aurélio lopesEm Outubro de 2014 o Forúm Ribatejo vai organizar em Santarém um debate/reflexão subordinado ao tema “O valor da cultura local, sua utilização turística e cultural e relações com outras formas de expressão”.

É algo que se imbrica, embora extravase, a atividade dita vulgarmente folclore (que em Setembro irá, igualmente, assistir ao IX Congresso de Folclore do Ribatejo), e naturalmente será objeto de especial interesse para etnógrafos, técnicos de turismo, sociólogos, antropólogos e afins.

No sentido de contribuir para um corpo de ideias que aí possam ser discutidas e avaliadas pretendo, durante os próximos meses, elaborar quatro reflexões opinativas, obrigatoriamente simples e sintéticas, centradas nos seguintes temas: “Conceito de folclore, ontem e hoje”, “A cultura tradicional local e o meio académico”, “Folclore e relação com outras formas de expressão artística”, “Tradicionalidade e mudança; evolutividades e equívocos”.

Passemos, de imediato, ao primeiro:

Em 2002 (organizado pelo Jornal Folclore) realizou-se em Santarém uma reunião tendente a formular um conceito operativo de folclore que os agrupamentos pudessem usar como elemento orientador da sua pesquisa e divulgação.

Dito de outra maneira, consubstanciar um conceito a partir daquilo que a grande maioria dos grupos dizia que pretendia fazer: representar a maneira de viver (na maioria dos casos apenas o cantar, o dançar e o vestir) dos seus avoengos.

“Dizia que pretendia fazer”; não quer dizer que o fizesse!

Da referida reunião resultou, então, uma síntese conceptual que, grosso modo, podemos (ainda mais sinteticamente) assim, formular:

O padrão dito folclórico é todo o tipo de elemento cultural que as populações rurais criaram ou adotaram e que se popularizou pela sua adequação às funções e/ou gostos locais ou regionais, vulgarizando-se o seu uso em todos ou num qualquer grupo social, qualitativa e quantitativamente representativo, durante um espaço de tempo significativo.

Estavam assim presentes os três critérios indispensáveis à atribuição do estatuto de tradicional a qualquer tipo de padrão cultural: a vulgarização do seu uso, a representatividade local do grupo ou grupos portadores e ainda o problema, sempre cadente, da temporalidade.

Tornava-se assim evidente que o tradicional não tinha obrigatoriamente que ser geneticamente local mas podia, e na maioria dos casos era, indubitavelmente, de origem híbrida e dele participavam as influências externas e a capacidade de aculturação das comunidades rurais.

Surgia como igualmente evidente, que o tradicional não era o individualizado, mas o coletivizado! Não era o comportamento efémero, mas o continuado no tempo! Não era a exceção, mas a norma!

Hoje, passados 12 anos, o mesmo continua sem ser aplicado ou, se fosse caso disso, substituído por algum outro eventualmente mais adequado.

Porquê?

Porquê os respetivos responsáveis, embora aí (na tal reunião, entenda-se) presentes e anuentes, nunca o aplicaram. Pelo menos de forma sistemática.

Fugindo dele, muitas vezes, como o diabo da cruz!

Porque aplicá-lo, ou a um outro qualquer (como seria natural e imprescindivel na recente avaliação efetuada) obrigaria a atingir interesses e estatutos instalados. Afetar amizades. Ferir susceptibilidades.

Portanto, prefere-se a confusão (leia-se vazio conceptual) em que cada um tem uma ideia vaga do assunto (às vezes nem isso) e com ela se dá ao luxo de criar grelhas classificativas e efetuar classificações parciais ao milésimo, num simulacro de cientificidade que se não fosse tão grave, seria hilariante.

É a tal história do “telhado” e das “paredes”.

Aurélio Lopes

aurelio.rosa.lopes@sapo.pt forumribatejo@gmail.com

aesfingedebronze.blogspot.com

OPINIÃO AURELIO LOPES