Esta semana, um senhor alemão cujo nome nem me lembro mas que é Comissário Europeu, veio a Lisboa, foi recebido na Assembleia da República, e perante a Comissão Parlamentar de Assuntos Europeus admitiu que Portugal poderia precisar de um segundo resgate, com a sibilina afirmação de que essa probabilidade é superior a zero.

Lembrou-me um amigo meu que esse cálculo de probabilidades se presta a outras extrapolações. Também se pode dizer que a probabilidade do senhor comissário levar com uma cagadela de pombo caída das alturas à saída do palácio de São Bento é superior a zero. Mas bem mais a sério, também se pode dizer que a probabilidade do todo poderoso Deutsche Bank conduzir a um descalabro sem precedentes na banca europeia é bem superior a zero. Mas isso não parece preocupar o senhor comissário.

Os mandantes da União Europeia andam muito preocupados é com a economia portuguesa. Quando há uns anos impuseram o famigerado resgate que um Governo PS desgraçadamente assinou e que o Governo PSD/CDS tragicamente executou, fizeram-no em nome da necessidade de respeitar os limites do défice impostos pela zona euro. O Governo PSD/CDS fez tudo o que lhe mandaram e ainda se gabou de ter ido mais além. O atual Governo PS, com os acordos que o viabilizaram, procedeu à reposição de direitos e conduziu a alguma recuperação dos rendimentos de largas camadas da população, mas não pode ser acusado de ter posto em causa o cumprimento das metas do défice com que se comprometeu na União Europeia.

Como se explica então que se repitam as ameaças de sanções e de cortes de fundos estruturais a Portugal, num coro inadmissível de chantagem e de ingerência onde pontificam os mais altos responsáveis da União Europeia e do FMI? Explica-se pela natureza de uma União Europeia a que a crise fez cair a máscara. A União Europeia não é, nem nunca foi, um projeto de coesão económica e social, mas um processo de integração capitalista, neo-liberal, onde os mais poderosos impõem o seu domínio sobre as economias mais frágeis e não admitem que os povos possam decidir do seu destino. Mais cedo ou mais tarde, o povo português terá de se libertar desta dominação.

António Filipe

Deputado do PCP eleito por Santarém

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