aurélio lopesA vantagem de ser independente é que se pode ser politicamente incorreto. Dizer coisas que não cabem no senso-comum, pois o comum dos sensos que fazem o dito são, muitas vezes, muito pouco sensatos.

Afinal, se não são “a voz do dono”, refletem pelo menos opiniões e ideias que fazem o pleno das sínteses opinativas das grandes cadeias de informação.

É por isso que vivemos hoje, cada vez mais, uma cultura de rebanho. Acrítica e seguidista.

Vem isto a propósito da votação dos denominados “simpatizantes” nas primárias do PS.

E do atroante silêncio dos partidos do poder, correndo por fora neste processo de escolha do líder da oposição. Silêncio que indicia uma postura de cumplicidade. Que, com certeza, a seu tempo, se revelará.

Tal medida tem sido, até, apresentada como uma ação de abrangência democrática (são, afinal, mais os eleitores) e de alargamento das bases partidárias: é possível que, pelo menos durante algum tempo, alguns (poucos) acabem por se ligar ao PS.

Enfim, à primeira vista, só vantagens.

Surgem, contudo, algumas vozes discordantes. Principalmente alertando para eventuais ilegalidades. Ilegalidades que, se não são inéditas nestas ocasiões de contagem de espingardas (muito longe disso), têm aqui todas as condições e mais algumas para florescer.

E, igualmente, para a inefável definição de “simpatizante”. Que, supostamente, deveria ser condição a enformar para qualquer candidato a eleitor.

O que é, afinal, um simpatizante?

É alguém que simpatiza muito, pouco ou… assim, assim!

E com que é que se mede? Um simpatizómetro?

Será um recorrente eleitor socialista? Ou um que vota, rosa, de vez em quanto?

Alguém que vem manifestando desejo de ser militante?

Então, porque é que, ainda, não é?

Ou é, afinal, qualquer um? Desde que vote em mim, já se vê!

Mas o problema maior nem é afinal, a difícil caracterização de simpatizante: aliás, em absoluto, impossível.

O que está em causa, aqui, é algo bem mais perverso: tentar otimizar as hipóteses de chegar ao poder, forçando a legitimidade associativa a pretexto de uma pontual abrangência eleitoralista.

Refletindo a vontade de uma comunicação social que, desde a primeira hora, elegeu António Costa como alguém com perfil conveniente para primeiro-ministro.

E transformando assim a eleição do “líder do Partido” naquilo que, na Itália, se veio a chamar o “Partido do líder”.

Englobando, aí, os tais “simpatizantes” que ninguém sabe quem são nem o que são!

Tentando uma vaga de fundo populista e esquecendo que as organizações partidárias, antes de partidárias, são organizações.

Com uma lógica orgânica (precisamente) de direitos e deveres entre os seus membros; aqui completamente subvertida.

Tem a ver, assim, com a conceção de associativismo: seja ele, recreativo, desportivo, cultural, humanitário ou político.

Com o, cada vez mais, esvaziado associativismo nacional. Com o, cada vez maior (se quisermos falar de organizações partidárias), afastamento dos portugueses da atividade politica. Enquanto militantes, enquanto simpatizantes, enquanto eleitores.

Afinal, para que diabo valerá a pena ser militante (excetuando aqueles que dividem entre si os despojos do poder) se quando chega a altura de decidir, qualquer indivíduo exterior à organização, caído aí convenientemente de para-quedas (provavelmente à procura de mais qualquer coisa) pode decidir tanto como ele?

Para quê, então, pagar cotas? Realizar trabalho associativo e organizativo? Participar de reuniões?

Para que serve, afinal, militar num qualquer partido?

Para fazer número? Ou, como diriam os nossos irmãos “brasucas”, servir de “pau d’arara?”

Não custa perceber que tais ações poderão tornar ainda mais pobre a já pobre participação política da sociedade civil.

Fazendo do ato associativo (neste caso, político) um mero oportunismo circunstancial.

Aliás, a questão final que de alguma maneira se impõe é a seguinte: até que ponto, os que eventualmente venham a ficar ligados ao PS pelo fato de terem participado nesta votação, compensam sequer aqueles (à partida bastante mais fiáveis) que, indignados com a sua desvalorização enquanto membros associativos (vulgo militantes) virarão (implícita ou explicitamente) as costas ao partido?

E o mais curioso é que eu não tenho procuração para defender os militantes partidários; do PS* ou de qualquer outro partido. Não estou, nunca estive e dificilmente virei a estar, um dia, em tal condição.

E até acho que o António Costa poderia ser uma melhor solução que o cinzentão Seguro ou o “pau mandado” da Mercher, Passos Coelho.

Contudo, e ao contrário do senso-comum vigente, acho que começa muito mal!

Elevando, o populismo, a um novo nível de instrumentalização política.

*Que curiosamente, ou talvez não, se mantêm mudos e quedos, apesar de estarem a ser tratados como uma espécie de diminuídos mentais.

Os sapos que se engolem!

Aurélio Lopes

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com