aurélio lopesA clara votação no “não”, na Grécia, constitui uma singular exceção na submissão dos povos europeus aos ditamos do todo-poderoso sistema  financeiro internacional.

Sistema, esse, para quem a lógica do mercado constitui a mais sagrada das ideologias e o dinheiro, divindade merecedora de todas as devoções.

Para quem as pessoas são meros componentes de índices consumistas, cuja obrigação coletiva é garantir e potenciar o lucro.

Para quem as desigualdades sociais (mesmo que dramáticas) constituem expressão inevitável e conveniente dos mecanismos de mercado.

Para quem as crises são desejadas circunstâncias, que geram novas oportunidades.

E, a miséria, resultado natural da sobrevivência dos mais fortes; à custa do natural espezinhamento dos mais fracos.

Sistema  financeiro ao qual se adita a ação corrupta e incompetente de governos satélites (leia-se governos de pequenos países sem influência nos areópagos  financeiros internacionais), que, entre nós, funcionam mais para Europa ver que para servir os respetivos cidadãos.

Que, alegremente, endividam o país em projetos megalómanos (e “respetivos” deslizes orçamentais) e depois declaram que a única forma de o desendividar é, nem mais, nem menos, que… tirar aos pobres para dar aos ricos!

E após meia dúzia de anos de asfixia  fiscal e de venda do património público ao desbarato, consegue, ainda, o milagre da multiplicação da dívida. Bem maior, agora, que quando passámos a beneficiar da ajuda da troica*!

Aliás, o periclitante e exagerado (e, profusamente propalado) sintoma de melhoria económica atual decorre, quase estritamente, das diminuições dos juros.

E, perguntar-se-á, se qualquer anomalia política ou económica, interna ou externa (como aquela que vimos cozinhando na Grécia)  zer subir de novo os ditos juros para valores idênticos àqueles que já estiveram?

Como vamos pagar, quando não conseguimos pagar antes?

Mesmo tendo colocado o país de tanga?

Até, porque, de onde os impostos vieram, não poderão vir muitos mais, de novo!

E, a nal, já quase não existem empresas públicas para vender!

*Quantas pessoas, no nosso país, estarão informadas que a dívida do país aumentou (e, muito) em todo este tempo em que fomos sugados até ao tutano, supostamente para a resolver? Que cada uma delas deve, hoje, bem mais ao estrangeiro do que devia que há três ou quatro anos? Poucas com certeza! Eficácia da propaganda de Portas e companhia. Azar de um país em que a competência dos seus governos serve, essencialmente, para o iludir!

 

Aurélio Lopes

*Texto publicado em edição impressa de 17 Julho