ludgero 07-02-17Independentemente de qualquer análise complementar que possa (e deva) ser feita em relação aos dados estatísticos agora divulgados pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais relativos à temporada tauromáquica do ano de 2016, a leitura directa dos números assim dados a conhecer permite-nos percepcionar a realidade dos nossos tempos.

Uns, mais optimistas, tenderão a congratular- se com os números ora apresentados, enquanto outros, mais realistas (que não pessimistas!) não lograrão esconder alguma inquietação em relação ao futuro.

Não, não vamos por aí! Agora não deixaremos nunca de exaltar os que tudo fazem para valorizar e dignificar a Festa Brava, no que, seguramente, estarão a contribuir para lhe assegurar melhor futuro. Foram os casos ainda recentes do Bar “Picador”, da Nazaré, do Clube Taurino do Concelho da Chamusca e do Clube Taurino de Alter do Chão que promoveram eventos sociais de extraordinária categoria que envolveram não apenas os aficionados de cada uma das regiões, mas, outrossim, entidades e personalidades públicas cuja presença constitui uma eloquente referência em favor da Festa.

Na passada temporada foram autorizados 206 espectáculos taurinos, mas apenas se realizaram 191, pois 15 foram cancelados sobretudo devido a condições atmosféricas. Entre os espectáculos realizados há a notar que 158 tiveram lugar em recintos fixos e 33 em praças ambulantes (desmontáveis ou portáteis), e em termos de afluência de público, num total de 362.057 espectadores, 335.057 assistiram a espectáculos nas praças fixas e os restantes 27.000 em praças ambulantes.

Quanto ao tipo de espectáculos realizados a tendência dos últimos anos manteve- se intocável, pois, realizaram-se 125 corridas de toiros à portuguesa (65,45%), 22 festivais tauromáquicos (11,52%), 16 corridas mistas (8,38%), 13 novilhadas populares (6,81%), 11 espectáculos de variedades taurinas (5,76%) e 4 novilhadas (2,09%).

Santarém é dos concelhos “taurinos” onde se realizaram menos espectáculos – apenas três, sendo que dois tiveram lugar na Monumental “Celestino Graça” e um em Casével.

As praças de toiros com maior actividade foram as de Albufeira (22), Campo Pequeno (14), Évora (8), Moura (7), Moita do Ribatejo, Vila Franca de Xira e Nazaré (6) e as de Alcochete e Caldas da Rainha (5), sendo de referir que os concelhos de Alandroal, Alenquer, Castelo de Vide, Ribeira de Pena, Seia e Vagos acolheram espectáculos neste ano em análise, não tendo registado qualquer actividade taurina em 2015, o que é relevante.

Comparativamente com a época de 2015 realizaram-se menos 16 espectáculos o que se reflecte directamente no decréscimo do número de espectadores, que regista uma redução de 33.406 espectadores. Esta circunstância poderia ter pouca relevância se não fosse o facto de esta tendência se acentuar em todos os anos precedentes desde, pelo menos, o ano de 2007, e ainda com maior expressão em relação à temporada de 2008. Então, realizaram-se 307 espectáculos – mais 116 do que em 2016 – e o número de espectadores foi de 698.142 – mais 336.085 do que em 2016. Era bom reflectir sobre isto!

Argumentem como quiserem, mas os dados são irrefutáveis! Bem sabemos que os aficionados portugueses têm tido um menor poder de compra devido à malfadada crise, mas, convém reflectir sobre o que é que deveria ter sido feito para não os perder, e não foi. Um aficionado que deixa de ir um ano assistir a algumas corridas, e que também não vai no ano seguinte, às tantas não volta mais… A maioria dos cartéis têm pouco interesse, são demasiado repetitivos; não temos figuras do toureio com capacidade de atrair o público às praças; há muitas corridas realizadas nas mesmas datas em localidades próximas, retirando público umas às outras; os bilhetes – e nós sabemos do que falamos, porque os pagamos – estão demasiado caros para a qualidade da maioria dos espectáculos…

Quem tem responsabilidades neste sector de actividade cultural tem a obrigação de enfrentar os problemas e incrementar estratégias que invertam esta situação, enquanto não for tarde de mais, pois, assim, como estamos, vamos de mal a pior. Em Madrid, por exemplo, a empresa de Simón Casas, concessionária da Monumental de “Las Ventas”, acaba de lançar as seguintes medidas: serão disponibilizados 2.100 bilhetes de abono para os reformados, que pagarão por época 114,50 euros e os jovens, até aos 25 anos de idade, disporão de Secções Jovens nos Tendidos 5 e 6 a partir de 105 euros por época, sendo que os jovens que prefiram adquirir o abono para os tendidos de Sol a preço reduzido, o podem fazer a partir dos 106 euros. Como a temporada madrilena tem cerca de trinta espectáculos, o preço médio de cada bilhete custa aproximadamente cinco euros!

Naturalmente, um abono para toda a temporada num lugar de barreira do sector 1 custa mais de quatro mil euros. Mas, isso é para quem pode… o que, contudo, em nada conflitua com o gosto e a afición dos que não têm condições financeiras para tanto, mas, mesmo assim, podem assistir aos mesmos espectáculos a preços muito módicos.

Entretanto, passou o defeso e, à margem de alguns eventos festivos promovidos por Tertúlias ou por alguma Comunicação Social da especialidade, nada se fez. Seria importante que todos os agentes que intervêm directamente na organização de espectáculos tauromáquicos, através das respectivas organizações de classe, tivessem reunido para definirem estratégias com vista à salvaguarda desta actividade social, cultural e económica, mas, não, é melhor cada um puxar a brasa à sua sardinha, enquanto o lume não se apagar, depois, quem vier atrás que feche a porta. De mansinho, já agora.

Ludgero Mendes

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