aurélio lopesO espetáculo “A Conquista de Santarém”, que o Veto levou a efeito no Teatro Sá da Bandeira, permitiu, para lá do disfrute das evidentes qualidades dramáticas, um peculiar pretexto para uma reflexão, aqui, acerca das simbologias míticas das dominâncias históricas e culturais.

Lendas como a de Zoraida de Santarém, a de Oriana (ou Fátima) de Ourém ou de Zara de Abrantes e, ainda (entre muitas outras) a de Ramiro e Ortega de Miragaria/Porto ou de Ardínia e o Tedo do Douro Sul, correspondem, inevitavelmente, a arrebatados romances entre um cavaleiro cristão e uma moura; quase sempre de nobre nascimento.

Inevitavelmente!

Vistas assim as coisas, parece, até, que todos os cavaleiros cristãos eram nesse tempo verdadeiros “Apolos” e, as princesas mouras, autênticas “Helenas de Tróia”.

Já os mouros e as cristãs (princesas ou não), pelos vistos, não deviam nada à beleza!

Provavelmente do género de “meter medo ao susto”!

Que diabo, nem sequer uma lendazinha de um mouro apaixonado por uma cristã e vice-versa?!

Porque será?

Carece-se, assim, de uma breve explicação.

A conquista de um povo por outro, a dominação de uma cultura por outra, acarretaram invariavelmente, na história humana, ações diversas (não obstante conjunturalmente justificadas), implicadoras de enorme violência e crueldade.

Vencer os inimigos nem sempre chegava. Era preciso impedir que os mesmos se viessem a constituir mais tarde como novos inimigos. Era preciso desfazer a sua capacidade bélica e esmagar a sua capacidade anímica.

Matavam-se os guerreiros, violavam-se as mulheres ou levavam-se estas e as crianças como cativos e escravos. Possuir a mulher do inimigo constituía a maior afronta possível e símbolo de subjugação por excelência.

Este era assim atingido no mais fundo da sua honra: a sua mulher tornada posse sexual do vencedor: os seus filhos (atuais ou futuros) tornados filhos do seu mais odiado adversário: educados segundo “abomináveis” ideais e valores.

Não admira assim que, num contexto erudito e sublimado, as lendas da reconquista guardem mitificadas memória de reais ou hipotéticas situações em que uma moura se perde de amores pelo inevitável cavaleiro cristão.

Arquétipos de rendição, as mesmas surgem como renunciando à sua cultura e religião. Às vezes à própria família. Submetendo-se assim, voluntariamente, ao poder do conquistador, dão corpo a símbolos míticos da submissão do antigo ao novo poder e ao novo credo; visto, naturalmente, como o único certo e verdadeiro.

Na verdade, não só a história documental é feita pelos vencedores. Os mitos e lendas preservam igualmente a perspetiva dos conquistadores. De heróis e santos: épicos e puros. Veiculada, esta, por uma tradição oral mais ou menos institucionalizada.

Afinal, os povos vencidos tendem gradualmente a desaparecer da memória coletiva enquanto criaturas reais e transitam como que para uma outra dimensão existencial. Refugiam-se em locais míticos e misteriosos: no interior da terra, em montanhas remotas ou em ilhas escondidas como Avalon. Em ruínas perdidas, grutas peculiares, construções megalíticas.

A perca das capacidades materiais e bélicas surge como compensada pela aquisição de poderes mágicos e prodigiosos*. Escondidos, tornam-se os detentores das riquezas produzidas no interior da terra. “Encantados”, tornam-se eternos guardiões das mesmas, por tempos imemoriais.

É também, esta, a origem peninsular das, assim chamadas, “mouras encantadas”: produto de duas matrizes míticas distintas (a solar e a ctónica) que perpassam personagens como as “fadas”, os “elfos” e os “anões”. Cujas lendas enformam aldeias e lugares de norte a sul de Portugal.

Belas de morrer, sujeitas de ancestrais encantamentos, penteando (melancólicas) seus longos cabelos loiros, chorando dolentemente impossíveis e perdidos amores, guardando maravilhosos tesouros ou transformando-se em assustadoras serpentes ao refulgir do último raio de sol. Principalmente nos prodigiosos tempos dos solstícios.

Mas isso, é tema para outra conversa…

*Daí, grande parte das entidades mágicas e estigmatizadas, que constituem o bestiário mitológico da nossa sociedade. Não só dos mouros ou mouras e outros tipos de encantados, mas ainda (entre outros) das bruxas e demónios, dos diabos de pês de cabra e zoomorfismos selénicos ou, até, de dragões, zorras ou serpes; com ou sem asas.

 

Aurélio Lopes

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com