Único, original, irrepetível, António Variações, simplesmente António, faria 73 anos esta semana, um artista maior que viveu intensamente, foi maior que a própria vida, o seu legado imortalizou-o como um artista excepcional, ímpar e inesquecível.

A sua música prossegue viva e continua a fazer história mais de trinta anos passados sobre o seu desaparecimento. A sua forma irreverente e autenticidade singular num artista tão peculiar venceu o próprio tempo.

Variações foi uma sublevação no meio artístico português, um inovador pois à irreverência dos jovens do rock nacional do início da década de 80, juntou-se-lhe a irreverência e originalidade de um barbeiro que extravasou os limites do estilo. Foi artista em todas as áreas: na música, na barbearia até na imagem.

António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu em Fiscal, Amares, no distrito de Braga,
em Dezembro de 1944, ficou célebre como António Variações. Variações porque a palavra sugeria liberdade e elasticidade . Desde petiz que as romarias e folclore da terra o fascinavam, nessa altura começou a despertar para a música. O pai embora agricultor, tocava muito bem o cavaquinho e acordeão, alegrando assim os serões da família. Tudo na génese de António convergiu para o tornar no artista que haveria de marcar a música portuguesa com um forte cunho de identidade original. Fez os seus primeiros estudos na escola local, ajudando no resto do tempo os pais no campo.

Aos 11 anos terminada a instrução primária experimenta o primeiro ofício em Caldelas, mas mal completa 12 anos abandona a terra natal rumo a Lisboa. Sair da terra foi uma profunda determinação pessoal de António, ao contrário dos irmãos que partiram por uma necessidade forçada devido às duras e escassas condições de vida.

Em Lisboa começa por ser marçano mas acabou por trabalhar num escritório. Ao mesmo tempo estudava à noite, frequentou e concluiu o curso Comercial na Voz do Operário. Fez a tropa e esteve em Angola.

No regresso a Lisboa, começou por viver num quarto alugado entre Santa Apolónia e a Graça e incitou a sua envolvência com a cidade, a entender e aprofundar a cultura e a arte nos teatros e cinemas.

Passou um tempo em Londres e mais tarde esteve em Amesterdão onde aprendeu o ofício de barbeiro. De novo de regresso à capital, dedica-se de dia ao ofício e à noite à sua paixão pela música. Apresenta uma maqueta à Valentim de Carvalho, mas ainda teria de esperar quatro anos para o sucesso. No entanto, começou a dar nas vistas pelo seu visual inovador e excêntrico, personalizado com base nas formas e cores originais e com elementos de adorno. A imagem foi o seu ex-libris tornando-o único nas ruas de Lisboa, nunca passando despercebido num Portugal ainda pouco desperto para a novidade.

Apesar da excentricidade, a “descida do pano” trazia um António ao cenário do quotidiano simples, humilde e modesto dando à efusividade lugar ao recato. António era uma pessoa acessível, bem-disposto, irradiava simpatia à sua volta.

Em 1981 era um lugar-comum para os portugueses o convívio e companhia na RTP aos Domingos à tarde do sublime Júlio Isidro com o programa “Passeio dos Alegres”. Foi Júlio Isidro quem apresentou ao país António Variações, a história é simples e assertiva: Júlio Isidro foi cortar o cabelo ao Imaviz onde laborava Variações, apesar dos laivos de timidez o artista fez um abordagem concisa de decisiva ao apresentador revelando que cantava e escrevia algumas músicas. O comunicador solicitou se tinha alguma música gravada e passados três dias foi ao encontro de Júlio Isidro e entregou uma cassete
com a canção “Toma o Comprimido”. A partir de então nascia o António Variações tal como nós o (re) conhecemos, apresentou-se no Domingo seguinte no “Passeio dos Alegres” com a irreverência que sempre o caracterizou em palco. Diferente e tão sublimemente extraordinário!

Foi um sucesso a partir de então gravou o primeiro single “Povo que Lavas no Rio” de Amália, e “Estou Além” um inédito seu. Um ano depois saiu o primeiro LP “Anjo da Guarda” que o transformou numa estrela popular à escala nacional.

Em Fevereiro de 1984 grava o seu segundo álbum “Dar e Receber”. No início da Primavera de 1984 começou a não se sentir bem com alguns problemas de saúde que se foram agravando. Por ironia do destino acabou por se despedir do grande público pela mesma porta por onde havia entrado; no programa de Júlio Isidro “A Festa Continua”.

E foi como sempre igual a si próprio; apareceu nos ecrãs de pijama de flanela, com um urso de peluche, uma mala e umas botas.

Quando o álbum “Dar e Receber” é editado e a “Canção do Engate” invadiu as Rádios portuguesas sendo um estrondoso êxito, António já estava internado no hospital devido a um problema brônquio-asmático.

É no hospital que ainda ouviu na rádio as músicas de promoção do disco. Debilitado pela doença que se agravou rapidamente foi transferido para a Clínica da Cruz Vermelha onde faleceu no dia 13 de Junho de 1984 com 39 anos no auge da sua carreira. Único, intemporal um artista sem dúvida à frente do seu tempo, um cantor original, dinâmico com cariz totalmente português.

Uma carreira curta mas maior do que a própria vida, sempre, MEMORÁVEL, António Variações!