As próximas apresentações do ciclo Nova – Velha Dança, promovido pela associação Parasita acontecem já amanhã, dia 20 de Maio (Sábado).
image002A partir das 18.30, a INcubadora d’Artes será ocupada pelos artistas Vânia Rovisco, Carlota Lagido, Sónia Baptista e Daniel Pizamiglio, que trarão ao público as suas performances, reinterpretações adaptadas e repensadas para este novo espaço (e tempo).

Vânia Rovisco fará a primeira apresentação com Reacting to Time, portugueses na performance. Rovisco, artista multidisciplinar e bailarina, tem vindo a inquirir formas de transmissão de corporalidade num projecto de reacção temporal, alicerçado numa investigação sobre o movimento da performance em Portugal. Esta ideia de recuperação de arquivos, discursos, estéticas e corporalidades surge sobretudo de uma vontade que, a partir dos anos 2000, tem insistindo em “reenactments”, “reposições”, “reactivações”, que reivindicam um presente trans-histórico, trespassado pela memória e por reflexões sobre o seu papel nas artes performativas contemporâneas. Para este ciclo, a artista propõe transmitir o trabalho de António Olaio – Il faut danser Portugal (1984), que significa literalmente “Há que dançar Portugal”,  aos alunos do Curso Profissional de Artes do Espetáculo – Interpretação da Escola Secundária Dr. Ginestal Machado. Como se poderá ler na sinopse da performance, Reacting to Time, portugueses na performance, procura actualizar a especificidade da memória corporal destas primeiras experiências. Aceder à origem dessa informação, actualizá-la pela transmissão da experiência directa e apresentá-la publicamente, são os objectivos deste projecto. Trata-se de constituir um arquivo vivo, tornado presente nos corpos. Vânia Rovisco desenvolverá um trabalho de contextualização e de investigação e trabalhará com os primeiros agentes da performance em Portugal na actualização destes trabalhos inaugurais para posteriormente os transmitir. Trata-se de toda uma linhagem não transferida, um passado pouco ou nada presente. REACTING TO TIME, portugueses na performance pretende promover o conhecimento de alguns autores do período em foco e dos seus trabalhos. Um legado transmissível – como é o caso da linguagem do corpo, que provém de uma relação de acumulação de acções culturais reflexivas – não ter continuidade ou até não estar presente na memória é uma falha no (re)conhecimento de um património que nos pertence.

Seguindo a mesma linha de “Há que Dançar Portugal” convidam-se 3 artistas de 3 gerações distintas, cujo trabalho coreográfico se cruza com aquilo que poderíamos insinuar serem operações da performance para, através dos seus trabalhos, se reflectir sobre esta relação.

Carlota Lagido, bailarina-arquivo da obra de várias gerações de coreógrafos, apresenta uma das suas primeiras experiências coreográficas notforgetnotforgive (1999, 25’), de 1999, para o Projecto 99 de Francisco Camacho, originalmente criada para um wc masculino. Nas palavras de João Manuel de Oliveira, notforgetnotforgive, pode ser lida como um posicionamento acerca da importância da inscrição num mundo crescentemente amnésico. (…) Em notforgetnotforgive, essa amnésia é recusada e desconstruída através de políticas da memória, com possíveis leituras autobiográficas presentes na obra de Lagido.

Sónia Baptista – coreógrafa, bailarina e escritora – revisita um dos haikus (俳句), nome dado a uma forma curta de poesia japonesa, da sua peça homónima de 2002. Moustachu, Lamento da Mulher não Barbada, ou Ser Mulher é ter Pêlo Onde se Quer (2002/16, 10’)dialoga inevitavelmente com a peça de Duchamp, L.H.O.O.Q., 1919onde este acrescentava um bigode e uma pera à famosa Mona Lisa. Para Baptista, “Se os bigodes eram coisas de homens, os seios eram coisas de mulheres. Frequentemente, os dois encontram-se em paisagens des-amorosas. Porque, hoje, complica-se o género numa revolução capilar.”

Por fim, Daniel Pizamiglio, bailarino e coreógrafo fortalezense radicado em Lisboa, convoca o movimento da poesia concreta e uma certa ontologia da dança enquanto evento da efemeridade e do desaparecimento, na sua mais recente performance Dança Concreta (2016, 10’), realizada no final do curso PEPCC do Fórum Dança, onde se cruza com Vânia Rovisco e Sónia Baptista.

O programa é complementado com uma intervenção da investigadora e historiadora Verónica Metello sobre a história da performance no território das artes visuais em Portugal, na masterclass É preciso dançar ou Como fazer as coisas, às 16h na Incubadora d’Artes, que dará azo a um debate alargado sobre a porosidade entre conceitos de dança e performance, com vários convidados, dos quais os artistas e percursores da performance em Portugal António Olaio e Clara Menéres, e ainda Ana Bigotte Vieira.

As próximas apresentações do ciclo acontecerão em Junho (16 e 17): Ana Rita Teodoro estreiaPalco e Pavilhão no âmbito da sua Colecção Delirar a Anatomia (fará também a reposição deOriffice Paradis e Sonho d’Intestino), Carlos Manuel de Oliveira estreia também a sua peça do desconcerto, por um lado / da aventura, por outro, e o ciclo termina com o lançamento do novo disco e concerto do pianista Simão Costa, que trará Beat Without Byte.

Entretanto continua até Junho (17) a instalação PARA UMA TIMELINE A HAVER genealogias da dança enquanto prática artística em Portugal e a exposição A  Dança do Existir – Retrospectiva em imagens do trabalho coreográfico de Vera Mantero.