o que o curandeiro faz há milénios”, disse, realçando que a medicina popular beneficia também de “experiências milenares que se sabe que resultam”.

Aurélio Lopes referiu o facto de outras culturas terem mantido “aspectos essenciais da existência do ritual”, ao contrário da cultura ocidental, marcadamente técnica e científica, quase reduzida à prescrição e “sem muita paciência para aturar” o doente.

Na sua intervenção, o investigador considerou ainda que Portugal “teria a ganhar” se aproveitasse o conhecimento destas práticas milenares.

“Seria importante fazer um levantamento nacional” do conhecimento acumulado em milénios de relação do homem com a natureza, “fazer o que os chineses fizeram, de conhecer, cruzar conhecimentos, e utilizar e difundir a medicina tradicional”, concluiu.

Aurélio Lopes, Professor convidado do Ensino Superior, Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

Investigador na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais culturais e culturais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. Investigador do IELT: Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa e do CIJVS: Centro de Estudos Joaquim Veríssimo Serrão (da qual é membro do Conselho Redactorial das Revistas Mátria e Mátria Digital), é coordenador das Colecções “Antropologia” e “Raízes” da Editora Cosmos e, ainda, Coordenador do Fórum Ribatejo. Como autor de cerca de três dezenas de estudos próprios publicados (e outros mais em colectâneas respeitantes a congressos, seminários, colóquios ou revistas cientificas), vem desenvolvendo um percurso investigativo de que se destacam Religião Popular no Ribatejo.

Filipe Mendes