aurélio lopesSabe-se que qualquer projeto (mesmo que necessário e determinante) cujos resultados apenas se produzam a médio e longo prazo, tende a não seduzir aqueles cujos poderes têm prazo marcado.

Recorre-se muitas vezes, portanto, a adaptações e remedeios, esquecendo necessidades e conveniências de proceder às necessárias e, às vezes urgentes, reformas mais ou menos estruturais.

Mas cujos resultados, afinal, só a médio prazo os favoreceriam.

Tudo isto a propósito das “Festas da Cidade” que mais uma vez se realizaram.

Este ano, como no ano passado (e no que o antecedeu) as ditas limitaram-se a um amontoado de atividades ditas profanas (lúdicas e gastronómicas principalmente) feitas coincidir com atividades religiosas institucionais, sem qualquer coerência e conexão operativa devocional.

Ano após ano, tenho-me sentido (assim) na obrigação de chamar a atenção para o fato de um município administrativamente pouco coeso como Santarém, pouco solidário com a componente rural e pouco eficaz na atração de visitantes (após a passagem da Feira da Agricultura para o CNEMA, a natural decadência das feiras do Milagre e da Piedade, o esvaziamento devocional da Romaria da Senhora da Saúde e a opção autista do Festival de Gastronomia), necessitar, como de pão para a boca, de uma qualquer iniciativa polarizadora das valências autárquicas e dotada de capacidade de atração turística*.

Iniciativa que equacione novas hipóteses devocionais (esta está mais que esgotada**) ou até outros focos culturais e eventuais novas temporalidades, que permitam e fomentem uma participação alargada (ativa e passiva) da população do concelho. De todo o concelho.

E, naturalmente, dos concelhos limítrofes.

E não tentar, artificialmente, reanimar um culto morto e enterrado.

Afinal, onde é que já se viu criar “irmandades” onde não existe ponta de devoção?!

Não admira, assim, que o suposto clímax festivo anual em Santarém se resuma a um duplicado das feiras quinzenais (no mesmo local recorrentemente realizadas) e oportunidade cíclica para o Executivo Municipal desfilar cerimonialmente, numa algo patética passerelle regionalista.

O turismo cultural (e dentro deste o turismo religioso e histórico) constitui hoje em dia uma área em crescimento e sustentação; tirando partido da sua temporalidade não sazonal e da existência, por toda a Europa, de uma população sénior cada vez mais numerosa e detentora de meios económicos e exigências qualitativas que vão muito para além da valência balnear. Bem como dum segmento de mercado vindo especialmente do Oriente e buscando, na Europa secular, os referenciais culturais de uma civilização que, apesar de tudo, tem sido a mãe do universalismo tecnológico e pressupostos ideológicos democráticos e igualitários.

Quem não se aperceber disto vai ficando para trás.

Como acontece com Santarém.

Pela falta de uma liderança empreendedora, visão esclarecida e espírito de iniciativa. E, principalmente, da vontade de pôr Santarém no mapa. No mapa do concelho, antes de tudo; Depois no mapa festivo nacional.

É mais um ano em que (não obstante os esforços meritórios de potenciar a prata da casa) nos limitámos, grosso modo, a fazer festas à cidade.

 

*É uma espécie de “Sermão anual de Santo António aos peixes”. Mas esses, pelo menos, ainda escutavam. Consta!

** Não digo que façam como o “Projeto dos Avieiros” e criem, de raiz, uma nova santa. Mas,… se a montanha não vai a Maomé…

 

Aurélio Lopes

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com

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