aurélio lopesPassou mais um “dia de todos os santos”. Nesta zona do país, até algumas décadas atrás, marcado pela tradição lúdico-comercial da “Feira dos santos” no Cartaxo; foco de afluência das populações dos concelhos limítrofes, onde tradicionalmente se adquiriam produtos e artefactos que a produção local não satisfazia.

Era ali que se adquiriam as toscas mesas, cadeiras, arcas, etc.,.. que faziam o rústico mobiliário ou os casacos e “samarras” para os homens. Em qualquer dos casos, artigos que haviam de servir para toda uma vida. Aí se compravam as nozes, amêndoas e especialmente as castanhas com que se faziam os tradicionais magustos.

Desvalorizado este certame, reduzido o “pão por Deus” a pontuais persistências aldeãs (que a atual crise não deixa, conjunturalmente, de sustentar), as tradições das calendas de Novembro acabam por se resumir às ancestrais práticas do culto dos mortos (hoje cristianizadas) que envolvem as visitas aos cemitérios, deposições de flores e luminárias, num tempo de esbater de fronteiras entre “Este” e o “Outro Mundo”.

Enquanto isto, vamos importando, por razões televisivas e cinéfilas (e hoje cada vez mais por ação da net), os americanados “dias das bruxas”: sínteses reconvertidas e estereotipadas das tradições do norte da Europa, levadas, daí, para o “Novo Mundo”.

Daí as “bruxinhas” e as correspondentes “gostosuras e travessuras”: nem mais nem menos que os referidos “pão por Deus”, revestidos de um pitoresco iconográfico como só os americanos sabem fazer.

Até porque não possuindo um corpo de tradições ancestrais, mas apenas extratos de várias matrizes tradicionais (oriundas de diversos países europeus) não sentem as transformações operadas pela sociedade de consumo como um dano produzido ao seu património cultural.

Encontram-se, assim, completamente disponíveis para modificar as mesmas à medida dos omnipresentes imperativos de mercado. Em fenómenos de mutação e reconversão de ancestrais patrimónios tangíveis e intangíveis e a pretexto da sua  adequação a uma vampírica sociedade de consumo.

Deixa, contudo, um travo de frustração, ver como tão rápida e facilmente abandonámos as nossas raízes, substituindo-as por outras (alheias) que, afinal, correspondem (grosso modo) à mercantilística adulteração das nossas, numa lógica estrita de mercado.

 

Aurélio Lopes

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

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