DSC_4410A corrida de toiros à portuguesa anunciada para o pretérito sábado, dia 24 de Outubro, e cujo lucro (eventual) reverteria a favor da Santa Casa de Misericórdia de Santarém, foi cancelada devido ao mau tempo que se fez sentir em toda a região, e que se agravou à hora anunciada para o início do espectáculo. É pena, por um lado, mas talvez fosse melhor assim, tão escassa era a procura de bilhetes, pelo que a receita que se pudesse apurar dificilmente chegaria para pagar as despesas de organização, logo não sobraria qualquer benefício para a Misericórdia.

Tal contingência – o mau tempo – está muito intimamente ligada a este sector de actividade, daí que o maior número de espectáculos tenha tradicionalmente incidência no verão – o que é confirmado pelo aforismo popular segundo o qual “os toiros querem sol e moscas”. Nada de mais! Aliás, os antigos cartazes taurinos espanhóis apresentavam a seguinte inscrição – “Con permisso de la Autoridad e si lo tiempo no lo impide”. Em algumas localidades optou-se pela cobertura dos recintos tauromáquicos, o que permite a realização de espectáculos sob as mais adversas condições climatéricas, para além de favorecer a polivalência do seu uso, contudo, no caso escalabitano, tal solução não é previsível, e talvez até nem seja justificável, tão elevados seriam os respectivos custos.

No caso concreto da Monumental “Celestino Graça” o que podemos lamentar é que se desperdicem boas datas em tempo estival, nomeadamente durante a Feira do Ribatejo, e se anunciem espectáculos para datas em que a probabilidade de mau tempo é maior. Sem ter a pretensão de querer ensinar a missa ao padre e reconhecendo que quem sabe do convento é quem lá está dentro, afigura-se-nos que o calendário do tauródromo escalabitano deveria ser revisto, sob pena de se assistir placidamente ao seu definhamento e à consequente perda de importância no cotejo com os principais tauródromos nacionais.

A organização de espectáculos taurinos encerra em si mesma um conjunto de especificidades que têm de ser tidas em conta, porém, há regras que são comuns a todos os espectáculos, e que nunca devem ser esquecidas, a menos que se pretenda ter o insucesso como resultado garantido.

A escolha das datas, a elaboração dos cartéis, a promoção dos espectáculos e o ajustamento das bilheteiras à realidade socio-económica local são aspectos que nunca poderão ser desprezados, e tantas vezes registamos a sua negligência por parte das empresas. Cada praça de toiros é um caso singular no que concerne às datas tradicionais, ao gosto e à exigência do seu público e quanto ao respectivo poder de compra. A opção de organizar corridas de toiros fora das datas tradicionais encerra em si mesma um risco acrescido, o qual só poderá ser combatido com a força do respectivo cartel e com uma promoção muito bem efectuada.

Os cartéis da maioria das praças portuguesas – salvo raras e louváveis excepções – têm pouco interesse, pois, estão sujeitos às negociatas entre empresários-apoderados e apoderados-empresários, o que contribui para a repetição de cartéis em praças muito próximas. Com a vida difícil, os bilhetes caros e os cartéis repetitivos é natural que o público deixe de afluir às praças de toiros. Onde há não muitos anos era frequente vermos famílias inteiras a assistir a uma corrida, actualmente apenas se vê uma ou duas pessoas do mesmo agregado familiar. Dá que pensar…

Voltando a Santarém e ao espectáculo a que nos vimos referindo, talvez a chuva e as suas consequências até tenham sido um mal menor, pois, se o espectáculo se tivesse realizado há um conjunto de factores que teriam suscitado acesa controvérsia.

O cartel foi alterado à última hora devido ao impedimento do cavaleiro Tomás Pinto, que seria substituído por ”Parreirita Cigano”. Se o cartel já não era muito forte, assim, e com o devido respeito pelo valoroso “Parreirita”, ainda o ficava menos, pois o marialva de Paço d’Arcos é um dos mais competentes cavaleiros da sua geração e “Parreirita” é ainda um auspicioso cavaleiro-praticante, para quem esta oportunidade era, convenhamos, muito boa, após as satisfatórias prestações no Cartaxo e no Campo Pequeno, mas para o público não era exactamente a mesma coisa.

Alguns dos toiros anunciados não tinham o peso regulamentar para serem lidados numa corrida de toiros na Monumental “Celestino Graça” – praça de primeira categoria – pelo que, em vez de se irem buscar outros toiros, com peso igual ou superior a 450 kgs. e quatro anos de idade (Art.º 33º, Al. a) do Regulamento Tauromáquico), se optou por “desclassificar” o espectáculo para Festival Tauromáquico, o que permitiria a lide de reses do sexo masculino que não estariam sujeitas a limites mínimos nem de idade nem de peso. Quem viesse de longe para assistir a uma corrida de toiros era confrontado com a realização de um Festival…

Acresce ainda que os toureiros deveriam apresentar-se em traje curto, como é obrigatório nos Festivais, o que não proporciona o mesmo luzimento e brilhantismo ao espectáculo.

Nesta situação duas perguntas, a nosso ver muito pertinentes, se colocam.

A primeira, é dirigida aos Ganadeiros que venderam toiros “sem peso” para este espectáculo – Desconhecem estes Senhores as cláusulas do Regulamento Tauromáquico no que concerne às reses a lidar nas diferentes categorias de praças e de espectáculos? Se desconhecem é grave, mas se conhecem o Regulamento e ainda assim negoceiam toiros que não cumprem as exigências regulamentares ainda é mais grave, na medida em que tal atitude consubstancia um verdadeiro e lamentável desrespeito pelo Público que, pagando o seu bilhete, viabiliza a actividade empresarial dos Ganadeiros.

A outra questão é dirigida à IGAC – Inspecção- Geral das Actividades Culturais, entidade estatal que tem a responsabilidade de licenciar os diversos espectáculos. Desconhece o Senhor Inspector-Geral, ou quem o representou ou substituiu na desclassificação da “Corrida de Toiros” para “Festival Tauromáquico”, que deste modo estava a lesar os direitos e os interesses do Público que pagaria um bilhete para assistir a um determinado espectáculo e depois iria assistir a outro, sem a tempestiva publicitação da alteração?

Enfim, é por estas e por outras que a actividade tauromáquica vai conhecendo tantas vicissitudes e está tendencialmente ameaçada de morte num futuro mais ou menos próximo, num tempo em que na Assembleia da República aumenta o número de Deputados anti-taurinos. É claro e óbvio que com atitudes atentatórias da credibilidade da Festa Brava e dos seus Agentes os detractores nem precisam de se mexer muito para conseguirem os seus intentos. É só esperarem que o tempo passe. E nós continuamos a assobiar para o lado, como se não fosse nada connosco…

Com o meu silêncio não contem, ainda que às vezes seja um pouco incómodo, mas prefiro não ter problemas de consciência a assistir serena e paulatinamente ao definhamento de uma Festa de que tanto gosto!

LM

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