O Círculo Cultural Scalabitano organizou esta semana, em Santarém, um debate “sobre o papel do estado na promoção e desenvolvimento cultural na região”; preocupado que está com a ação, ou inação, da Direção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo.

São sempre úteis tais iniciativas. Como seria útil um debate sobre as condições histórico-políticas (e respetivos responsáveis) que nos transformaram num território em estado adiantado de dissolução; servindo, hoje, propósitos alheios, como mero apêndice territorial.

Com consequências nefastas, não só na área da Cultura mas igualmente do Turismo e, afinal, em termos de futuro, nas determinantes político-administrativas. De facto (sejam quais forem as reivindicações), a nossa realidade presente apenas pode ambicionar conjunturais melhorias; pouco sustentáveis. É tudo uma questão de poder que, gradual e artificiosamente, temos vindo, inexoravelmente, a perder.

De que existem, entre nós, responsabilidades e coresponsabilidades. Na verdade, alguns dos representantes partidários e autárquicos eventualmente presentes no Teatro Taborda, foram, com certeza, os mesmos que, direta ou indiretamente, implícita ou explicitamente, pactuaram de forma recorrente com esta gradual desagregação. Sem grandes incómodos ou visíveis constrangimentos.

Subscrevendo o papel deplorável de muitos dos representantes políticos desta Região, que durante décadas, têm imposto uma bipartição regional, acarretando uma correspondente duplicação de cargos e lugares; com benefício evidente para os maiores partidos regionais.

É afinal, o perverso processo de aniquilação do Ribatejo, que, as últimas décadas, têm visto acontecer. E que podemos agradecer a Lacões, Relvas e respetivos afins. Relvas, por exemplo, que na tentativa patética de justificar a injustificável divisão do Ribatejo, chegará a dizer (entre outras preciosidades argumentativas) que o Rio Tejo constituía uma fronteira entre o Médio Tejo e a Lezíria do Tejo!

Hilariante, se não fosse tão grave. E uma evidente ofensa à nossa inteligência!

Médio Tejo e Lezíria do Tejo; sub-regiões descobertas, assim, por alguns “iluminados”, que começarão por inventar duas regiões de turismo.

Cuja criação, a partir de uma única unidade territorial (que daria apenas uma presidência aos socialistas e uma vice-presidência aos sociais-democratas) permitiu, como por milagre, uma presidência e uma vice-presidência ao PS, uma presidência ao PSD e, até à CDU, uma vice-presidência.

Seguir-se-ão, depois, as associações de municípios, as comunidades urbanas, as entidades regionais de turismo. Tudo, devidamente, em duplicado! Com tudo o que isso envolve de lugares e cargos menores associados.

Uma espécie de milagre da multiplicação dos tachos! Que a muitos serviu e, continua a servir.

A machadada final foi, precisamente, a divisão do território ribatejano pelas Entidades Regionais de Turismo do Centro e do Alentejo. Que juntamente com a nossa dependência crónica da Direção Regional de Lisboa e Vale do Tejo nos transforma numa manta de retalhos; repartida como meros despojos por tudo o que são lobbys regionais fronteiriços.

Eventuais vantagens económicas têm sido esgrimidas como mais-valias que justificariam esta partilha territorial. Com os resultados que se verificam. Aliás, a perpetuação da situação foi criando, inclusive, situações de facto consumado que, a partir de certa altura, se tornaram, igualmente, reforços de argumento.

Um pouco em contraponto, em 2009 surgirá o Forúm Ribatejo que (envolvendo meia centena de agentes socioculturais de “toda a Região”) tem desenvolvido um esforço não só de compreensão e reforço das identidades regionais, como de reflexão sobre toda esta temática e respetivas consequências.

Consciente, apesar de tudo, de que uma eventual solução de repúdio da decisão salomónica atual, implica contornos de participação da sociedade civil bem mais alargados e profundos.

Se queremos, afinal, que o Ribatejo, numa qualquer hipótese regionalista futura possa, pelo menos, manter una a sua integridade.

Aurélio Lopes

aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com