“Não sei se o Dezembro de 1907 corria invernoso e frio ou se a Primavera se antecipou, desejosa de florir com meu nascimento…”, palavras da inesquecível actriz Beatriz Costa no Jornal “Cinéfil0” em 1932. Esta semana lembramos o 110º aniversário natalício daquela que foi a actriz de revista mais popular em Portugal e no Brasil nas décadas de 20 e 30 do século passado.

Admirada e respeitada pelo público português e brasileiro a “pequena” grande Beatriz Costa com a sua capacidade comunicativa e encantador sorriso cativou o público de uma maneira notável e única. A sua forma de estar e personalidade forte também permaneceu no Cinema ficando arrolada como a “ princesa do cinema português”. Foi sem dúvida a actriz iconograficamente mais forte da arte e cultura do século XX português, a sua franja marcou a sua imagem. Aprendeu a escrever sozinha aos 13 anos por intuição, afirmava, demonstrando de tenra idade a sua determinação e carácter diligente.

Beatriz da Conceição nasceu a 14 de Dezembro de 1907 no lugar da Charneca do Milharada, Casal Barreiro, Mafra. A sua infância foi humilde e difícil com quatro anos veio para Lisboa com a sua mãe que foi trabalhar para casa do pintor José Malhoa e depois passou a costurar no Casão. Após a segunda união matrimonial da mãe com um oficial, a família muda- se para a cidade de Tomar e aí permaneceu durante 6 anos. No regresso à capital viveram durante um tempo no bairro do Castelo e depois fixaram residência perto da Avenida.

Para ajudar a mãe, Beatriz trabalhou como bordadeira todavia, o teatro encantava a jovem era uma espectadora entusiástica, o seu primeiro ídolo foi a actriz Lina Demoel. Almejou alcançar os palcos do Parque Mayer, foi então que a família permitiu que experimentasse o teatro de revista.

Estreou-se como corista na revista “Chá e Torradas” em 1923 no Teatro Éden. Depois seguiu em tournée pelo sul do país. É nesta época que Luís Galhardo, empresário do Parque Mayer a baptizou de Beatriz Costa. Em 1924 participou em Revistas no Teatro Maria Vitória e no Teatro Avenida confirmando o seu talento como actriz. Com apenas 16 anos embarcou com a Companhia para o Brasil e lá permaneceu até 1926 sempre com muito êxito em todas as revistas e operetas em que participou. Regressou a Lisboa como primeira figura de cartaz em “Ditosa Pátria” no Teatro Trindade em 1925. A partir de então foi actriz assídua nos teatros de Lisboa. Em 1927, a traduzir uma moda cinéfila, aparece pela primeira vez de franja e estreia-se no cinema em pequenos papéis. Depois transferiu- se para a Companhia de Teatro Eva Stachino para o Trindade e aí conheceu o maior êxito da popularidade com o afamado número “D. Chica e Sr. Pires”.

Na sua segunda tournée ao Brasil em 1929 com a Companhia de Eva Stachino foi recebida com grande entusiasmo e efusivas manifestações bem como relembrada a sua divulgação como actriz na imprensa brasileira. O sucesso foi tão grande que o actor Procópio Ferreira, grande comediante do teatro brasileiro a convidou a ficar no Rio de Janeiro integrando a sua companhia teatral. Contudo, Beatriz Costa declinou o convite e regressou a Portugal.

Em 1930 participou no filme de Leitão de Barros “Lisboa, Crónica Anedótica” e foi protagonista no filme “ A Minha Noite de Núpcias” na versão portuguesa, o terceiro fonofilme português. Participou em filmes em Paris, recebendo provas de apreço e em Badajoz obteve um estrondoso êxito ao representar “ Burrié” a par de continuar trabalhar em Revista nos teatros lisboetas.

No ano de 1933 a representação de Beatriz Costa eternizava-se no Cinema Português no filme “A Canção de Lisboa” onde contracenou com Vasco Santana e António Silva. Continuou com muito sucesso nas Revistas durante essa década e em 1939 participou no seu último e inesquecível filme

“A Aldeia da Roupa Branca” de Chianca Garcia no papel da lavadeira Gracinda. Nesse mesmo ano com 31 anos Beatriz Costa aceitou um novo convite para Brasil, devido à sua enorme popularidade por Terras de Vera Cruz. Desta feita a temporada prolongou-se por 10 anos até 1949. Durante esta década que classificou como os melhores anos da sua vida, actuou sempre no casino da Urca no Rio de Janeiro.

Foi também nesta fase da sua vida que casou em 1947 com Edmundo Gregorian, um escritor, poeta e escultor de quem se divorciou dois anos mais tarde.

Quando regressou definitivamente a Portugal, antes de partir contemplou demoradamente Rio de Janeiro, sabendo que não mais regressaria ao Brasil. Em Lisboa voltou ao palco do Teatro Avenida numa revista cujo título diz tudo sobre o que a actriz Beatriz Costa continuava a ser para o público: “Ela aí está”. E aos 41 anos, repetiu os êxitos de 20 anos atrás. Durante os anos 50 ainda participou em revistas de grande sucesso mas em 1960 despediu-se dos palcos em “Está Bonita a Brincadeira” e decidiu que nunca mais representaria.

Até ao fim da sua vida recusou todos os convites para regressar aos palcos, sobretudo por Vasco Morgado, alegando que a revista se encontrava em decadência e já não tinha o brilho e a excelência
de outrora.

A partir de então começou a dedicar-se às viagens um pouco por todo o mundo, assistindo a peças e festivais de teatro de Ocidente a Oriente. Conheceu grandes personalidades do mundo da Cultura e Artes como Edith Piaf, Greta Garbo, Pablo Picasso ou Salvador Dali. Decidiu também viver no hotel Tivoli na Avenida da Liberdade.

Depois do 25 de Abril começou a publicar livros sobre a sua inaudita vida. De salientar que não sabia escrever até aos 13 anos, mas aprendeu sozinha seguindo a sua ambição de saber, a sua alfabetização começou à mesa da Brasileira rodeada por amigos intelectuais como Almada Negreiros ou Vitorino Nemésio.

Beatriz Costa irreverente, alegre, de espírito livre tornou-se um ícone da cultura portuguesa. Esta fantástica actriz de 1,53 de altura tornou-se um colossal mito do teatro e cinema português. O
seu sorriso e a sua eterna franja são inesquecíveis. Faleceu durante sono com serenidade e paz em Abril de 1996. Um dia Beatriz Costa ao olhar para a Avenida da Liberdade do “seu” Tivoli viu um mendigo a dormir no banco da Avenida. Comentou com um amigo próximo, “ se não tenho ido para o Brasil trabalhar durante tanto tempo, podia ser eu a dormir ali…” Lucidez e franqueza de uma grande Senhora que foi MEMORÁVEL no palco do teatro e da vida!