A integração da arte da falcoaria em Portugal na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da UNESCO será, para os falcoeiros portugueses, “determinante para que esta prática continue viva” e, para Salvaterra de Magos, factor de visibilidade.

A decisão sobre a inclusão de Portugal no grupo de 13 países que viram a falcoaria reconhecida como Património da Humanidade pela UNESCO vai ser tomada quarta-feira, na 11.ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que decorre até sexta-feira, em Adis Abeba, na Etiópia.

“A classificação da falcoaria é determinante para a prática nacional”, disse à Lusa Pedro Afonso, presidente da direcção da Associação Portuguesa de Falcoeiros (APF), entidade que, com a Universidade de Évora, apoiou a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos na elaboração de uma candidatura que começou a ser preparada há três anos e que foi entregue à UNESCO em 2015.

No cerne da candidatura está a existência em Salvaterra de Magos de um edifício “completamente icónico”, a Falcoaria Real, construída no século XVIII por ordem de D. José I, classificada em 1953 como Imóvel de Interesse Público e recuperada pelo município em 2009, depois da aquisição a um privado que usava o espaço como celeiro agrícola, sendo actualmente um “museu vivo”.

Hélder Esménio, presidente da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, disse à Lusa que o “selo” da marca UNESCO ajudaria a certificar a qualidade da falcoaria que se pratica em Portugal e a valorizar internacionalmente um património que é único no país e que é motivo de “orgulho” para um concelho “com mais de sete séculos de história”, marcada pela ligação à família real.

O autarca destacou o trabalho que, a partir do museu, é desenvolvido em parceria com os falcoeiros, dando conteúdo à marca “Salvaterra de Magos – Capital Nacional da Falcoaria” registada pelo município em 2014.

Para Pedro Afonso, o reconhecimento pela UNESCO fornecerá “o argumento que faltava” aos falcoeiros para resolver “dificuldades” que põem em causa a continuidade desta prática ancestral no país.

Em particular, referiu o trabalho de “sensibilização” que terá de ser feito para permitir o acesso dos falcoeiros às Zonas de Caça, pois é fundamental que tenham locais para praticar, bem como na redução da “burocracia excessiva” existente no processo de registo das aves.

Lembrando que a falcoaria é uma prática que remonta ao período anterior à fundação do país, Pedro Afonso afirmou que os princípios se mantêm – o respeito pela ave, pelo ambiente, pela presa capturada, a prevalência da beleza do lance de caça em plena natureza sobre o ato em si -, tendo apenas havido evolução nas técnicas e nos equipamentos, aproveitando as novas tecnologias e os ensinamentos dos muitos estudos científicos nesta área.

A abertura da Falcoaria Real a estudiosos e investigadores é uma das ambições de Hélder Esménio, acreditando Pedro Afonso que a inscrição como Património da Humanidade irá permitir aprofundar o trabalho de caracterização das “marcas identitárias” da falcoaria portuguesa e a sua difusão.

O reconhecimento pela UNESCO oferece ainda um potencial de desenvolvimento económico, nomeadamente pela inserção na oferta da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo (ERT-AR), que, após a adesão dos municípios da Lezíria do Tejo, entrou como parceira no processo.

António Ceia da Silva, presidente da ERT-AR, disse à Lusa que este é um dos produtos que responde à procura de destinos identitários que o turista do tempo actual (com um perfil mais culto e mais informado) procura e que esta entidade de turismo tem procurado desenvolver, na convicção de que “a classificação é um factor promocional muito forte”.

“Valorizar a falcoaria e Salvaterra de Magos vai incrementar em muito o turismo. Com a classificação criam-se dinâmicas, rotas, percursos, torna-se o património um valor para o território”, afirmou.

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