Candido Azevedo2No passado dia 10 de Junho, foi inaugurado na cidade e em frente à Casa de Portugal e de Camões o memorial aos homens do concelho de Santarém, caídos em combate na guerra do ultramar. Um gesto que já tardava e que em boa hora foi materializado, com destaque para a Liga dos Combatentes, Câmara Municipal, Juntas de Freguesia e diversas vontades individuais. Não podia eu faltar a esse tão importante momento para aí render a minha homenagem a muitos camaradas que não haviam regressado. Assim, peguei na minha boina vermelha e respeitosamente estive presente.

Recentemente chegado da China, encontrei na cerimónia velhos amigos que não via há décadas. Surpresos, seguiram-se grandes abraços, e inevitavelmente recordações daquele tempo. Já na fase de despedidas vieram alguns desafios: “Temos lido os teus escritos no Correio do Ribatejo”, diziam uns. “Nunca escreveste nada sobre a guerra em que estivemos” dizia outro. “Narra o que a nossa geração passou por lá”, pedia outro. “Esta gente tem memória curta” retorquia outro, levantando a perna da calça e mostrando uma prótese (já gasta de anos) no lugar do pé, perdido numa mina anti pessoal. Prometi-lhes que sim, que, embora fugisse a esse tipo de escrita, cumpriria os seus pedidos, que falaria dos sacrifícios, dos especiais treinamentos, dos nossos momentos únicos. Porque não? Então estimado leitor, por respeito aos homenageados daquele dia, e a todos aqueles que serviram no antigo Ultramar, deixo as linhas que se seguem, falando-vos de um deles, do Ramiro.

«Já na Universidade, é Ramiro chamado à vida militar, percurso obrigatório para a juventude portuguesa de então. O país esperava pelo seu contributo. Nada surpreso, Ramiro entendeu que havia que cumprir com honestidade pela Pátria, solidariedade para com os companheiros chamados às armas, humanismo para com o inimigo, a quem o determinismo da História, devido a uma política obsoleta, impedira a construção de países ciosos da sua identidade e herança. Havia que ir, cumprir e regressar. Era uma vida nova que o aguardava aos vinte anos e poucos meses. Que especialidade lhe calharia? Era indiferente. Assim como há o amor e a solidão, a alegria e a melancolia, o ócio e a ocupação, pensava, também havia a luz e a morte e o acaso e a sorte. Fisicamente bastante apto, Ramiro foi para os “Comandos”. Uma opção! Uma decisão!

Na dureza do curso, nos dias bruscamente virados do avesso, no nervosismo do inesperado, na procura do desconhecido, e perante as habituais palavras dos instrutores “desistir fica para os fracos, os fortes insistem”, ou perante a habitual pergunta “de que cor é o medo?” onde em uníssono respondiam “da cor da prudência!”, era o tudo por tudo e, na antevisão dos tempos explosivos que os aguardavam, quais cachopos, faziam “pactos de sangue” onde prometiam uns aos outros evitar que algum deles, em caso de um desfecho cruel, se expusesse a um resto de vida inumana e brutal. Enfim, quimeras de uma juventude que se sentia forte para aquilo que o futuro lhes aguardava, instruída sob os acordes do “donne moi ma chance …” que se ouvia várias vezes ao dia, em sentido e silêncio. Terminado o curso e já com o “crachat” no peito e as insígnias de oficial nos ombros, Ramiro e os outros viviam a máxima “Somos quem fez do perigo o seu pão, do sofrimento o seu irmão e da morte a sua companheira”, difícil de esquecer, porque algo que lhes era repetida diariamente.

Na brutalidade da guerra, todos eles amadureciam. Em momentos de grande perigo relembravam uns aos outros “… não te esqueças, estamos unidos por laços do destino que ninguém desatará e que cumpriremos, ouviste? É para manter!”. Nas muitas madrugadas, quando a natureza despertava sonolenta, com os pássaros recolhidos e as cobras ainda sem sair, iam já todos eles a caminho dos objectivos In (inimigo) superiormente definidos. No percurso, trocando palavras por gestos, ora em marcha forçada, ora rastejando, ora deslocando-se com lentidão e em coluna por um, e, dada a proximidade do perigo, curvados, abriam em linha, o coração batendo com violência, o peso da arma na anca, o dedo na frieza do gatilho, prontos, desconfiados, atentos ao menor restolhar de mato, como se todo o universo parara. O que os esperaria?

Ali, sentia Ramiro a responsabilidade de comandar vinte e cinco vidas: muitas mães, várias esposas, filhos, noivas contavam com ele, com a sua lucidez e o seu discernimento esperando que trouxesse o seu querido filho, marido, pai ou noivo de volta. Como o tempo lhe parecia uma eternidade! Também a sua querida mãe o esperava de volta. Recordava então Ramiro a canção da banda Oliveira Muge:

 

Mamãe, tu estás tão longe de mim !

Mamãe, sinto que estás a chorar.

Não chores a minha ausência

Que um dia hei-de voltar!

 

Não chores, e pensa agora

Que o tempo passa depressa.

Pede a Deus que te tire esse tormento,

Desse teu formoso rosto.

 

Ramiro vivia tamanha responsabilidade, sem deixar de, com zelo, cumprir a sua obrigação, sempre no espírito do “Mama Sume”[1], o grito dos Comandos. Sabia ele que sentiria momentos que nunca mais esqueceria, coisas inexplicáveis. E sentia então o absurdo da guerra, naquele sucedâneo de operações: “Nó Górdio”, “Laço”, “Baluarte”, “Vendaval”, etc. etc. e na repetição dos objectivos: golpes de mão, emboscar e capturar, batidas e limpeza, destruir as linhas de reabastecimento, libertar as populações, restabelecer a ordem, … Qual implacável crueldade da vida, parecia-lhe por vezes caminhar para o vazio, para a indefinição do real.

Na solidão dos dias, parecendo encontrar-se no centro do nada, revivia Ramiro aquelas lembranças e dava conta da efemeridade das coisas. Parecia-lhe que o silêncio conversava com ele. Nas noites de luar, ou em outras tantas de terríveis relâmpagos e de nuvens carregadas de chuva que em breve os empaparia por inteiro, Ramiro perguntava a si próprio o que significava o tempo, o destino, a dor, a vida, a felicidade. Camaradas em armas, procuravam responder-lhe. “A vida é um livro”, dizia um, pensativo. “O tempo é um grande ruído”, filosofava o outro. “O acidente é um destino”, retorquia o terceiro. Todos eles ali mergulhados em descobrir o mistério da geometria incalculável daquilo a que se chama vida e a que tanto agarravam … outras vezes, Ramiro e os seus camaradas falavam a espaços para quebrar os silêncios que se instalavam entre eles, sem saberem porquê, e então davam conta que muitas vezes na vida um silêncio mútuo dá a cada um grande prazer … Teriam eles o espírito perturbado pelos dias que, por vezes, em violência e naquela guerra se sucediam? Provavelmente não. Como sempre, havia que acreditar no lema “A sorte protege os audazes”! Porque inesquecível, para Ramiro e outros, aqueles foram tempos de partilhar sonhos e segredos, criar amizades para toda a vida, quando durante meses a fio, companheiros de viagem, dia e noite, de grandes distâncias, quase esquecidos do mundo exterior tornavam-se eles próprios, descobrindo o instante único da vida…

E naquelas longas mil e oitenta noites, não desertando, não ficando na retaguarda, nem procurando um gabinete, mas tendo como cama e cabeceira restolhos, pedras, pântanos, trepadeiras de feijão macaco ou morros de formiga talaco, num clima que se por vezes os derretia, outras, porque frio, os vazava até aos ossos, e entre tiros, rebentamentos, gritos de dor, ou no descanso da base e ao som de uma triste viola, a universal oração do combatente aprendida no inferno do Curso de Comandos, acompanhava Ramiro. Por si e pelos companheiros de armas, diariamente assim pedia:

 

Senhor.

Dai-nos na mata
A sobriedade para resistir,
Dai-nos a clareza da justiça

E a força de não desistir;
Dai-nos a perseverança para sobreviver

A coragem para perdoar;
E a fé para harmonizar e vencer.
E dai-nos também, Senhor,
A esperança e a certeza do retorno…

 

E Ele satisfez o pedido! Ramiro sofreu. Fez garrotes em estilhaçados. Embrulhou corpos. Chorou. Respeitou o inimigo. Mas aprendeu a não deixar que o medo o impedisse de tentar. Mais, aprendeu a dar valor a todos os instantes, como se não houvesse amanhã…

Terminada a missão militar, que Ramiro procurara bem cumprir, despedia-se daqueles grandes homens que havia comandado. Verificava como se haviam transformado: caras juvenis, quando os recebera sob o seu comando, haviam-se transformado em faces de homens de barba rija. E nessas faces corriam umas lágrimas. Também Ramiro as vertia. Sim, despedia-se agora daqueles com quem partilhara muitos e muitos momentos de intenso perigo, com quem saltara de helicóptero no teatro da guerra, no meio de explosões e rajadas, com quem, lado a lado, comungara disparos e rebentamentos mordendo o mesmo pó, com quem vivera, amiúde, situações únicas de inter-ajuda e de dádivas desinteressadas, em clima emocional inarrável e inesquecível e que, a muitos, marcaria para toda a vida.

Meses depois, já nos braços da sua mãe, o Quartel-General informava Ramiro do louvor do Comandante em Chefe atribuído a si, Asterix (seu nome no “código de comunicações militar”) e ao seu grupo de combate. Nada de especial, banal, apenas honestidade sua e dos homens que ele comandara, no cumprimento de missões de alto risco a eles confiado.

Como tantos outros milhares de portugueses, Ramiro e os seus camaradas militares, com honra haviam cumprido a sua obrigação para com a Pátria.»

 

Cândido Azevedo

[1] Grito dos “comandos”, tomado de uma tribo africana e que quer dizer: “Aqui estamos, prontos para o sacrifício”.

*Texto publicado em edição impressa a 19 de Junho