Em 1876, o vereador Pedro António Monteiro (1843-1928) sugeriu que, perante a falta de espaços verdes para diversão e lazer na cidade de Santarém, se construísse um jardim vulgo passeio que limitasse a rua que conduzia a capela de Nossa Senhora da Piedade à calçada do Monte, ligando um dos muros à parede do convento da Trindade. O jardim ocupava o espaço em frente ao convento de S. Francisco e o lado sul da igreja do convento da Trindade, localizando- se a entrada junto à actual rua 31 de Janeiro. As obras iniciaram-se a 26 de Outubro de 1876. A verba para a aquisição do gradeamento de ferro para vedar o jardim foi inserida no orçamento camarário de 1877.

O passeio da Rainha, em homenagem a D. Maria Pia, casada com o rei D. Luís, foi inaugurado a 16 de Outubro de 1878 e abrilhantado com um concerto da Banda Marcial 18 de Maio. O jardim iluminado com balões, pois os candeeiros a gás só foram instalados em 1895, recebeu cerca de dois mil visitantes.
Em Janeiro de 1910, pretendia-se alargar a zona central do jardim e iluminar um lago construído no final do século XIX (depois de 1897). Com a Implantação da República o passeio passou a chamar-se jardim da República.

Em 1937, o executivo camarário liderado pelo capitão Romeu Neves (-1942) projectou obras de remodelação do jardim da República, assinadas pelo arquitecto Amílcar Pinto (1890-1978) e que previam o abate de árvores, a fim de alterar o espaço entre o campo Sá da Bandeira e o planalto de S. Bento, onde se projectava construir o Liceu. Manuel de Figueiredo, Alfredo da Silva Leitão (1895-1969), Américo Passos e Silva (1878-1957) e Calisto Morgado enviaram um telegrama ao governador civil, Eugénio de Lemos (1899-1980), a contestarem o polémico projecto. A 20 de Agosto de 1937, o governador civil, em reunião com o presidente da Câmara, exigiu a suspensão imediata das obras e que a edilidade nomeasse uma comissão de técnicos urbanistas e paisagistas a fim de emitir parecer sobre a remodelação prevista. Perante a recusa do presidente da Câmara, o governador civil exonerou a Comissão Administrativa da Câmara também composta por Manuel Reis Cardoso, Virgílio Arruda (1905-1989), José de Castro Constâncio, António Rodrigues Duarte, Ramiro Fernão Pires e Armando Duarte. Os serviços camarários foram confiados provisoriamente ao capitão António Manuel Baptista, vogal daquela Comissão, até nomeação de um novo Presidente.

O governador civil justificou a sua decisão em nota oficiosa à imprensa pois “tomou conhecimento de que na cidade se estava desenhando uma forte corrente contra a obra em curso no jardim da República. Com o manifesto e único propósito de obstar a divisão numa terra como Santarém que tem primado por viver em absoluta paz, foi chamado ao Governo Civil (…) o capitão Romeu Neves (…) [que] fazia da continuação ininterrupta das obras do Jardim da República, ele e a Câmara, questão absolutamente fechada” (CE, 28/8/1937,p. 5). A visita de Salazar a Santarém, a 16 de Agosto, pode ter acelerado a decisão do governador civil de demitir a Comissão.

A 11 de Setembro, o arquitecto Amílcar Pinto publicou no Correio da Extremadura a memória descritiva e justificativa da transformação do jardim da República onde referia que “uma vez deitadas a baixo as árvores do antigo jardim, lógico seria desprezar a sentimentalidade que viria a manifestar-se na contrariedade de terminar com um recinto fechado e gradeado uma nova variante da Estrada Nacional n.º 16, facilitando assim o trânsito que hoje existe, pelo desenvolvimento que atingiu o automobilismo (…) evitando-se as curvas apertadas e portanto desastrosas. (…)

Não me repugnaram, como arquitecto, essas imposições, pois considerei que, uma vez que as árvores tinham sido retiradas, se poderia fazer alguma coisa de interessante e com sabor moderno, dentro de um urbanismo equilibrado, desprezando os moldes antigos já hoje banidos e impróprios de uma cidade civilizada que pretende acompanhar o progresso. (…)

Bancos cómodos e bem lançados, fontenários interessantes, relógio de sol, pedestais para bustos ou estátuas, vasos decorativos embelezando as entradas das ruas que limitariam os canteiros, uma pérgula semicircular, servindo de anfiteatro para as audições dadas num coreto cuja localização era mantida para diminuição de encargos e aproveitamento do actual lago e até mesmo por um pouco de sentimentalismo, que aumentaria o poder de ressonância e portanto de boa audição, ruas largas aproveitando os desníveis do terreno para facilitar o passeio habitual do público, ladeados por árvores de sombra, ligadas entre si por festões de grinaldas e que floridas dariam uma nota de frescura, recreando alegremente a vista, e outros motivos formando um conjunto de elementos decorativos que, bem colocados e nas devidas proporções de equilíbrio, não seriam suficientes para fazer esquecer sem relutância um jardim arcaico e desusado?” (p. 6).

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Planta da remodelação do Jardim da República desenhada pelo arquitecto Amílcar Pinto. CE, 11/9/1937, p. 6

José Lucas Coelho dos Reis, em artigo publicado no Correio da Extremadura, a 18 de Setembro, lamentou a exoneração da Comissão que tantos serviços prestou aos escalabitanos especialmente o seu presidente, capitão Romeu Neves. Também relembrou que as obras que promoveram modernidade nem sempre foram inicialmente aceites pelo povo, parecendo-lhe “que a população do concelho ignora como estará feito o projecto de remodelação do jardim, sendo (…) conveniente que o projecto seja exposto ao público em locais bem visíveis para que se possa devidamente apreciar” (p. 6).

Polémicas à parte, o jardim da República foi reaberto ao público a 1 de Janeiro de 1938, sendo a inauguração da responsabilidade do governador civil, Eugénio de Lemos, “sem mais solenidades”, segundo o presidente da Câmara. As obras ficaram a cargo da firma Moreira da Silva & Filhos, do Porto. No novo jardim “foram reservados talhões para crianças, que ali têm balouços e outros divertimentos próprios da idade. A nova iluminação está instalada em colunas modernas, com instalação subterrânea, produzindo um belo efeito a luz a jorros, que muito alegra aquela entrada de Santarém” (CE, 8/1/1938, p. 8).

Jardim da República

Jardim da República nas primeiras décadas do século XX. Postal cedido por Zeferino Silva

Na coluna “o que se diz”, o Correio da Extremadura ironizava “que os novos bancos do jardim da República estão fazendo um vistão, com a sua toilette de púrpura. Mas que será bom pô-los no seguro contra o rapazio, que não tardará a cobri-los de inscrições bocagianas” (CE, 1/1/1938, p. 8) ou “que a iluminação do jardim da República, conjugada com a das Portas do Sol, diz-nos que Santarém é quase como Paris, a cidade-luz. É bem certo não haver fome que não dê em fartura…” (CE, 8/1/1938, p. 8).

Teresa Lopes Moreira