Há figuras verdadeiramente incontornáveis na nossa cultura. Umas, optam por atitudes e gestos mais palacianos e movem-se com extraordinário à-vontade nos meandros da elite social; outras, deixam-se confundir com o povo, cuja convivência procuram, e aprendem os segredos e a subtileza do carácter popular nos caminhos tortuosos do mundo rural e nas suas casas pobres e desconfortáveis.

Apenas com trinta anos de idade, mas já com muita experiência de vida, o cidadão corso Michel Giacometti (8 de janeiro de 1929, Ajaccio, França / 24 de novembro de 1990, Faro), chegou ao nosso país curioso e sedento de conhecer melhor a etnomusicologia portuguesa. Do que tencionava ser uma passagem pouco prolongada, transformou-se numa fixação para o resto da vida. Outros trinta anos, que a sua vida, apesar de intensa, não foi muito longa…

Dando conta do que pretendia fazer, Giacometti foi sendo apresentado a algumas das figuras mais insignes da nossa cultura, entre as quais o maestro Fernando Lopes Graça, que também haveria de lhe facilitar o relacionamento com os intelectuais que militavam na resistência e na oposição ao regime de então.

Mas Giacometti não era homem de gabinetes, nem de vidas sedentárias em qualquer repartição, pelo que a sua opção de vida, tantas vezes com o sacrifício decorrente do desconforto de uma vivência rural, comendo e dormindo onde a ocasião proporcionava, foi viver com o povo e como o povo.

Rumou ao Alentejo profundo, onde tinha mais facilidade de acesso e podia contar com mais apoio, e iniciou um trabalho incansável de pesquisa e de recolha de temas musicais tradicionais e do cancioneiro que lhe estava associado, deitando mão dos parcos recursos técnicos de que dispunha, mas que, mesmo assim, eram já um passo de gigante ao nível dos nossos investigadores, pois, Giacometti, sempre munido do seu cadernos de apontamentos, nunca prescindia do gravador áudio e às vezes da câmara de imagem.

Desse modo, Michel Giacometti retratou para a posteridade informações preciosíssimas sobre tantos dos nossos tesouros culturais populares, não apenas do Alentejo, onde se radicou, nomeadamente em Peroguarda, mas, também, na Beira Baixa e em Trás-os-Montes, exactamente as regiões etnográficas até então mais olvidadas pelos etnógrafos servidores do regime.

Para além da sua qualificada intervenção ao nível da pesquisa e do estudo do património cultural imaterial, não pode deixar de se evidenciar o valioso contributo na recolha de instrumentos associados ao trabalho, que deram origem à constituição de um excelente museu em Setúbal.

Entretanto, nos primeiros anos da década de 1970 Michel Giacometti conseguiu ver transmitidos na televisão trinta e sete documentários sobre as suas pesquisas, os quais constituem notáveis subsídios para o aprofundamento e para a divulgação da etnomusicologia portuguesa, para além de ter publicado, em co-autoria com o maestro tomarense Fernando Lopes Graça, um livro subordinado ao Cancioneiro Popular Português, que foi acompanhado por uma gravação áudio de elevada qualidade. A Michel Giacometti se fica a dever também uma acção determinante na constituição dos Arquivos Sonoros Portugueses, que proporcionou a edição de diversos trabalhos fonográficos.

A edição da filmografia de Giacometti, acompanhada por uma colecção de livros que relatam detalhes das gravações realizadas, e que contextualizam muitos dos temas abordados, é mais um contributo de grande relevância para a divulgação da nossa música tradicional popular, infelizmente, tão afastada dos canais televisivos e tão pouco promovida junto dos nossos concidadãos, nomeadamente daqueles que se devotam ao estudo da nossa etnografia e folclore, e que tanto carecem de conhecer profundamente esta matéria.

Por mais que alguns queiram, o labor de Giacometti não é substituível, nem olvidável, apesar de dever ser analisado à luz da agenda política e cultural que norteava os destinos deste cidadão do mundo a quem a cultura portuguesa tanto ficou devendo.