Barrancos 1

 

Não há dúvidas de que o fruto proibido é sempre o mais apetecido. Durante décadas o povo barranquenho pôde viver as suas festas anuais sem quaisquer alaridos nem intromissões. A tradição era respeitada por todo o povo que, assim, cumpria os seus rituais, pagãos e religiosos. Os naturais emigrados no estrangeiro ou nas grandes urbes nacionais regressavam durante a festa para se reencontrarem com familiares e amigos e tudo decorria sem problemas.

Os contestatários à festa taurina começaram a manifestar-se contra a morte dos toiros em Barrancos, invadiam o recinto das festas para tentarem impedir a realização desta tradição, gerando grande reboliço, que as cordatas gentes barranquenhas não gostam de ser desrespeitadas. E os jornais nacionais e as televisões descobriram Barrancos, montando arraiais nesta pacata povoação alentejana, no afã de ocupar tempos de antena vazios e desinteressantes num período em que as notícias políticas escasseiam, dada a circunstância de os protagonistas estarem a banhos nas estâncias balneares do sul ou “a correr mundo” pelo estrangeiro.

Certo e sabido o último fim-de-semana de Agosto estava sinalizado nas agendas das redacções para mediatizar a contestação às corridas de toiros de morte, pois, claro, não lhes interessava publicitar as festas populares de Barrancos, porque isso “não era notícia”. Após alguns anos de luta, conseguiu-se a legalização das festas, concedendo- se um carácter de excepcionalidade à morte dos toiros na improvisada arena, até porque estes festejos taurinos não tinham enquadramento nos tipos de espectáculos tauromáquicos previstos regulamentarmente, e a contestação foi decrescendo, logo jornais e televisões foram-se afastando de Barrancos, já quase não se dando conta das festas nem das corridas de toiros.

O povo barranquenho, claro, agradece, pois para si as festas sempre tiveram uma dimensão ritual que as justifica no quadro festivo que as sucessivas gerações foram consagrando, dispensando bem a presença dos forasteiros, especialmente dos que não se identificam com os seus princípios e só lá iam como intrusos para contestar.

Agora na pacatez local de Barrancos, zona raiana onde a cultura espanhola tem tanta presença como a nacional, cumpre- se integralmente a tradição e o povo vive convictamente estas festas que tanto aprecia. Na secção dos “Próximos Cartéis”pode consultar os cartéis das diversas corridas.Saiba que se for por bem é muito bem recebido em Barrancos, se for por mal, é melhor não ir.

 

  *Texto publicado em edição impressa de 28 Agosto

Download PDF