João António Arruda (1868-1934) partiu de comboio numa peregrinação franciscana, liderada pelo Arcebispo de Évora D. Manuel da Conceição Santos, com destino a Itália, a 30 de Maio de 1927 e, “como de costume, saberá transmitir na sua prosa máscula e cintilante as impressões da sua viagem pelas terras de sonho que vai percorrer” (CE, 4/6/1927, p. 1). Entre 9 de Julho e 29 de Outubro de 1927, o director do Correio da Extremadura publicou treze artigos no seu Jornal alusivos aos principais locais que visitou, sob o título “Uma Romagem Franciscana. Céus de Itália (Apontamentos de um Peregrino)”. No primeiro desses artigos, João Arruda descreveu a sua breve passagem no santuário de Lourdes, Marselha, Cannes, Nice e Monte Carlo, antes de passar a fronteira italiana, onde a chuva foi uma presença constante. Da visita a Lourdes recordou a sua estadia no “Angelie Hotel”, situado na rua do Calvário, um dos pontos elevados da cidade, e que recomendava a todos os que visitassem aquele santuário Mariano. O reconhecimento de Marselha foi feito de táxi, ficando João Arruda a conhecer as ruas muito movimentadas, o importante porto e o santuário neobizantino de La Garde. Sempre sem perder de vista o Mediterrâneo, o viajante percorreu a florida “Côte d’Azur”.

A primeira impressão da Itália foi a de um país cheio de flores onde as montanhas tentam esconder o mar. Mussolini marcava presença em cartazes que davam vivas ao “Duce”. Os jovens fascistas que encontrou nas estações faziam impor as leis do ditador, “sem vexame, agindo mais pela persuasão que pela violência… quando os não contrariam” (CE, 9/7/1927, p. 1).

A primeira noite foi passada no hotel “Albergo Nacional”, em San Remo, onde predominavam as unidades hoteleiras e o convento de franciscanos franceses. O hotel mereceu as melhores referências a João Arruda excepto o elevado preço dos vinhos, acrescido de uma taxa pelo serviço do criado, “uma autêntica ruína para o viajor” (Idem).

O segundo artigo foi dedicado a Génova, ao seu porto marítimo de enorme importância comercial, mas também às estreitas ruas cravadas de palácios e de igrejas. Arruda destacou o “Duomo” de S. Lourenço, edificado no século XI e a igreja da Anunciata, mas também os museus que abrigavam obras de pintores italianos e flamengos.

CE, 3/11/1928, p. 3

Finalmente, visitou o cemitério, só comparável ao de Milão, no seu conjunto arquitectónico e escultórico. A visita a Génova só não foi perfeita porque a cozinha do Hotel Nacional não estava preparado para os estômagos exigentes em qualidade e quantidade dos viajantes. O comboio entre Génova e Roma parou três horas em Pisa. O avançar da noite assustou a maioria dos viajantes que preferiram cear salame de Bolonha a visitar a famosa torre inclinada. Arruda juntou-se aos mais audazes que perturbaram o silêncio da cidade adormecida e admiraram as proezas da arquitectura.

Roma aproximou-se após a passagem pelos montes Albanos, as montanhas de Sabina e estações ferroviárias periféricas. Arruda fez o percurso até ao “Albergo Milano”, na “piazza di Colona”, no segundo andar de um autocarro verificando a grandeza da cidade, das basílicas, dos palácios, dos arcos triunfais, das fontes, da estatuária… Este dedicou três artigos à cidade eterna, “mostruário de todas as civilizações” e “flagrantes contrastes”. Das centenas de igrejas romanas, João Arruda optou por visitar as sete “que a todos os outros templos sobrelevam em sua grandeza e feição artística, depositárias de relíquias famosas” (CE, 30/7/1927, p. 1): S. Paulo, S. João de Latrão, S. Sebastião, S. Lourenço, Santa Maria Maior, Santa Cruz de Jerusalém e S. Pedro. Nesta última sentiu-se esmagado pela sua grandiosidade mas também pela visita aos jardins, ao museu do Vaticano e à capela Sistina.

João Arruda subiu ao Capitólio, percorreu o Fórum, admirou o Coliseu, surpreendeu-se com o Panteão, encontrou a loba que alimentou Rómulo e Remo, avistou Marco Aurélio no alto do seu cavalo, entrou nas Catacumbas à luz de uma vela, dobrou o arco de Constantino, avistou o castelo de Santo Ângelo, visitou os Museus Capitolinos, observou a “Villa Borghese”, permaneceu nas termas de Caracala e … em Roma sentiu-se romano. Nas ruas da capital italiana não existiam engraxadores mal trajados que se impunham para limpar as botas dos passeantes e os cauteleiros rareavam, contrastando com homens que aguardam quem quisesse limpar o calçado ou vendedores de postais, álbuns, mapas e “chinesices”. Aproveitando o baixo preço dos táxis romanos, Arruda visitou as estâncias de veraneio Frascati e Tivoli, onde se encontrava o último reduto do imperador Adriano, a “Villa Adriana”.

Quer os franciscanos portugueses quer o arcebispo de Évora que acompanhavam os peregrinos onde se integrava João Arruda, conseguiram que o grupo assistisse a uma missa presidida pelo Papa Pio XI que também lhes concedeu uma audiência.

No sétimo artigo, Arruda relatou a sua visita a Assis, onde tudo na cidade remetia para a vida de S. Francisco. Na cidade medieval, os viajantes ficaram instalados no hotel Windsor. Estes dividiram o seu tempo entre os serviços religiosos e a visita a diversos monumentos como a basílica de S. Francisco, a igreja de Santa Clara, a Catedral do século XII, a igreja de Santa Maria Maior, o templo de Minerva e o Paço Episcopal. Nos arredores de Assis, Arruda visitou o santuário de S. Damião onde S. Francisco compôs “Cântico do Sol”. Posteriormente, visitou o mosteiro de Montalverne onde dividiu uma refeição com os frades franciscanos.

Em Florença, João Arruda partilhou o hotel “Stella de Itália” com um grupo de viajantes americanos. Apesar de “os bilhetes de entrada nos museus terem um custo verdadeiramente escaldante”, Arruda visitou a Galeria dos “Uffizi”, a Galeria “Pitti”, a Catedral e o Baptistério. No percurso entre Florença e Pádua, os viajantes pernoitaram em Bolonha, situada nas vertentes dos Apeninos. O grupo chegou a Pádua no dia de Santo António onde assistiu a uma missa presidida pelo Arcebispo de Évora na capela tumular do santo português.

Os artigos dez e onze foram dedicados à cidade de Veneza, onde o panorama do “Grande Canal” pareceu infindável a Arruda. Este ficou instalado no Grande Hotel do Lido, na ilha do Lido, onde abundavam os casinos, as unidades hoteleiras cheias de americanos, os cafés “e as mulheres louras, de carnação de morango e leite, que a todas as horas tomam banho e percorrem, despreocupadamente, a ensombrada avenida de Santa Maria Elisabeta, no mesmo traje de odaliscas com que confiaram às ondas os mais recônditos encantos da sua plástica!” (CE, 1/10/1927, p. 1). A sua primeira travessia do golfo permitiu-lhe entrar na praça de S. Marcos à noite, no decorrer de um concerto por uma banda composta por oitenta executantes.

CE, 6/10/1928, p. 3

Durante três horas, Arruda percorreu de gôndola “os recantos obscuros da cidade dos Doges”. Também assistiu à procissão do Corpo de Deus que saiu da basílica de S. Marcos e percorreu a praça com o mesmo nome. Perante as expectativas, os viajantes portugueses ficaram decepcionados porque a cerimónia “não evidenciou aquela nobre compostura, aquela escrupulosa ordenação, aquele recolhido devotamento que se notava nas antigas procissões lusitanas” (CE, 8/10/1927, p. 1). Afinal “nem tudo é apoucado e mesquinho na terra portuguesa” (Idem). A ponte dos Suspiros, o palácio Ducal, a torre do Relógio foram monumentos que ficaram retidos na memória de Arruda, assim como a quantidade elevada de pombos que sobrevoavam o património veneziano e que ocupavam a praça de S. Marcos pois “a toda a hora eles deambulam pelo terreiro central, poisam nas colunatas da Catedral, catam as próprias barbas dos santos e, nos momentos críticos, estercam sobre o dorso dos cavalos de bronze dourado (…) gozam de privilégios e regalias concedidas pelo município, sendo vedado a qualquer atentar contra a sua existência, sob pena de cair na alçada das justiças” (Idem).

Milão foi a última cidade italiana visitada por João Arruda. Aí a sua atenção concentrou-se no “Duomo”, na Catedral, na colunata de S. Lourenço, no teatro Scala e na obra de Leonardo da Vinci, “A Última Ceia”. Para Arruda, a Galeria Victor Emanuel II era um templo
ao comércio pela sua originalidade e grandeza, “uma espécie de Chiado, com menos ociosos e mais vidros de cristal” (CE, 15/10/1927, p. 2).

A viagem de regresso foi feita com tranquilidade e paragens em Marselha, Lourdes, San Sebastian, Burgos, Salamanca e finalmente em Vilar Formoso.

Estava cumprida a peregrinação franciscana por terras italianas. As crónicas registadas ao longo da viagem e publicadas no Correio da Extremadura foram coligidas em livro com o objectivo de servir de apoio a futuros romeiros. A capa ficou a cargo do colaborador do Jornal, Faustino da Rosa Mendes (1902-1935). A obra Céus de Itália foi posto à venda na tipografia do Correio da Extremadura, em Setembro de 1928. A edição brochada custava 6$00 enquanto a cartonada orçava em 9$00. O livro mereceu as melhores críticas nomeadamente do Diário de Notícias e da Vida Ribatejana.

Teresa Lopes Moreira