ludgeroO Festival de Folclore ‘Celestino Graça’ começou ontem em Santarém, prolongando-se até domingo. O director do Festival, em entrevista ao Correio do Ribatejo, avisa que se algum dia estiverem em causa valores de dignidade que não satisfaçam os organizadores deste evento, o mesmo “poderá ser extinto”.

Essa será uma realidade em que poucos acreditam, mas o responsável deixa o alerta: “ou as Autarquias se chegam à frente e nos apoiam ou o Festival pode morrer.”

Ludgero Mendes agradece as “bonitas palavras de alento e de estímulo para a Organização do Festival”, mas constata que, “na hora da verdade, poucos se chegam à frente”.

O responsável reconhece que o Folclore, no seu todo, “não goza de boa imagem” porque “quem tem a obrigação de o salvaguardar e dignificar, lamentavelmente, não tem feito bem o seu trabalho” e é de opinião que os programas extra-curriculares das escolas deveriam ter uma componente relacionada com a história local e com as tradições.

O etnógrafo não reconhece aos promotores da candidatura do Fandango a Património Imaterial da Humanidade “conhecimentos para defender esta dama” e mantem firme a ideia de que Celestino Graça justifica outro tipo de homenagem e de reconhecimento público. Na recta final desta entrevista lamenta que em Portugal haja ainda a ideia de que “o folclore é coisa de gente retrógrada e pouco desenvolvida cultural e socialmente”, conclui.

Há um ano, na anterior edição do Festival ‘Celestino Graça’, garantiu que “seja qual for o futuro do Festival, a dignidade da organização e do próprio evento nunca será posta em causa.” Continua a pensar assim?

Completamente. Quando estiverem em causa valores de dignidade que consideremos insatisfatórios, extinguiremos o evento. Em sentido figurado, digo-lhe que mais vale morrer de eutanásia do que andarmos moribundos a arrastar-nos pelas ruas da amargura…

O Festival regressou à Casa do Campino em 2015, ano em que se assinalou meio século da edificação daquele edifício emblemático da cidade de Santarém. A mudança está a ser uma aposta ganha?

O balanço em relação ao ano de 2015 foi francamente positivo, não ignorando, contudo, a perda de algumas condições de conforto para o público, que o Auditório do Cnema oferece e a Casa do Campino nem tanto, mas, por outro lado, houve substanciais ganhos ao nível do envolvimento e da afectividade do próprio Festival. A mudança, para além da redução de custos que lhe está implícita, foi amplamente positiva. Daí continuarmos neste espaço, alterando o formato e o próprio conceito do Festival. Não é uma fuga para a frente, mas sim uma evolução (do conceito) na continuidade (dos objectivos).

Este ano, que momentos do programa destacaria? E quais são as grandes novidades?

Mais do que momentos específicos, destaco a ambiência que pretendemos criar no Festival, sendo que este evento valerá – assim o desejamos – pela generalidade do seu vasto e diversificado programa e não apenas pela qualidade dos espectáculos de folclore. Queremos que o Festival constitua um espaço e um tempo de Festa e a Casa do Campino oferece-nos as condições bastantes para materializarmos o evento com que sonhamos, cuja concretização, contudo, não será alcançável logo no primeiro ano, mas estamos predispostos a caminhar em direcção ao nosso grande objectivo.

Serão as inovações preconizadas já o ano passado a assegurar a sua sobrevivência?

Ainda não este ano, pois, neste formato estamos a experienciar um “ano zero”, em que quase tudo é novo e em que o público não sabe muito bem ao que vai. Desejamos, num futuro próximo, que o público possa entrar no Festival à hora do almoço e sair de lá apenas ao final da noite, se porventura quiser desfrutar plenamente da vasta e diversificada programação que lhe oferecemos. Se este modelo for bem aceite pelo público, no próximo ano já poderemos assegurar parcialmente a sobrevivência do Festival, acrescentando a algum apoio oficial as receitas próprias resultantes do ingresso no recinto e do aluguer de alguns espaços.

O Festival “Celestino Graça” procura agora, neste novo modelo, envolver instituições sociais, culturais e recreativas do Concelho de Santarém. Quais foram ‘mobilizadas’ para a edição deste ano?

Teremos sempre a porta aberta à cooperação com todas as IPSS que queiram estar presentes no recinto do Festival, havendo diversas formas de fomentar uma interacção mútua e recíproca. Neste ano contamos com a presença – mais do que participação – de diversas instituições do nosso concelho na Gala de Encontro de Gerações que oferecemos às instituições que prestam apoio e serviço a idosos e a crianças. Contamos também com a efectiva participação da Associação de Desenvolvimento Social e Comunitário de Santarém na área das Tasquinhas. Em próximas edições poderemos ter outro tipo de cooperação. O essencial é que todos fiquemos a ganhar com esta partilha.

Nos últimos anos tem vindo nas suas intervenções públicas a alertar as autoridades locais para o perigo da continuidade deste evento, sobretudo pela escassez de apoios. A situação mantem-se este ano?

Sim, essa é uma ameaça que está sempre presente. Nós não sabemos fazer milagres, apesar de já fazermos algumas omeletas sem ovos… A organização do Festival Internacional custa mais de 30.000 euros e os valores dos subsídios oficiais não atingem 10% deste montante. Não é possível a Organização do Festival suportar sozinha o valor restante. O Grupo Académico é uma associação cultural sem fins lucrativos, e praticamente sem receitas. De modo que – sem pretendermos ser subsídio-dependentes, porque nunca o fomos, e a prova disso é que em três anos não recebemos um cêntimo de subsídio da Câmara para o Festival e nós mantivemo-lo – ou as Autarquias se chegam à frente e nos apoiam ou o Festival pode morrer. O próprio Programa de Apoio ao Associativismo da Câmara privilegia os Festivais de apenas algumas horas, na medida em que lhes atribui o mesmo valor de subsídio que ao Festival “Celestino Graça”, que tem uma duração de quase uma semana e mantém em permanência na cidade cinco grupos folclóricos estrangeiros, para além da participação de diversos grupos portugueses. É incompreensível uma situação destas. De duas uma, ou a Câmara apoia a organização do Festival “Celestino Graça” – assim como a do FITIJ – à margem do Programa anual de apoio ao Associativismo, ou, complementarmente, concede outro apoio, como factor de descriminação positiva. Se não for assim, o que acontece é que a Câmara está a estimular a realização dos festivais em que os Grupos folclóricos chegam para jantar, actuam e vão-se embora ao fim de meia dúzia de horas de terem chegado. Para este formato de festival o apoio recebido é razoável, mas para fazer mais alguma coisa, não dá. Já em mandatos autárquicos anteriores estava assumido, e era consensual entre os diversos grupos folclóricos do concelho, que o Festival “Celestino Graça” tivesse um enquadramento distinto ao nível dos apoios municipais.

Não teme que a ausência de grupos estrangeiros, ano sim, ano não (este é ano não), consequência assumida pela Organização devido à falta de apoios públicos ao evento, possa retirar público ao Festival?

É um risco que assumimos. Há mais de dez anos que temos vindo a promover ajustamentos no formato e no programa do Festival para o tentar manter vivo, mas chegamos a um ponto em que não é possível encolher mais, e assim sendo, não nos resta senão parar. Nós não somos pessoas de desistir, somos mais pessoas de resistir, mas, naturalmente, tudo tem um limite e o nosso, confesso-o com mágoa, está muito perto do seu extremo.

Poderá igualmente estar em perigo, com essa intermitência, o estatuto do CIOFF que classifica o Festival ‘Celestino Graça’ como Internacional?

Não, isso não. Com a assumpção de uma periodicidade bienal não está em risco a perda de creditação, pois, esta é uma situação prevista regulamentarmente. Porém, ficaremos numa posição de maior fragilidade em comparação com os restantes Festivais CIOFF que se realizam em Portugal, que contam com maior apoio das respectivas autarquias e de outras entidades, e que, ao contrário de nós, até estão em ciclo de expansão, como são os casos dos Açores, de Faro, de Viana do Castelo, de Monção e de Cantanhede.

Sente que o Festival é acarinhado em Santarém? Como sente este aparente “desinteresse” por parte do poder público face a um Festival Internacional que é um dos expoentes máximos do calendário de eventos da cidade, e que já se realiza desde 1959?

As entidades oficiais de Santarém e a população em geral têm bonitas palavras de alento e de estímulo para a Organização do Festival, mas na hora da verdade pouco se chegam à frente. Se o Festival deixar um ano de se realizar lá virão todos lamentar e recriminar-se mutuamente, acusando que em Santarém tudo acaba, tudo morre, mas enquanto a ajuda é necessária e útil, na medida em que pode ditar a diferença entre a sobrevivência ou a extinção, o apoio recebido é efectivamente escasso. Santarém é assim mesmo!

As televisões, sobretudo no Verão, percorrem o país de lés-a-lés, com programas de dito entretenimento para os quais convidam todo o tipo de artistas, mas raramente um Rancho Folclórico. Em seu entender porquê?

Porque os artistas que fazem um périplo por todos esses programas são promovidos pelas editoras discográficas, sem que os canais televisivos lhes paguem seja o que for, de modo que a falta de convicção cultural das direcções dos canais televisivos portugueses os leva a optar sempre pelo que é de borla e em play back… O Folclore não goza de boa imagem e quem tem a obrigação de o salvaguardar e dignificar, lamentavelmente, não tem feito bem o seu trabalho. Anda tudo atrás do show off… Poucos se preocupam com os valores que enformam a nossa identidade cultural, e, infelizmente, a maioria dos responsáveis políticos, turísticos e económicos nem disso têm a mínima noção.

O que poderia mudar na educação das nossas crianças se a Cultura popular fosse, de forma efectiva, valorizada?

Poderia mudar tudo! Os programas extra- curriculares das escolas, ao nível do ensino básico pelo menos, deveriam ter uma componente relacionada com a história local e com as tradições, onde o folclore e a etnografia deveriam ter uma atenção muito especial. Mas, isso implicaria que os próprios docentes conhecessem a matéria, ou então que as Escolas estabelecessem parcerias com quem, localmente, pudesse transmitir aos alunos esse conhecimento. Seria muito importante que tal pudesse acontecer, mas este é um caminho muito difícil para quem não se sinta estimulado para dar um pouco mais de si à escola e aos alunos. E até admito que os professores tenham boas razões para não se sentirem motivados…

O Folclore é o exercício da sabedoria do povo. Poderá, a globalização ser um factor de extermínio do folclore?

Não tão cedo. Curiosamente, na maioria dos casos o receio pelas consequências da globalização teve um efeito oposto, ou seja, as populações empenharam-se mais na defesa e na prática das suas tradições com o receio de as ver esbatidas, e daí resultou um maior apego às coisas da terra, mas, inapelavelmente, a globalização cultural tenderá a ofuscar muito a cultura popular, a partir, tendencialmente, das comunidades urbanas onde esse vínculo é menos forte. É uma luta inglória ao cabo de algumas gerações, mas por ora ainda não é particularmente perigosa. A globalização económica já aí está, inapelável, porque o dinheiro não tem nação, mas nas coisas da cultura tradicional é um processo mais moroso.

Até que ponto esse passar, de geração em geração, das tradições e manifestações populares está em perigo de ser interrompido?

O perigo decorre do facto de a vivência de muitos factos sociais já não ser partilhada entre elementos de diferentes gerações. Há as festas para os mais velhos,onde não vão os mais novos, e há as festas dos mais jovens onde não vão os mais velhos. Não havendo convivência não há partilha. Cada qual vive o seu mundo. Há cada vez mais famílias destruturadas que não têm, por isso, uma vida em comum, e os vínculos tradicionais vão-se perdendo. Nem é apenas devido aos divórcios, mas, essencialmente, devido às migrações. Os mais novos constituem família nas cidades e os mais velhos continuam a viver, muitas vezes sozinhos, na aldeia, sem o contacto propiciador da transmissão de valores e de referências…

Qual tem sido o papel da UNESCO na sensibilização para a importância da herança folclórica?

A UNESCO tem um conceito que não é compaginável com os conceitos de folclore no nosso país, pelo que não há sintonia entre as partes. Tudo assenta no conceito de tradição, que para o movimento associativo folclórico português é algo de imutável, enquanto ao nível da UNESCO, e muito bem, é algo de evolutivo. Não se transmitem as cinzas mortas mas a chama viva… Os Grupos folclóricos portugueses ainda andam a representar, como afirmam, as tradições, os usos e costumes dos finais do século XIX, como se o mundo tivesse parado aí… Com esta mentalidade é complicado haver sintonia com a UNESCO.

É uma ideia feliz, reconhecer-se o Fandango como Património Imaterial da Humanidade?

Que o Fandango assume um papel importante no imaginário popular ribatejano não temos dúvidas. Que seja um bem patrimonializável pela UNESCO, já ponho algumas reservas. Agora, se este processo de candidatura servir para estudar o próprio fandango, em toda a sua transversalidade, temporal e espacial, já valerá a pena meter-lhe ombros. Com todo o respeito que as pessoas envolvidas neste processo me possam merecer, não reconheço aos promotores da iniciativa conhecimentos para defender esta dama. Haverá, certamente, muito louváveis intenções por parte da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e do Ribatejo para fazer esta proposta, mas isto não pode ser uma moeda de troca entre duas partes da mesma organização: se o Alentejo viu classificado o Cante, então, para equilibrar as coisas, vamos propor a candidatura do Fandango, para o Ribatejo ficar feliz. Isto não é bem assim…

Tem defendido, publicamente, por diversas vezes, que falta ainda “fazer justiça” a Celestino Graça. Para além da atribuição da Medalha de Ouro da Cidade que poderia vir a corrigir essa lacuna, defende ainda a criação de um Centro Etnográfico que possa eternizar o nome do etnógrafo e comportar um espaço museológico e um gabinete de estudos da cultura tradicional popular, aproveitando- se, para o efeito, a Casa do Campino. Continua a ser apenas um sonho bonito, ou aspira a que possa ser uma realidade próxima?

Pessoalmente, continuo a entender que a relevância da acção de Celestino Graça justifica outro tipo de homenagem e de reconhecimento público. A consolidação de um Centro Etnográfico, operativo, poderia ser um dos projectos que visariam esse desiderato e o aproveitamento da Casa do Campino para esse fim e, eventualmente, para a constituição de um espaço museológico, o que, de resto, permitiria a consagração da cidade de Santarém como capital de uma tão importante região agrícola, de que hoje quase não se dá conta. A Casa do Campino é importante para a realização do Festival Nacional de Gastronomia, mas não pode ficar refém de uma actividade que ocupa duas semanas por ano.

O Grupo Académico de Danças Ribatejanas esteve, recentemente, em França, onde fez desfilar simpatia e talento. É possível comparar a logística e os apoios que ambas as entidades organizadoras – do Festival de Confolens e do Festival ‘Celestino Graça’ – têm ao seu dispor para erguer ambos os eventos?

Infelizmente para nós não há comparação possível. O Festival de Confolens tem um volume de apoios a nível departamental e municipal fabuloso, e para além disso tem um montante de receitas próprias, resultante de bilheteira, de patrocínios e de merchandising impressionante. Só para que se possa ter uma ideia, digo-lhe que apenas uma actividade da programação geral do Festival não é paga pelos espectadores, é uma Gala dedicada aos idosos de toda a região, porém, o Festival recebe um apoio financeiro do organismo da segurança social que tutela esta área. O Festival de Confolens tem uma duração de seis dias e o passe que dá acesso a todos os espectáculos custa 120 euros por pessoa. Os bilhetes para as Galas de Abertura e de Encerramento, em que actuam todos os Grupos estrangeiros participantes, custam entre 22 e 27 euros, e para os espectáculos em que apenas actuam cinco grupos custam 18 euros; as pessoas que querem participar nos ateliês de dança, para aprenderem danças de diversos países, pagam 12 euros, e até as crianças que assistem a um espectáculo que lhes é dedicado, e que no final dançam com os bailadores dos Grupos, pagam 2 euros.

A simples entrada na cidade nos dias em que há desfiles etnográficos, e em que os Grupos, depois do desfile, dançam em palcos instalados em diversos pontos da cidade, é paga. Por isso dá para perceber a diferença entre as duas realidades. Ao Festival “Celestino Graça” bastava a receita de uma das Galas, ao preço médio de 25 euros e com mais de duas mil e quinhentas pessoas a assistir.

O povo francês aprecia e valoriza o folclore, por isso paga bem os espectáculos que lhe são proporcionados, enquanto em Portugal ainda há a ideia de que o folclore é coisa de gente retrógrada e pouco desenvolvida cultural e socialmente…

João Paulo Narciso