aurélio lopesComemorou-se no passado domingo, dia 21, os vinte anos da elevação do Vale de Santarém a Vila.

A cerimónia oficial que a Junta de Freguesia (honra lhe seja feita) fez tudo para dignificar, só pecou pelo habitual milagre da multiplicação das homenagens que, pela extrema vulgarização, as desvaloriza e torna triviais.

Oportunidade para discursos de circunstância profundamente apologéticos (como é de bom tom), cuja relação com a realidade local é, quase sempre, pouco menos que virtual.

Uns salientando a situação difícil atual, mas fazendo profissão de fé em ignotas e eventuais circunstâncias futuras.

Outros, debitando panegíricos, que apenas apresentam eventuais e vestigiais conexões com a realidade. Tudo isto num intenso e niilista fluxo laudatório em que percebem, aqui e ali, implícitos narcisismos.

Mas esperar que, numa efeméride pública, os responsáveis autárquicos aproveitassem para equacionar insuficiências e revelar eventuais projetos de superação, convenhamos, que era pedir muito.

Afinal as cerimónias públicas são ocasiões solenes: naturalmente importantes de mais para refletir sobre os problemas.

E, os espaços temporais entre elas, naturalmente importantes de menos.

Ora, fruto de um conjunto de adversidades (económicas e políticas, sociais e históricas, geofísicas e financeiras) o Vale de Santarém tem hoje muito pouco a ver com as literárias descrições de Garrett.

E não, apenas, por serem romanceadas.

E não apenas naquilo que a natural evolução urbana, inevitavelmente, origina

Perdeu quase todas as unidades industriais, face à mudança de condições económicas.

Perdeu as “hortas” (o mais importante elemento de diferenciação comunitária) na voragem da especulação imobiliária.

O posto de correios e a estação de caminho-de-ferro, ausentaram-se para parte incerta.

A “casa da Joaninha”, implodiu de velhice e abandono.

O “pinheiro das areias” apresenta-nos, hoje, um perfil mais ou menos esquelético.

A “vala real” e as suas zonas adjacentes (pese embora movimentações ecológicas locais) não apresentam, agora, quaisquer condições de espaço de lazer.

A estes problemas juntam-se, ainda. conhecidas questões patrimoniais, sociais e de segurança que, infelizmente, não desaparecem só por as ignorarmos.

Enfim, pela parte que me toca, dava de barato os tais vinte anos de Vila, trocando-os por uma existência local de melhores condições de vida: ecológicas, patrimoniais, económicas e sociais.

Para isso abdicando, até, do meu precioso estatuto de “vilão”.

 

Aurélio Lopes

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com

*Texto publicado em edição impressa a 26 de Junho