Tenho a felicidade de ser constantemente surpreendido. Recentemente na China, num pequeno circo, vi uma cabra ser elevada a 5 metros, e, para espanto meu, a cabra para a frente e para trás num arame andou. Com os quatro cascos passeou em equilíbrio por cima da pista, como de coisa banal se tratasse. Umas semanas atrás, nas Filipinas, vi bácoros a dançar ao canto do dono ….. Com o que se passa em Portugal, surpreendo-me todos os dias. Na área da política claro. A surpresa de hoje (15.4.2010) é a notícia que me chega, de que um antigo oficial do Exército, preso pela Polícia Militar e depois pela PIDE, se candidata pela segunda vez a Presidente da República, logo, por inerência, ao cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas. Candidata-se afirmando ser homem de convicções e com personalidade para o cargo. A prisão a que foi sujeito enquanto militar, não teria importância alguma (veja-se Mário Soares) se não fosse as razões dela, e eu ainda não dei conta do candidato já ter esclarecido porque razão foi preso. Na minha vida de militar também tive 3 dias de prisão, injustamente diga-se, tantos como os louvores que recebi, e não me cai o nome na lama por isso. Quanto a este candidato, a crer nas muitas vozes, identificadas, que por todo o país se levantam, tal prisão deveu-se pela “simpatia que tinha com o inimigo que combatíamos”. É caso para perguntar: mas fez este candidato o seu Juramento de Bandeira? Fez, pois até serviu em África. A ser verdade o que por aí se diz, melhor fora que fugisse logo na sua mobilização. Era mais limpo. Como quem diz: sou homem informado, não concordo com esta guerra, fujo, não faço o meu juramento para com a Pátria. Aqui sim, mostrava ser homem de convicções, como afirma. Um colega meu do liceu, logo nos primeiros dias da recruta, urinava nas calças sempre que ouvia um tiro. Porque lhe esperava alguns anos de tiros à frente e não pretendia andar a mudar de calças a toda à hora, decidido, fugiu …. Não jurou, nem nunca mais o viram. Encontraram-no na Suécia depois de 74: gordo, bem instalado com cama, mesa e roupa lavada. Porque envergonhado, e não se querendo aproveitar da situação, digo da revolução, por lá continua. Eu e a esmagadora maioria dos portugueses cumprimos o serviço militar que jurámos; para com a Pátria, não para com governos ou regimes, pois como se dizia nesse tempo “ser uma obrigação para com a Nação na defesa da sua terra e das suas gentes”. Tivemos carácter. Fomos inteiros. Mesmo sabendo dos riscos que nos aguardavam. Infelizmente alguns tombaram no campo da honra em serviço de Portugal.

Há hipóteses deste candidato, mesmo sem esclarecer as razões da sua prisão, chegar a Presidente. Outros, que até fugiram, conseguiram-no. Aqui no Oriente tal aconteceu, não para o cargo de Presidente da República claro, mas para o de Vice-Rei na Índia. Eu conto.

«Segundo alguns historiadores passou-se tal com Lopo de Albergaria, comandante de um dos 5 navios da esquadra de Afonso de Albuquerque quando este, por ordem de D. Manuel, é enviado em 1506 como capitão-mor da “costa da Arábia” com o objectivo de combater os mouros, tomar a ilha de Socotrá e aí iniciar uma fortaleza, para fechar aos muçulmanos o comércio no Mar Vermelho. Este trabalho, de combater o bem armado Islão nas suas águas e ao mesmo tempo construir fortalezas em desertos com duros trabalhos e em difíceis condições, exigia coragem, sacrifício e amor pátrio. A estes trabalhos e àquelas traiçoeiras águas três capitães de navios, que perante o monarca haviam jurado servir Albuquerque e o Rei, novatos nestas missões asiáticas e discordantes com o comando enérgico de Albuquerque, desobedeceram e fugiram para a Índia, com Lopo de Albergaria à cabeça. Longe das guerras e dos sacrifícios, distorcendo as verdades da fuga, viveram estes fugitivos próximos do fragilizado Vice-Rei D. Francisco de Almeida, que acabara de perder o filho na batalha de Chaul. Frequentaram estes o ambiente palaciano com que o rajá de Cochim acolhia os capitães portugueses: mesa farta, naiques tangendo pífaros, bailadeiras envolvidos em excitantes véus, magníficos fogos de artifício. Em 1509 assume Albuquerque o comando da Índia. Lopo de Albergaria parte para Lisboa e na boa vida da rica corte manuelina, entre bobos e jograis, fazendo-se de vítima e valendo-se de amigos de pouca recomendação, tece intrigas procurando influenciar o rei contra o construtor do nosso Império Oriental. E consegue-o, pois em 1515 o rei nomeia este fugitivo para o governo da Índia.

Da governação de Lopo de Albergaria diz-nos Gabriel de Saldanha: “a disciplina afrouxou, a corrupção foi enervando o braço e o prestígio. Foram os primeiros sintomas que se manifestaram da nossa decadência. (…) com o correr dos anos a Índia ia apodrecendo na devassidão; o cinismo dos governantes, as revoltas e deserções, os roubos…”. Só 30 anos depois essa decadência findaria e o brilho da Índia renasceria, com a governação de D. João de Castro, homem de princípios e transparente, sólido e sem jogos de cintura, comandante único, coerente no discurso e não catavento, de ética imensurável, e de um inquestionável amor à Pátria, que até as barbas precisou de empenhar».

Alguma semelhança com o Portugal de hoje? Todas. O povo português desiludido, sofredor, menorizado, farto das corrupções, escândalos, etc., qual bálsamo revigorante nestes tempos conturbados precisa de um líder à imagem de um D. João de Castro. Não conheço o candidato em causa. Verifico poucas semelhanças: talvez a voz de comando, as barbas e o apelo frequente à ética, esta sempre adjectivada de republicana, (não gosto desta adjectivação política, pois limita-a enquanto ciência universal e absoluta; a Ética ou Moral, vale por si). Terá ele os outros atributos de D. João de Castro, tão necessários para nos retirar de imediato do caminho para o abismo, que parece ser o nosso destino, e obrigar o governo a dar um novo rumo a este país? Mas com seriedade por favor … pois ainda somos (e teremos que ser) um país com memória.