aurélio lopesReconheço que nunca tive uma particular predileção por papas. Dando de barato a sua suposta santidade e infalibilidade, os mesmos são afinal chefes de uma organização religiosa (como todas as organizações religiosas, particularmente conservadora) que, embora nos seja teológica e culturalmente próxima, possui um historial de intolerância, no mínimo, tenebroso.

Deverei, assim, abrir uma exceção para o atual.

Cuja ostensiva simplicidade e compreensibilidade, convenhamos, ao princípio me fez desconfiar. Simplicidade de forma, de imagem e de discurso, cogitei. Sem correspondência com a compreensibilidade daqueles aspetos. tanto teológicos como socioculturais e políticos que, afinal, fazem deste mundo aquilo que ele, infelizmente, é.

Hoje, contudo, acho que o seu papel (o papel que pretende desempenhar) é de alguém que se assume como incómodo para com os inúmeros vícios e intolerâncias que ainda, hoje, grassam na Igreja.

As intervenções sobre os mais variados assuntos (como aconteceu, ainda recentemente, com a sugestão de que o radicalismo islâmico deve ser enfrentado não exclusivamente de forma repressiva mas, igualmente, através de uma alteração na nossa maneira de ver o outro) revelam não só uma inaudita coragem (face às bolorentas atitudes politicamente corretas do Vaticano) como, ainda, uma significativa clarividência.

Sugestão desassombrada e contracorrente, que lançou mais vez a polémica*. Incomodando muitas posturas tradicionalmente acomodadas e confortavelmente instaladas.

Tal como tinha acontecido, já, com as suas opiniões manifestas sobre os homossexuais, o papel das mulheres, o celibato dos padres e, grosso modo, a hipocrisia caritativa.

Afinal, aquilo que vem, de forma ainda surda, provocando uma divisão na Igreja.

Entre as massas católicas pouco canonizadas que o adoram e grande parte das estruturas pastorais e eclesiásticas (bem como a própria hierarquia do Vaticano) que, por enquanto, o censuram de forma inversamente proporcional à respetiva responsabilidade hierárquica.

A tal hierarquia mais ou menos atacada do famoso “alzheimer espiritual”.

Naturalmente existirão sempre diferenças entre as nossas maneiras de ver as coisas.

Reconheço, contudo, que preferiu a inquietude de afrontar os “vendilhões do templo” a optar pelo habitual e farisaico papel de arquétipo moral de uma organização, afinal, de enviesada moralidade.

E isso é algo que nos deve merecer o maior respeito.

* Uma pergunta apenas a propósito deste tema que tanto tem emocionado a opinião pública portuguesa: será que optarmos por não ridicularizar os outros naquilo que eles consideram mais sagrado, é estar a abdicar do nosso direito à liberdade de expressão?

Não estaremos a confundir direitos com deveres?

Ou será que achamos que é a mesma coisa?

O que é extraordinário é precisar de ser o Papa a alertar para uma coisa destas.

 

Aurélio Lopes

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com