aurélio lopesÉ frequente ouvir dizer a muitos folcloristas da nossa praça (algo escandalizados, diga-se de passagem), quando se lhes fala das caraterísticas da representação de uma realidade fóssil, apresentada enquanto forma de expressar comportamentos vivenciais padrão (entenda-se, padrões médios de comportamento): “ mas, então, isso é fazer teatro!”

Pois é!

Ou estavam convencidos que um espetáculo de folclore constituía uma deslocalização temporal de uma vivência oitocentista ou novecentista, transportada para os dias de hoje por uma qualquer máquina do tempo?!

Constitui, isso sim, uma mais ou menos teatralizada reconstituição interpretada por atores que, num festival padrão, desempenham (grosso modo) o papel de bailadores, cantadores e afins e, noutras fórmulas de divulgação, se transmutam muitas vezes em cantores, músicos, trabalhadores agrícolas, lavadeiras, donas da casa, taberneiros, capatazes, etc.,…

Enfim, aquilo que for necessário para representar as diversas vivências comunitárias.

São atores; participantes de uma representação que, contudo, possui uma especificidade que a enforma: a peça ou guião aqui representada não pode ser manipulada e ou alterada a belo prazer; em função da criatividade ou outras eventuais conveniências do espetáculo.

Mas se o conteúdo não pode ser alterado ao sabor de conveniências representativas e de divulgação, as respetivas formas podem e, muitas vezes, devem.

Afinal, há muito que os espetáculos de alguma forma vistos como padrão da divulgação folclórica (os chamados “Festivais de Folclore”) dão naturais mostras de saturação, não contribuindo (só por si) para atrair eventuais novos públicos num contexto de repetitivo e prosaico “dejá vu”.

Portanto, se os espetáculos de folclore não permitem manipular significativamente o conteúdo apresentado (limitado que está à realidade recolhida; supostamente exemplificativa das tradicionais vivências ancestrais) podem, contudo, variar formas e modelos de representação. Lançando, aí, mão à criatividade e contribuindo para potenciar outros públicos e interessarem a outros segmentos de mercado.

Estabelecer parcerias com outras formas de expressão artística (experiências que embora tímidas têm sido, já, ensaiadas), pode ser um dos caminhos a percorrer.

Para isso, contudo, existem duas condições prévias que, é conveniente, ter em conta:

– Por um lado vencer o mais ou menos genético repúdio de alguns sujeitos desta área da cultura popular, para quem qualquer contacto com outras expressões artísticas resulta em contágio e, qualquer contágio, resulta em contaminação.

– Por outro e para que tal não seja suscetível de acontecer, perceber previamente qual a natureza daquilo que se faz: o que implica uma contextualização dos padrões culturais apresentados, em que sejam visíveis razões e funcionalidades, aspetos cruciais e subsidiários e se permitam, assim, preservar aqueles que reputamos de essenciais para uma necessária representatividade.

Afinal, tanto consciente como inconscientemente, tanto voluntária como involuntariamente, a tendência é, naturalmente, para a alteração: mesmo que gradual, mesmo que impercetível. O que, neste contexto, não pode deixar de ser visto como efetiva corrupção.

Naturalmente, a coexistência próxima com outras formas de expressão artística (por exemplo) tendem, sem dúvida, a incrementar tal tendência.

Assim, o ideal seria que a grande maioria dos grupos ditos de folclore, efetivamente o fossem.

E que tivessem consciência da peculiar natureza daquilo que querem ser. E das necessárias implicações.

Aí deixaria de haver problemas com eventuais coexistências institucionais culturais e artísticas. Fosse de que natureza fosse!

Mas a realidade não é sempre ideal! Aliás, raramente o é!

O que se deve, então, fazer?

Sendo certo que não há uma solução milagrosa, eu diria que os grupos que se sentem suficientemente conscientes do ser e haver daquilo que são e fazem, não devem ter receio de enveredar por tais caminhos.

Diferenciar os seus mecanismos de divulgação e extravasar as estafadas fórmulas/ espetáculo. E, mesmo enquanto espetáculos, não apenas sob a forma de festivais. E enquanto festivais (ou qualquer outro modelo) adequar os mesmos à natureza dos locais onde irão decorrer; tempos e espaços sociais respetivos.

Ter em conta tempos específicos de representação, parcerias, componentes pedagógicas, formas e conteúdos apresentados.

Num mundo cada vez mais repleto de seduções festivas e artísticas, os grupos de folclore devem tentar tornar mais atrativos e interessantes os seus espetáculos e iniciativas similares. Diversificando-os, tornando-os mais fluentes e adaptados às respetivas circunstâncias.

Conseguir isso sem afetar os requisitos de representatividade é mais um estimulante desafio que se lhes oferece.

Senão correm o risco de, cada vez mais, funcionarem em circuito fechado. Exibindo-se uns para os outros ou, em alternativa, constituindo meros instrumentos de animação recreativa em simples e menorizados cenários mais ou menos festivaleiros.

 

Aurélio Lopes

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

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