A escritora Maria Lamas, “figura impoluta e intelectual atípica”, assistiu a capítulos determinantes da História portuguesa, nasceu durante o período da Monarquia, viveu a Primeira República, resistiu ao Estado Novo e morreu depois da Revolução de Abril.

Maria Lamas foi além do papel de testemunha, marcando o início do século XX em Portugal, devido ao trabalho como escritora, jornalista e tradutora mas, sobretudo, pela actividade política a favor das causas feministas, numa “reivindicação intelectual”, que “não era só o direito a voto, não era só direito de autor”.

“Ela lutava pelo direito de igualdade das mulheres. Ela entra nesta luta através do jornalismo. E sempre através dos livros e da leitura”, disse Maria Antónia Fiadeiro, jornalista e biógrafa de Maria Lamas, que a relembra como “uma figura impoluta e intelectual atípica, de uma grande honestidade”.

Maria Lamas nasceu em Torres Novas, em 1893 e, aos 17 anos, casou-se pelo civil – o primeiro na cidade -, com o tenente Ribeiro da Fonseca, acompanhando o marido, colocado em Angola. Regressou a Portugal dois anos mais tarde, acabando por se divorciar em 1919, ficando com as duas filhas a seu cargo. Voltou a casar-se em 1920, com o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, com quem teve a terceira filha, Maria Cândida.

Começou a escrever desde cedo, publicando poesias, romances e contos infantis e, como jornalista, passou pelas redacções da Agência Americana de Notícias, A Capital, Civilização e O Século.

Foi n’O Século que Maria Lamas se destacou pelo trabalho desenvolvido no semanário feminino Modas & Bordados, uma revista popular, que chegava a todas as casas portuguesas, e a que a escritora acrescentou conteúdo intelectual.

“Era uma revista popular, com modas, com bordados, com amostras de ‘tricot’, de ‘croché’. Ela manteve isto tudo, nunca desprezou o trabalho de casa das mulheres, mas acrescentou-lhes todas as outras coisas que faltavam. É nisto que ela sobressai”, disse Maria Antónia Fiadeiro.

Entre muitos dos pseudónimos que Maria Lamas usou, um deles terá marcado as mulheres portuguesas do início do século XX: a Tia Filomena, responsável pelas respostas do correio sentimental do Modas & Bordados.

“Qualquer problema que as mulheres tivessem – e tinham muitos – dirigiam-se por carta à revista e ela respondia. E as mulheres ficavam orientadas. Nestes anos era uma ousadia escrever para uma revista e fazer determinadas perguntas que não eram habituais nestes correios. Ela acrescenta-lhe tudo o que faz parte da vida das mulheres, tudo o que as mulheres querem saber, o que elas perguntam da vida sociedade, política, a sua orientação profissional”, acrescentou a biógrafa.

Em 1930 organizou a exposição “Mulheres Portuguesas”, da obra feminina antiga e moderna, de carácter literário, artístico e científico, que ocupou 11 salas d’O Século, marcando a trajectória feminista da escritora.

“Uma das narrativas do feminismo português é a reivindicação intelectual e esta exposição, entre outras, é uma prova disso. Há permanentemente uma reivindicação intelectual. Não era só o direito a voto, não era só direito de autor. Era dar visibilidade ao trabalho das mulheres, de norte a sul”, contextualiza Maria Antónia Fiadeiro.

Apesar da luta política pelas causas das mulheres, Maria Lamas “nunca se declara feminista, era uma feminista tácita”, disse Fiadeiro.

Em 1947, seguiu-se outra exposição sobre livros escritos por mulheres, que lhe custou a direcção do Modas & Bordados, lançando-a no projecto do livro “As Mulheres do meu país”, uma peregrinação de dois anos para documentar a condição de vida das mulheres portuguesas.

Participou nos Congressos Mundiais da Paz, presidiu o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e fez parte da direcção do Movimento de Unidade Democrática.

Teve um papel activo na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República, em 1949, e fez parte da direcção do Movimento de Unidade Democrática, que combateu a ditadura.

Foi presa pela PIDE três vezes, entre 1949 e 1962, acabando por se exilar em Paris até 1969.

“Eu conheci-a nessa época, conversámos, ia ao café. Eu também estive exilada em França. Ela vivia num quarto onde cabia a cama e o guarda-fato e uma mesinha. Ali viveu anos”, disse Fiadeiro sobre o Hôtel Saint-Michel, no Quartier Latin, em Paris.

Depois do regresso a Portugal, inscreveu-se no Partido Comunista Português e voltou à Moda & Bordados, como directora honorária. Recebeu a Ordem da Liberdade, das mãos do Presidente Ramalho Eanes, e a medalha Eugénie Cotton, pela Federação Democrática Internacional das Mulheres.

Morreu a 06 de Dezembro de 1983, com 90 anos, marcados pela “honorabilidade, pela honestidade, pela sinceridade, pela tenacidade” disse Fiadeiro.

O 33.º aniversário da morte da escritora será celebrado em Torres Novas, com a estreia, em Portugal, da peça de teatro “Maria Lamas, Sempre mais Alto”, do grupo Pó da Terra, que já apresentou o espectáculo em Berlim.

A família da escritora quer reeditar a obra de Maria Lamas e publicar outros volumes que não chegaram a ser editados.

“São três volumes que ela própria definiu como ‘O Despertar’, ‘O Caminho’ e ‘A Luta’. Como ela não pôde publicar, dado a repressão política e social, estou a usar todo o material que tenho para reconstituir, à minha maneira, estes volumes”, disse José Pereira Bastos, neto de Maria Lamas.

Pereira Bastos lamentou que, de momento, não se encontrem à venda títulos de Maria Lamas, referindo que “foram guilhotinados mais de mil exemplares de luxo de ‘As Mulheres do Meu País’, quando a Caminho mudou de mãos”.

Além de “As Mulheres do Meu País”, Maria Lamas escreveu “A Mulher no Mundo” e “O Mundo dos Deuses e dos Heróis”, investigação sobre as mitologias grega e romana, além de obras de poesia, ficção e de literatura infantil, como “A Montanha Maravilhosa”, “Brincos de Cereja” e “A Ilha Verde”, entre outros títulos.