aurélio lopesA corrupção tem sido um tema recorrente na análises político-sociais que venho fazendo nos últimos tempos. Corrupção com que nos habituámos a viver e cuja importância, ativa ou passiva, consciente ou inconsciente, frequentemente menorizamos.

Que não é apenas um atavismo imoral e egoístico da classe politica e respetiva estrutura administrativa, governamental ou não.

Antes fosse, estavam criadas condições para a sua superação.

Vem toda esta conversa a propósito de uma afirmação de uma conhecida analista política num periódico recente (CM;19/11): A corrupção não é um cancro que metastiza este regime: A corrupção é rede que o sustenta”.

É, na verdade, alguém que se aproxima da realidade. Não obstante, reduz a dimensão corruptora a um determinado regime; este. Inimigo conjuntural de estimação.

Contudo o problema não é, em rigor absoluto, este regime; entendendo o mesmo como uma forma de governo, enquadrado em valores e interpretado por determinados lóbis de poder de uma classe política mais vasta.

Nem deste, nem do anterior. Ou, sequer, do que o antecedeu.

Mas, sim, de algo que nos impregna enquanto povo e nação. Que, como algumas vezes tive oportunidade de afirmar, tem a ver com persistências extemporâneas de ancestrais mentalidades comunitárias e com as decorrentes insuficiências nos imperativos de cidadania que nos deviam enformar.

Que afeta a natureza das nossas matrizes sociais e morais. Culturais mesmo, se quisermos.

De que os nossos governantes (elite de poderosos e oportunistas), são apenas os catalisadores da vontade e os intérpretes das ações. Alguns, convenhamos, extremamente devotados a tal.

Dito de outra maneira, aqueles que partilhando de igual imoralidade, têm o poder e a oportunidade necessários e suficientes para a executarem.

Fluindo, serenamente, da imoralidade para a ilegitimidade e desta para a ilegalidade. De uma forma corrente, natural, habitual. Sempre que, mais altos valores, económicos e interesses pessoais, se levantam.

Em suma, não é a classe política que é corrupta. Somos todos nós!

Por muito que seja politicamente incorreto afirmá-lo.

Por muito, que alguns, se sintam injustamente atingidos.

Por muito que macule a convenientemente idealizada honradez do “bom povo português”.

Possuímos, neste momento do nosso percurso vivencial, uma clara predisposição para a corrupção.

Não uma qualquer tendência atávica, étnica e determinista.

Mas uma predisposição potencial que um percurso social e histórico gerou e uma infeliz experiência democrática supostamente de cidadania, de três ou quatro décadas, ajudou a consolidar.

Não todos, é claro!

Mas, os suficientes, para fazerem senso-comum.

E, neste contexto, os respetivos “regimes” enquadram apenas aqueles que, face à mesma, podem tirar (e tiram) maior partido. Um partido, diga-se de passagem, extremamente lesivo do interesse nacional.

Aqueles que, quando são denunciados, acusados, julgados ou até condenados como efetivos criminosos, merecem do povo que somos a maior das solidariedades. Vejam-se as fátimas felgueiras, os miguéis relvas, os isaltinos morais, os valentins loureiros, os pintos da costa, os ferreiras torres, etc.,…

Afinal, eles estão no lugar que nós gostaríamos de estar. Partindo e repartindo e…  ficando com a melhor parte.

Não sei se, neste contexto, caracterizar a corrupção como “um cancro” constitui a analogia mais adequada. Sei, contudo que à semelhança do mesmo, a corrupção não só nos permite ir vivendo enquanto condenados ao infortúnio, como nos obriga ao infortúnio enquanto condenados a viver.

Ou melhor,…. sobreviver.

PS – Os últimos desenvolvimentos (submarinos, pandurs, golds [estes, convenientemente esquecidos], Portas, Macedos e Sócrates) vêm ainda, se possível for, tornar mais evidentes, estas, lamentáveis,  evidências.

 

Aurélio Lopes

aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com