Escrevo esta crónica no segundo dia de luto nacional decretado por morte do antigo Presidente da República, Mário Soares. Quis o destino que esta fosse a semana que me estava destinada para publicação. Ao longo da vida cruzei-me ocasionalmente com Mário Soares; intencionalmente resisto a procurar uma fotogra a em que estivesse a seu lado ou a relatar um episódio de proximidade para demonstrar a intimidade que nunca tive. Não. Não vou por aí. Tenho com Mário Soares uma relação assente nas minhas referências, nas minhas memórias e nas minhas representações. Naquela imagem exultante do primeiro primeiro de maio em Liberdade, quando o vi em Lisboa no estádio onde todos rumámos naquele dia; num discurso arrebatador feito pouco depois de 1975 num comício em Valado de Frades onde fui com os meus pais, durante umas férias de verão, para ouvirmos “o que tinha Mário Soares afinal para nos dizer”; ou, já adulta, em ocasiões marcadas pelo entusiasmo da ação política ou pela solenidade protocolar.

Sempre me fascinou o forte traço de Mário Soares que unia estas décadas e todas estas vivências: um Homem com sólidas referências para quem o conhecimento e os livros eram o que distinguia os homens uns dos outros;uma fidelidade absoluta à palavra Liberdade, princípio fundamental não apenas proclamado mas vivido; um Homem que nunca virou a cara à luta, fosse para perder, fosse para ganhar, como tão bem o demonstra quando diz “só é vencido quem desiste de lutar”; um Homem tolerante, laico na vida privada, ecuménico na vida pública. Solidez, determinação, respeitabilidade, tenacidade e coragem foram algumas das características que sempre vi em Mário Soares. Foi sempre esta força que me mobilizou. Mas também a forma como nunca se resignou às adversidades e como delas fez forças para encetar novas batalhas, com absoluto respeito pelos adversários, sem nunca os poupar à sua combatividade nem à sua capacidade, única, de argumentação.

Se nestes quase quarenta e três anos de regime democrático pensamos livremente e com liberdade nos expressamos, é também a Mário Soares que o devemos. O grande ensinamento que retiro da sua relação com a Liberdade é que esta não é um dado adquirido e que a temos de manter e preservar; é também essa a sua lição de vida. Marcam-me ainda alguns momentos determinantes da ação de Mário Soares,
todos fundamentais para a nossa vida coletiva. A decisão de fundar o Partido Socialista antes de abril de setenta e quatro –se à data da revolução o PS não existisse, o rumo de Portugal poderia ter sido outro; o papel que assumiu durante o PREC e a sua capacidade de aglutinar várias forças para construir uma Democracia pluralista, pluripartidária e naturalmente tolerante; a decisão de propor a adesão de Portugal à CEE, materializando a sua enorme capacidade de abrir Portugal ao mundo; e o seu legado como Presidente da República, Presidente de todos os portugueses, em que introduz e leva à prática, pela primeira vez, o conceito de magistratura de influência.

No momento em que me preparo para acompanhar o seu último adeus, estou certa que a História universal continuará a fazer-lhe justiça. A mim, cidadã portuguesa que ainda viveu em ditadura, que transmiti os valores de abril aos meus  lhos e que gostaria de os ver transmitidos aos meus netos, resta-me agradecer, muito emocionada, a Mário Soares. Até sempre, camarada!

Idália Serrão

Deputada do PS eleita por Santarém