aurélio lopesApós uma noite eleitoral em que, mais uma vez, quase todos ganharam, exige-se (eventualmente) uma reflexão mais serena e ponderada, mesmo que breve, avaliadora de défices e vantagens, causas e consequências.

O grande vencedor foi, naturalmente, a coligação PSD/ CDS.

Apesar da perda de maioria absoluta (que chegou a sonhar manter), apesar de passar dos mais de 50 para pouco mais de 38% de percentagem. Apesar da perda de quase três dezenas de deputados.

Fruto de incompetências alheias e (reconheça-se) competências populistas internas. Azar nosso se o Governo que nos calha apenas é competente a enganar-nos. Assim o fosse a governar os interesses do país e de todos nós.

Igualmente vencedor foi o Bloco de Esquerda.

Saído dos prosaicos resultados de há quatro anos com diversas tensões e roturas depuradoras internas que, se enfraqueceram notoriedades (o que demonstra que mesmo partidos, por norma, não de poder reagem, negativamente, ao esvair das expetativas nesse sentido) conseguiram não obstante, fruto de incompetências alheias (igualmente do PS) e de uma liderança fresca e simpática, o seu melhor resultado de sempre.

Obtiveram, assim, uma nova oportunidade.

Mais que a oportunidade de uma nova vida é uma nova oportunidade de vida que assim se almeja, aproveitando a notoriedade/atividade politica e organizativa que os próximos quatro anos irão permitir. Oportunidade de gerar as condições que permitam criar uma estrutura de base susceptível de sustentar os resultados eleitorais ora obtidos.

A CDU conseguiu um resultado aceitável mas revelador, mais uma vez, de que o partido não descola mesmo em situações privilegiadas como a atual. Tais condições favoráveis pouco potenciam o crescimento e mal compensam aquilo a que podemos chamar o natural desgaste eleitoral resultante do ritmo da mudança de gerações.

Finalmente o Partido Socialista. Apetece dizer que o crime, mais uma vez, não compensa. E que o golpe de estado que apeou Seguro da liderança do partido, com o argumento de uma mais forte liderança saiu, literalmente, pela culatra.

Com uma imagem do antigamente e rodeado de figuras do passado (não necessariamente melhores ou piores que as atuais, mas desgastadas politicamente por décadas de poder nem sempre impoluto) Costa conseguiu o impensável: permitir a recondução daqueles que, com maiores ou menores culpas, deram corpo ao instrumento de governação mais lesivo dos interesses dos portugueses nos tempos modernos.

Que recebendo, é certo, uma pesada herança, conseguiram torná-la ainda bem maior. Que enfeudaram os interesses nacionais numa grotesca subserviência face à Alemanha; em relação à qual se comportaram como fiéis e devotados caniches.

É ele (Costa, naturalmente) o grande derrotado.

Daqueles a que nem a conhecida especial criatividade da nossa classe política (especialista em encontrar nas derrotas insuspeitáveis condições de vitória) pode, no imediato, pretender reabilitar.

Aurélio Lopes

*Texto publicado em edição impressa de 9 Outubro