aurélio lopesO recorrente hábito de realizar pretensas sondagens televisas acerca de estapafúrdias questões destinadas a serem parodiadas nos inefáveis programas das manhãs, em canal aberto, constituem um exemplo estupidificante e oportunista dos limitados discernimentos e requisitos de qualidade do povo consumidor que somos.

Sondagens que, afinal, nem sequer o são (já que muitas vezes os repórteres sugerem previamente, aos entrevistados, as respostas a dar) sobre temas que não pretendem ser, nem são, mais que meros fixadores de audiências; mesmo que para isso se tenha de baixar o respetivo nível até ao nível de acefalia funcional.

Aqui há algum tempo atrás, deparei com uma equipa que perguntava aos homens “se achavam que as louras eram mais estúpidas que as morenas”!

Mais recentemente, questionava-se “se era verdade que as mulheres de formas mais arredondadas tendiam, ou não, a ter filhos mais inteligentes”.

Dois, disparates entre muitos outros.

Pode-se argumentar com a irrelevância das questões. E a sua insípida vacuidade. Brincadeiras, afinal.

Contudo e não falando já da evidente estupidificação que a recorrente utilização destas temáticas induz em muitos de nós, existe algo mais (que está subjacente, pelo menos a temas como os atrás referidos) suponho que inconscientemente: a crença, que vem de longe, de que os carateres físicos têm correspondência, necessária e absoluta, nas respetivas capacidades intelectuais.

Crença, afinal, que devidamente integrada em correspondentes sistemas de valor e ideologicamente enquadrada em doutrinas seculares, sustentou durante milénios sistemas esclavagistas e sustenta, ainda hoje, étnicos genocídios bem como (assumidas ou não) seculares e diversificadas doutrinas xenófobas e racistas.

 

Aurélio Lopes

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com