Por uma vez, na Assembleia da República, falou-se de folclore. Porque resolvi levar o assunto para o debate com o Ministro da Cultura, sobre o Orçamento de Estado para o próximo ano.

Nenhuma atividade cultural agrega mais gente neste país, enquanto mobilização regular de agentes culturais, do que o chamado Movimento Folclórico. São mais de 1500 agrupamentos, envolvendo diretamente mais de 70 mil pessoas em todo o país, muitas (mesmo muitas) no distrito de Santarém e fazem um trabalho notável de preservação da memória das matrizes culturais que nos enformam como povo e nação.

Pensar a cultura tradicional e o folclore, enquanto património ancestral em que assentam as nossas raízes, bem como a necessidade premente da sua pesquisa, conservação e divulgação, constituem hoje imperativos de afirmação nacional, numa Europa, cadinho de nacionalidades.

Afinal, quem não valoriza as suas raízes passadas, dificilmente criará condições de afirmação futura.

Porém, a área cultural do Folclore continua a social e politicamente muito desvalorizada e encontra-se numa encruzilhada de conceitos e preconceitos A necessidade de obter uma formação científica específica, capaz de fundir o conhecimento empírico com a sistematologia de métodos e análises, surge como indispensável imperativo, para o qual se necessita de valorização institucional e apoio governativo.

Os agentes do movimento folclórico precisam de apoio que lhes permita contextuais conhecimentos sociais e culturais, metodologias de pesquisa e capacidade para definir conceitos, tendo em conta os pressupostos históricos e culturais. Que lhes dê a perceber métodos e técnicas de manipulação, conservação e restauro dos artefactos recolhidos e entender as realidades museológicas, numa perspetiva moderna e interativa. E que os apetreche para compreenderem as lógicas que presidem ao funcionamento das organizações e fornecer-lhes os meios eficazes e modernos da organização administrativa dos grupos e demais estruturas associativas.

Foi o que disse ao Ministro da Cultura. A resposta foi demasiado lacónica. A ideia de que o movimento folclórico tem dignidade cultural ainda tem muito caminho por fazer. Mesmo nas esquerdas.

 

Carlos Matias

Deputado do BE eleito por Santarém