A Tertúlia “Festa Brava”, sediada em Azambuja, prestou justa homenagem ao consagrado matador de toiros Vítor Mendes na passada sexta-feira, dia 22 de Setembro, num jantar-convívio muito concorrido e onde pontificaram algumas figuras referenciais do nosso mundillo taurino.

Ludgero Mendes, a convite da Tertúlia, dissertou sobre a vida e a trajectória de tão carismático toureiro, tarefa de que se desincumbiu a contento de todos os presentes, na medida em que, sem deixar de evocar algumas datas incontornáveis na carreira de tão importante toureiro, privilegiou as referências à personalidade de Vítor Mendes, abordada na dupla dimensão de Homem-Toureiro, aspecto em que a figura do prestigiado matador português assume o maior interesse, posto que o seu quadro de valores e de referências morais é sublime e deve, até, constituir um grande exemplo para todos quantos aspirem a seguir-lhe as pisadas em tão difícil profissão.

Para se triunfar como Toureiro é fundamental que se seja um Homem bem formado, cultor de bons princípios de educação, designadamente, a humildade, a perseverança, o respeito, a responsabilidade, a honradez, a generosidade, o altruísmo e a “verguenza torera”. Sem estes atributos poder-se-á tourear bem, poder- se-á, até, sair triunfador em algumas corridas, mas nunca se logrará alcançar o estatuto de figura durante toda a sua trajectória, continuando a sê-lo mesmo após duas décadas da sua retirada formal das arenas. Ser figura do toureio, e como tal ficar registado nos anais da tauromaquia mundial, impõe uma conduta séria e honrosa dentro e fora das arenas.

Para alcançar o estatuto de que ainda hoje desfruta, sedimentado no respeito que por si nutrem actuais e antigas figuras do toureio, Vítor Mendes teve de ser muito forte de convicções e arrostar contra todo o tipo de vicissitudes, pois, nada
lhe foi facilitado ou servido em bandeja.

De menino que sonhava ser toureiro, sugestionado, naturalmente, pela ambiência taurina que vivia em Vila Franca de Xira, onde passou a viver aos três anos de idade. A par do avanço nos estudos, Vítor Mendes, que também aspirava a ser músico, chegando a integrar a Banda do Ateneu Artístico Vilafranquense, aprendia as bases do toureio ensinadas por António Cadório, pelo maestro José Júlio e por António Badajoz, apresentando-se em público pela primeira vez aos quinze anos de idade na “Palha Blanco”, participando no concurso “Vila Franca Procura um Toureiro”.

A partir de então não mais deixou de animar o sonho do toureio e a sua materialização. A 24 de Junho de 1976 prestou provas de bandarilheiro praticante, em Alcácer do Sal, e a 17 de Agosto do mesmo ano tirou a alternativa, tendo como padrinho o seu mestre de então António Badajoz. De bandarilheiro serviu em Espanha os maestros Palomo Linares, José Maria Manzanares e Dâmaso Gonzalez, actuando em mais de sessenta corridas em duas temporadas. Em 7 de Maio de 1977, na “Palha Blanco”, integrou a quadrilha de Rayto de Venezuela, num festival pró-mausoléu de José Falcão, despertando o maior interesse do taurino espanhol Gonzalito, que o estimulou a seguir para Espanha e a retomar o sonho de ser matador, pois, anteviu-lhe bastas potencialidades para cumprir tal desiderato.

Vítor Mendes não deixou arrefecer estas palavras e no início de Janeiro de 1978 rumou a Espanha, vindo a fixar-se no antigo Hotel Triana aproveitando todas as oportunidades que lhe iam surgindo, por influência do próprio Gonzalito, que viria a ser o seu primeiro apoderado, e de tal sorte o jovem toureiro português deu nas vistas que se estreou na Monumental de “Las Ventas”, em Madrid, a 1 de Maio de 1980, tendo sido, porém, colhido por um toiro de Branco Núncio. Prosseguiu uma intensa carreira novilheiril triunfando com frequência e a 13de Setembro de 1981 tomou a alternativa de Matador de Toiros em Barcelona, sendo apadrinhado por Palomo Linares e tendo como testigo José Maria Manzanares, enfrentando toiros de Carlos Nuñez aos quais cortou três orelhas, pelo que saiu em ombros. Estava consumado o 20 º matador de toiros português.

De então em diante, Vítor Mendes começou a ser presença assídua nas principais feiras taurinas do país vizinho, impondo-se no confronto com as figuras de cada época, pelo que em cerca de dezoito anos de actividade profissional constante integrou o Grupo Especial em catorze temporadas, estando em algumas delas nos três primeiros postos do escalafón, actuando em mais de cem corridas por época, para além das que realizava em França, na América Latina e em Portugal.

Vítor Mendes estava consagrado como uma das mais reluzentes figuras do toureio a nível mundial, alternando com os toureiros mais importantes da geração anterior à sua e com os que no seu tempo se confirmavam igualmente em plano de grandes figuras.

Para a história registam-se as tardes em que repartiu cartel com Paco Camino, Júlio Robles, Manolo Cortes, Curro Romero, António Chenel “Antoñete”, Andrés Vásquez, Rafael de Paula, Roberto Domínguez, Palomo Linares, Francisco Rivera Paquirri, Francisco Ruiz Miguel, Dâmaso Gonzalez, Pedro Moya “El Niño de la Capea”, Paco Ojeda, Curro Vasquez, Ortega Cano, ou outros que estavam então a romper, como Juan António Ruiz “Espartaco”, Enrique Ponce, “El Fundi”, José Luís Palomar, Luís Francisco Esplá, Vicente Ruiz “El Soro”, Joselito, “El Cordobés”, Miguel Baez “Litri”, “El Juli” e tantos outros, que mau grado que não tivessem tanta projecção foram igualmente respeitáveis figuras da tauromaquia mundial.

Vítor Mendes é reconhecido como um profissional de carácter, vistoso e elegante com o capote, inigualável com as bandarilhas, e mandão e poderoso com a muleta, pelo que é considerado, justamente, um toureiro completo, que não tinha fragilidades em nenhuns dos tércios e que, acrescidamente, dava tudo o que tinha em cada lide, como se fosse a última. No seu corpo estão sinalizadas mais de trinta cornadas graves, a par das cerca de vinte cirurgias a que teve de sujeitar-se, mas após a recuperação de uma colhida Vítor Mendes regressava às arenas ainda com mais ganas e com maior determinação, levando os médicos que o acompanhavam a recusar-se a fazer prognósticos de convalescença, pois, o diestro português recuperava sempre antes das previsões, tamanha era a vontade de prosseguir a sua arte.

É desta massa que se talham as figuras do toureio, que superam todas as contrariedades e que podem ufanar-se de nunca haver recusado uma ganadaria ou um alternante. Especialista nas ganadarias duras, tal era o seu ofício, a sua técnica e o conhecimento que tinha do toiro, Vítor Mendes impôs-se, também, frente aos toiros mais cómodos, de investida mais suave, o que permite confirmar que este ilustre matador é também um toureiro de arte, que sabe plasmar a elegância, o temple e a inspiração em tandas de um requinte estético sublime. Vítor Mendes despediu-se formalmente das arenas em 1997, em Espanha e na América, vindo a fazê-lo em Lisboa em 1998 e na sua adorada “Palha Blanco” apenas em 2001, na lembrada corrida comemorativa do centenário do emblemático tauródromo vila-franquense. Porém, para satisfazer a sua imensa afición e para cooperar com fins benemerentes continua a apresentar-se com alguma regularidade em festivais, onde dá constância do seu poder e da sua invejável condição física.

Ao longo da sua carreira Vítor Mendes conquistou largas dezenas de troféus, sendo que ainda na actualidade continua a ser justamente distinguido, quer pelo seu notável contributo dado à tauromaquia, quer, outrossim, pela acção que ainda mantém como director técnico da Escola de Toureio “José Falcão”, de Vila Franca, como conferencista sobre assuntos taurinos e pela permanente disponibilidade para ajudar toureiros a aperfeiçoarem a sua técnica e a depurarem a sua arte.

Parabéns, Maestro!