aurélio lopesNão está fácil a vida de um jornal. De um qualquer jornal.

Numa sociedade em grande parte iletrada (embora com uma grande percentagem de licenciados) jornais e livros são das primeiras coisas a abdicar.

Numa sociedade em grande parte economicamente “à rasca” (feita de desempregados, sub-empregados e mal empregados), formação e informação passam, naturalmente, a vertente dispensável ou, pelo menos, não prioritária.

Não está particularmente fácil a vida dos jornais locais e regionais. De um qualquer jornal local ou regional.

Com as endividadas empresas a cortarem na publicidade e as autarquias “sem dinheiro para mandar cantar o ceguinho”. Um qualquer ceguinho.

E com o poder político, omnipresente, reivindicando privilégios que a malfadada situação económica torna mais difícil recusar.

Um qualquer poder político.

Mas a vida é ainda mais complicada quando se tem 123 anos de vida.

Porque se possuem responsabilidades que outros, mais novos, não têm.

Responsabilidades morais e éticas, face a uma folha de serviços secular e impoluta.

Responsabilidades de independência, que décadas anteriores tornaram paradigma existencialista.

Responsabilidades institucionais que um percurso ancestral tornou exemplo de cidadania.

Tudo isto numa sociedade iletrada, falida e desempregada e entregue a um poder político incompetente, corrupto e irresponsável. E intocável, já se sabe!

Um qualquer poder político.

Em circunstâncias destas, sobreviver constitui tarefa hercúlea. E digna, afinal, dos maiores louvores.

Principalmente se não se aceitar hipotecar princípios e valores.

 

Aurélio Lopes

aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com