Feira da PiedadeEm tempos não muito distantes as datas do calendário taurino escalabitano eram as da Feira do Milagre, em Abril, as da Feira do Ribatejo, em Maio e Junho, e as da Feira da Piedade, em Outubro. Eram… o tempo verbal está adequadamente conjugado, pois algumas já não o são, e as restantes tendem a sê-lo cada vez menos.

Adeus mundo cada vez a pior! Da Feira do Milagre já só aficionados mais veteranos se recordam, mas convirá lembrar que há algumas décadas atrás havia uma importante feira de ano que coincidia com as festividades em honra do Santíssimo Milagre e que incluía sempre um ou dois festejos taurinos. A Feira do Ribatejo tem sido uma sombra do que era, desperdiçando- se as melhores datas tradicionais, alterando-se horários habituais e reduzindo- se o número de espectáculos. Claro, já para não compararmos a força dos cartéis de há uma ou duas décadas com os de agora. Não há comparação possível! E quanto à Feira da Piedade – que deveria ter o seu início no próximo domingo, está à vista! Nem novas nem mandadas…

Ainda poderíamos condescender na perda de importância do tauródromo escalabitano – até nos custa associar o prestigiado nome do saudoso Celestino Graça a tal estado de coisas! – se tal ocorresse um pouco por todo o lado, mas em praças como as de Vila Franca de Xira, da Moita do Ribatejo ou de Alcochete continuamos a assistir a corridas interessantes e a Feiras com força. A Feira da Moita do Ribatejo, organizada pela empresa concessionária da Praça de Toiros de Santarém, mantém o mesmo número de espectáculos, incluindo o toureio a pé e uma novilhada, e os resultados financeiros, tendo em conta a afluência de público, não deverão ter sido muito generosos. Porém, ali a tradição ainda é o que era!

Os aficionados destas localidades intervêm criticamente no que sucede nas respectivas praças de toiros, pressionam os empresários para a necessidade de manter o nível dos seus espectáculos e as entidades proprietárias dos tauródromos impõem condições exigentes nos respectivos Cadernos de Encargos. E por cá? Estamos conversados.

As diversas empresas que têm explorado a Praça de Toiros de Santarém não têm investido nada no sentido de optimizar as condições deste excelente tauródromo e tendem a considerar como fragilidade o que é, inquestionavelmente, a sua mais-valia – a lotação de cerca de onze mil espectadores. Que outra praça no país tem tanta “defesa” como a nossa?

Obviamente, a Monumental “Celestino Graça” exige cartéis fortes para promover grande afluência de público, pois se se repetem cartéis vistos em todas as praças vizinhas é natural que o público não esteja disposto a ver mais do mesmo, todavia, nas corridas em que os toureiros são grandes figuras, estão em bom momento ou têm carisma para atrair público, o resultado é habitualmente muito melhor. Tomemos como exemplo a corrida comemorativa do centenário do Grupo de Forcados Amadores de Santarém – cartel aliciante, bom esforço de promoção do espectáculo e, como resultado, a melhor casa das últimas temporadas.

Mas, manda a prudência que os preços da bilheteira sejam compatíveis com a qualidade do espectáculo e com o poder de compra dos portugueses. Muitas vezes sob o pretexto de se venderem bilhetes a cinco ou a dez euros, o que acontece é que os restantes bilhetes têm preços muito elevados, o que afasta o público, que não anda a nadar em dinheiro.

Parte do problema de Santarém é transversal ao que acontece em todo o país taurino, pelo que quem vive da Festa deverá ponderar muito bem se quer um negócio com futuro ou uma actividade para sacar enquanto der… e quem vier atrás que feche a porta. Como várias vezes tenho dito e escrito, pela minha parte não tenho nada a perder, pois, não tenho nenhum capital investido no negócio, embora me desagrade assistir ao estertor de um espectáculo tradicional e artístico que tanto aprecio.

LM

*Texto publicado em edição impressa de 9 Outubro