“Insuficiência Acutilante” marca a estreia literária de Isabel Miguel, professora no ISLA de Santarém. A autora conta-nos que a obra “Sic infit – Insuficiência Acutilante” é a consolidação do seu amor pelas palavras. “O respirar deste livro foi o reencontro do verdadeiro amor, um amor por mim, aceitar-me. Ser de novo”, conta ao Correio do Ribatejo.

Em que altura da sua vida descobriu a vocação para a escrita?

A língua portuguesa foi uma descoberta, nasci em Mainz, na Alemanha e aprendi a língua alemã e inglesa na escola, as aulas de português eram claramente insuficientes para uma aprendizagem coerente. Após alguns anos no estrangeiro resolvi que queria viver em Portugal e as dificuldades na escola eram muitas devido à falta de conhecimento da língua, então comecei a ler tudo o que encontrava, felizmente os meus pais compravam muitos livros de autores portugueses. Um dia, já em Portugal, o meu pai foi chamado à escola… disseram-lhe: “A sua filha lê demais. Vai à biblioteca dois em dois dias e lê nos intervalos, devia falar com ela!” O meu pai contou-me esta história anos mais tarde, já eu era adulta.

O primeiro livro que li foi em alemão, intitulava-se “Flo mit guter Laune” de Wilhelm Topsch, tinha cinco anos. A história de Flo é uma narrativa maravilhosa de um menino que espalha alegria pela cidade. Ainda hoje quando estou triste releio algumas páginas deste livro. Este livro foi o primeiro encanto das páginas com letras.

Quanto à escrita. Comecei a escrever muito cedo, penso que por volta dos 14 anos, dado à minha dificuldade com a língua portuguesa, como já referi, lia o mais que podia. Depois um dia as palavras começaram a dançar…

O que é que inspirou esta “Insuficiência Acutilante”?

Este livro é a consolidação do meu amor pelas palavras, um amor que abafei durante quase 20 anos. Uma noite não consegui para de escrever, penso que escrevi uns 10 poemas. Nesse dia senti que tinha voltado a respirar.

O respirar deste livro foi o reencontro do verdadeiro amor, um amor por mim, aceitar-me. Ser de novo. A simplicidade de alguns poemas é enganadora! O Poema “Sempre” pode ser lido de cima para baixo, de baixo para cima e ainda alternadamente:

Sempre
Quero desistir.
Quero o pedaço que levaste.
Quero o que roubaste.
Sempre só.
Sempre sem.
Sempre com.

Decidi também escrever como penso! A minha escrita vem de uma mente que pensa em três línguas, não sei se alguém entende isso, mas as frases são sempre uma mistura do inglês, alemão e português. Não consigo evitar e por vezes causa situações embaraçosas. Existem poemas em português, inglês, e alemão, no entanto algumas misturam as várias línguas que conheço.

Quais são as suas grandes referências literárias?

Edgar Allen Poe, William Blake, Goethe, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Viginia Wolf, Emily Bronté, Florbela Espanca, Emily Dickinson.

Considera que o hábito da leitura pode revelar talentos literários?

O hábito de leitura desenvolve a capacidade de escrita e da criatividade. No meu caso foi a leitura que me ensinou a escrever e a pensar. Na minha opinião, os talentos literários não são fabricados. Eu, por exemplo, não escrevo, ou muito raramente, tenho rimas na minha poesia, poderia tentar fazer rimas, mas desse modo a minha poesia não seria tão sentida como é. Florbela Espanca sentia o amor e a dor em rimas incisivas, ninguém a consegue igualar.

Acredita que um livro pode mudar a vida de uma pessoa?

Sim, definitivamente sim. Quando li o poema “Dispersão” de Mário de Sá Carneiro e “As mágoas do jovem Werther” de Goethe a minha vida mudou. O livro seguinte que agitou o meu ser mais profundo, foi “O Jogo das contas de vidro” de Hermann Hesse. A narrativa de um homem totalmente aberto a qualquer tipo de saber e erudição, absorvendo todos os ensinamentos que vai recebendo na procura de uma compreensão do mundo que o envolve.

Em Castália no ambiente futurista são realizadas os jogos das contas de vidro. O percurso de Knecht é um despertar intelectual e interior, no entanto, a morte do protagonista não ensombra a beleza desta obra fantástica.

Outro livro marcante é “A Vida em Surdina” de David Lodge, em português “Gente feliz com lágrimas” de João de Melo e “O Jardim sem Limites” de Lídia Jorge, a lista não termina. O grande sábio Frank Zappa dizia:”So many books, so little time”.

Tem outros projectos em carteira que gostaria de dar à estampa?

Sim, estou a escrever o segundo livro de poemas e quero escrever um livro para crianças com as ilustrações realizadas pela filha de um amigo. Estou a trabalhar num projeto com a autora, Paula da Cruz, do Prefácio de “Insuficiência Acutilante”, mas esse é segredo. Para além disso pretendo escrever um livro sobre medos com as ilustrações de um artista, mas ainda não falei com ele, vai ser surpresa.

Um título para o livro da sua vida?

“Ventos que sopram”, porquê? Foi o título que criei para o meu primeiro livro de poemas que não verá a luz do dia porque foi algo escrito na minha juventude.

Viagem?

Viena de Áustria, já fui lá duas vezes em trabalho e visitei muito pouco a cidade. A ópera de Viena é um edifício arrebatador, quero conhecer cada canto daquela cidade maravilhosa.

Música imprescindível?

Jazz, R&B, Heavy Metal e algum Pop. Agora descobri uma cantora chamada Grace Vanderwaal, tem apenas 12 anos mas tem uma voz fabulosa com música profunda e sentida.

Quais os seus hobbies preferidos?

Ler é uma necessidade, não consigo viver sem livros, anda sempre, sempre um na minha mala. Neste momento estou a reler “A quinta dos animais” George Orwell. Depois adoro costura, adoro costurar, criar e alterar a minha roupa.

Download PDF