Começo por dizer que me recuso a ser mais um do Portugalzinho de gente pequenina, sem orgulho pelo mérito e património nacionais. No caso da aquisição dos submarinos, pelo governo do Guterres, eu sou a favor. Os submarinos fazem parte da nossa armada desde a 1ª República, desde 1913, e tivemo-los primeiro que a Espanha. Quanto a este país, já no Liceu líamos o cronista Gomes Eanes de Azurara referir “por um lado nos cerca o mar e por outro temos muro no reino de Castela”, ou quando D. João II confidenciava que necessário era “conter Castela em terra e batê-la no mar”. Acontece que a Espanha está em vias de possuir duas fortíssimas “forças” uma no Atlântico e outra no Mediterrâneo, com porta-aviões, vasos de guerra e submarinos, tudo “top de gama”. E nós como ficamos? Dir-me-ão que os tempos hoje são outros. Outros dirão que inútil será combater Espanha. Eu sei e certamente o inimigo não será Espanha, mas importante será que estejamos cientes que não podemos contornar a nossa realidade geopolítica, e não podemos fechar a fronteira marítima que é não só a nossa janela de liberdade, como de oportunidade.

Daí que eu me surpreenda quando certos políticos afirmam “não ver a necessidade do país ter submarinos”, quando estes submersíveis, bem mantidos, podem desempenhar missões muito importantes. Enumerarei algumas: projectar Poder; vigiar as águas territoriais e a nossa enorme ZEE, bem como os milhões de Khm2 da nossa plataforma continental; ajudar a garantir a navegabilidade das vias de comunicação marítima de interesse nacional; combater o contrabando e tráfego de droga nas nossas águas; etc, etc,. Há que não esquecer uma máxima do século VI AC atribuída ao estratega militar chinês Sun Zi, e referida no seu “Bingfa” (A arte de Guerra) e ainda hoje bem actual: “em tempo de guerra as nossas forças armadas servem para combater pela violência os inimigos, mas em tempo de paz, servem para pôr em respeito os amigos”.

Lamento sim, que politicamente nestes últimos 15 anos, nunca fosse explicado devidamente ao “povo” todo este assunto, ou que alguns espertos tivessem “inventado” um sistema de financiamento “conveniente”, e agora que é preciso dinheiro para os pagar – que ninguém acautelou, embora há muito conste nas Leis de Programação Militar –, não haja, ou que alguém tenha interferido nestes negócios, tipo “debaixo de água deixando ferrugenta a nossa democracia”, como alguém já disse. Há que punir e exemplarmente quem procedeu mal, fez mau negócio ou foi corrupto (se é que a nossa Justiça ainda sabe punir os grandes corruptos), mas os submarinos, esses, necessários são, razão porque enquanto português me envergonho que o lançamento à água destes novos submarinos, que deveria constituir um momento de orgulho nacional para todos os portugueses, se fizesse na semi clandestinidade, e agora com estes já a fazerem provas de mar, corram os mais insistentes boatos que o governo os quer vender. Isto nem em Burkina-Faso!

É em homenagem às guarnições destes “charutos metálicos”, que dias a fio operam a centenas de metros abaixo da linha da água, num mundo quase de claustrofobia, de grande controle de nervos e de pouca defesa, arriscando a vida orgulhosos do dizer da roda do leme onde se lê, “A Pátria honrai que a Pátria vos contempla”, que hoje trago esta pequena história, de outros marinheiros portugueses, que há séculos atrás se destacaram no Oriente, estes nas águas da Coreia, sendo considerados os “homens submarinos ou fantasmas do mar”. Eu conto.

«Entre 1592 e 1599 os Coreanos travaram com os Japoneses a guerra de Im-Jin. Alguns documentos e um desenho da época, com a respectiva descrição (“Chunjo Jangsa Jeonbeoldo“, século XVI) comprovam que alguns marinheiros portugueses, certamente dos barcos que circulavam ao longo das costas da China em comércio, ou idos de Macau (cidade administrada por portugueses desde 1557), ou até como retaliação à perseguição sistemática aos cristãos do Japão precisamente nesta altura, fizeram-se mercenários ao serviço dos chineses. Nesses documentos, refere o investigador coreano Professor Pyin Hong Ki, são mencionados quatro portugueses e as suas actividades no âmbito dessa campanha militar. Os portugueses são referidos como shaegui, isto é “mergulhadores submarinos das águas do mar”. Descrevem tais documentos que estes tinham a capacidade de penetrar em qualquer navio inimigo, destruindo-os debaixo de água, e que o seu papel nessa guerra foi fundamental na destruição da armada e derrota dos japoneses. Segundo historiadores coreanos, crê-se que estes portugueses terão integrado a armada do almirante chinês Chen Lin enviado para a Coreia pelo imperador Ming, Wang Li, em Maio de 1598, para reforçar a armada coreana sob o comando do almirante Yi. Terão participado na batalha do estreito de Noryang onde se encontrava ancorada a armada japonesa de cerca de 500 barcos, e aí actuaram como homens-rãs, o que parece ser uma das primeiras descrições históricas de utilização deste tipo de especialidade. Esta batalha teve início por volta das 2h da manhã de 17 de Dezembro de 1598 e ao amanhecer metade dos navios japoneses haviam sido já destruídos».

Voltando aos actuais submarinos. Precisamos deles. Há que gastar milhões? Que se poupe noutros lados. Alguns exemplos entre muitos: não faz sentido pagar milhões a empresas de consultadoria, quando cada governante está rodeado de dezenas de assessores bem pagos; que se cortem milhões em megalómanos projectos, que após várias metamorfoses, acabam no lixo; que se corte no excessivo número de “boys” pendurados por todos os ramos desta já frágil árvore, e dos “golden boys” em empresas públicas e público-privadas; que não se desperdice milhões num projecto de ensino apadrinhado pelo governo que está a transformar-se numa linha de montagem de preguiça e de desonestidade intelectual, etc., etc. e muito haveria para dizer sobre o excesso de gastos inúteis por parte dos nossos governantes, enquanto nós o povo …. que dizer? Olha, sozinhos, ainda não corrompidos e pacientes, pagamos e não bufamos!