No passado fim de semana estive no encerramento do Festival de Folclore Celestino Graça. Os grupos de folclore nacionais que marcaram presença no encerramento partilharam com todos os presentes um enorme conjunto de saberes e tradições sobre os quais valerá a pena fazer uma reflexão.

Estes homens, mulheres, jovens e crianças abdicam de parte do seu tempo livre para, em conjunto, numa partilha inter-geracional, apreenderem e salvaguardarem as tradições de uma determinada comunidade. Cada grupo de folclore tem as suas características muito próprias que resultam das vivências ancestrais, dos seus usos e costumes e que retratam as várias profissões e os estratos sociais.

Não será por acaso que estes grupos existem apenas nos meios rurais. Não será também de estranhar que nestas regiões a proximidade e o respeito pela sabedoria popular ainda subsistem e que, diariamente, não apenas os vizinhos se cumprimentam quando se cruzam na rua como também os desconhecidos, que por se cruzarem tão amiúde, passam a ser também conhecidos.

E vem esta reflexão a propósito precisamente da importância da preservação desses valores associados ao mundo rural e que tanta relevância têm na construção da identidade dos povos.

Nos muito conturbados meses do último ano político, diversas vozes, suportadas por algumas forças políticas, se levantaram com inúmeras propostas de proibições e condicionamentos de atividades directa ou indirectamente relacionadas com animais ou com o campo, numa prepotente e totalitária postura de serem os donos da razão e de imporem a todos o modo de estar de alguns.

São disso exemplo a proposta de alargamento da criminalização dos maus tratos a todos os animais, e que demonstra bem a ignorância de quem não distingue um animal de companhia de um animal de trabalho ou de criação!; a criminalização do abandono de animais (acto obviamente condenável) por contraponto à indiferença perante o abandono de idosos, ou ainda a tentativa de proibição da actividade de hospedagem sem fins lucrativos para reprodução ou criação de animais, sem perceber que anularia a criação de animais de raças autóctones que é, não amiúde, realizada por pequenos produtores nesses circunstâncias.

Questiono-me se, quem ataca estes e outros valores e actividades tão presentes no dia a dia de todos quantos vivem nos meios rurais, conhece o seu vizinho do lado e o cumprimenta todos os dias de manhã?

 

Patrícia Fonseca

Deputada do CDS/PP eleita por Santarém

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