A Temporada da Primavera, a decorrer no Teatro Taborda até ao fim do mês de Maio, organizada pelo Círculo Cultural Scalabitano, propiciou a vinda a Santarém do Jornalista António Valdemar, para conversar sobre Almada Negreiros, no contexto do centenário do manifesto futurista.

A sessão contou com a parceria da Associação de Estudo e Defesa do Património de Santarém, bem como do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão e teve como moderador, Nuno Domingos.

A conversa começou com uma declaração de interesse do Círculo e particularmente do Veto Teatro Oficina, pois tendo o grupo feito do seu espectáculo experimental para adultos, em 1973 uma afirmação das suas opções estéticas de intervenção cultural, com a apresentação de três pequenas peças, o “Passadismo”, do futurista italiano Emílio Setimeli, na altura considerado uma vanguarda estética difícil de alcançar, depois “Os Malefícios do Tabaco” de Anton Checok, um texto “clássico” que já não respondia aos anseios do grupo, culminava com a proposta do grupo, com uma encenação colectiva de “O doido e a Morte”, um texto de Raul Brandão.

Quase quarenta e cinco anos depois, pareceu ao grupo interessante olhar de novo este seu tempo primitivo e reflectir sobre as suas origens e o seu actual posicionamento estético.

Ora a vertigem da intervenção de abertura de António Valdemar, levou a tertúlia do Taborda para um nível de aprofundamento do tema que transbordou e muito este interesse da formulação inicial, permitindo a apresentação, na primeira pessoa, dos inúmeros actores portugueses e europeus da grande ruptura estética da Europa de 1909, liderada pelo italiano Marinetti, que terá chegado a Portugal por volta de 1915.

Movimento intimamente ligado ao modernismo, encontrou espaço de afirmação na revista “Orfeu”, tendo como intérpretes muitos artistas, de entre os quais é relevante distinguir Santa Rita Pintor, Amadeu de Sousa Cardoso, Almada Negreiros, ou Fernando Pessoa.

Mas ter a possibilidade de ouvir o mestre Valdemar, é ganhar a oportunidade da vertigem do conhecimento, conhecendo todos os intérpretes do tempo. Os artistas que integraram e/ou apoiaram o movimento e os que se lhe opuseram.

Mais ainda a oportunidade de conhecer do mundo do jornalismo as diferentes posições, pontuadas das pequenas histórias e pelos seus intérpretes.

Polémica marcante da época, a que resultou do conhecido manifesto anti Dantas, com que José Almada Negreiros brindou aquele que elegeu como opositor: Júlio Dantas. Polémica a que um dia, já na idade da alvura dos cabelos, o Jornalista Joaquim Manso terá tentado pôr cobro, convidando ambos para um almoço, que Almada de imediato terá recusado: “- Com o Dantas Nunca”, oferecendo a Manso a observação de que depois de todo aquele tempo, o Almada ainda precisava de um Dantas.

Mas conversar com António Valdemar é sempre assim: Um tempo suspenso onde as pequenas histórias, sempre ilustram a grande história, contadas com a eloquência de um verdadeiro mestre.

Já agora, para quem possa ter ficado intrigado com o título desta reportagem, sempre se esclarece: em entrevista que Almada Negreiros deu a António Valdemar, ter-lhe-á confessado a existência de dois tipos de futuristas: aqueles que fazem da palavra um brinde à sua musicalidade (os auditivos) e aqueles que com ela nos levam a viajar por espaços e territórios, no fundo, por imagens mentais (os visuais).

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