Amanhã, sábado, dia 18 de Fevereiro, o Teatro Sá da Bandeira recebe o espectáculo de Dança “Longo Curso”, produzido por Rita Morais, e no qual intervém o Grupo Académico de Danças Ribatejanas, numa cooperação com a produtora, cujo projecto inovador é apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Trata-se, segundo a autora, de um espectáculo de teatro, dança e música que cruza as práticas artísticas contemporâneas com o folclore e as práticas tradicionais e tem como “motor principal” a manifestação da identidade pelo movimento, estabelecendo um paralelismo entre a prática da corrida e a emigração e entre o atleta e o viajante.

Em que consiste o espectáculo de Dança “Longo Curso”?

Longo Curso tem como motor principal a manifestação da identidade pelo movimento. Explora em particular o paralelismo entre a prática da corrida e a emigração, entre o atleta e o viajante, na medida em que em ambos os casos, ainda que em diferentes escalas, o movimento desencadeia um semelhante processo de procura, questionamento e (re)definição da identidade.

Porque é que decidiu tratar o fenómeno da emigração neste trabalho?

Comecei por me interessar pela expressão da identidade pelo corpo, isto é, de que modo é que o meu corpo, quando colocado em determinadas situações, como por exemplo o esforço físico e mais tarde o desporto (a corrida), poderia revelar traços biográficos.

Esta pesquisa foi iniciada uns meses depois de me mudar para a Bélgica para estudar, um evento profundamente transformador da percepção da minha identidade, tanto individualmente como colectivamente. Passando a ser eu própria emigrante, tornou-se claro que a minha pesquisa artística se fundiria naturalmente com a minha condição. Procurei conhecer melhor o contexto que me envolvia, entrei em contacto com a comunidade emigrante portuguesa na Bélgica e apercebi-me de uma série de questões que eram para mim importantes.

Em Longo Curso, interessa-me expor a complexidade da experiência da emigração, fazendo dialogar a dureza do seu processo com a liberdade da metamorfose, e criando pontes entre a necessidade de uma identidade definida e a pertinência de uma identidade híbrida.

Interessa-me tratar o emigrante como um ser cultural e social, físico e emocional que, por um lado, preserva a sua identidade cultural (como podemos ver por exemplo, nas práticas folclóricas no estrangeiro) e, por outro, promove a produção de culturas heterogéneas (ao levar, por exemplo, este legado cultural para fora do país).

Já apresentou este espectáculo na Bélgica e em Lisboa, por exemplo. Como tem sido a reacção do público?

Muito boa, o público parece relacionar-se com os temas que abordo e com as questões que levanto, não só de uma forma intelectual que diga respeito ao pensamento, mas também de uma forma sensorial e emocional.

Quais são as suas expectativas para o espectáculo de 18 de Fevereiro, à noite, no Teatro Sá da Bandeira?

Espero que seja uma noite especial para todos, que não seja indiferente. Penso que o meu trabalho artístico procura, mais do que “fazer a diferença”, desfazer a indiferença, que é como quem diz, criar realmente uma relação com o público.

Será especialmente interessante colaborar com o Grupo Académico de Danças Ribatejanas, incluir o seu vocabulário no projecto, partilhar esta colaboração com a comunidade e fazê-la relacionar com os restantes temas do espectáculo.

Que outros projectos tem em carteira?

A seguir ao espectáculo em Santarém, estarei focada na criação de uma micro-peça que apresentarei no Porto no dia 16 de Março no Festival T3, organizado pela AE.ESMAE. Será subordinada ao tema “Noite”, tema escolhido por mim e partilhado por mais dois artistas. A vivência física da noite, em oposição à vivência física do dia, será o ponto de partida para aquilo que posso chamar de “novo projeto”, uma pesquisa que continuarei certamente nos próximos meses. Entretanto, espera-se a continuação da digressão de Longo Curso, entre a Bélgica e Portugal, maioritariamente.

Lema da vida?

“É de sonho e de pó, o destino de um só.” (Elis Regina). Um dos lemas, mas tenho tantos…

Viagem de sonho?

Não tenho. Existem demasiados sítios que me interessam por diferentes motivos. Mas se tivesse de escolher só um, talvez Moçambique, onde a minha mãe nasceu.

Se os sete pecados fossem oito, qual seria o oitavo?

Seria googlar os sete pecados, ups.

Prato preferido?

Francesinha.

Livro de cabeceira?

“Fim de Partida”, de Samuel Beckett.

Acordo ortográfico. Sim ou não?

Sim.