teresa 2“Cúmulos e contradições das ruas da cidade:

– Serem baptizadas todas as crianças da rua da Mouraria.

– Chover nas Portas do Sol.

– Não haver montados na travessa da Boleta.”
(CE, 30/9/1916, p. 2)

O código de posturas do concelho de Santarém publicado em 1880 apresentava uma cidade composta pelos bairros de Marvila, Ribeira e Alfange. O primeiro bairro compreendia “a parte entre muralhas, o campo Sá da Bandeira, S. Lázaro até à estrada da Junqueira, a estrada de S. Domingos até à fonte, as calçadas do Monte até à Carne Coita, de Santa Clara, da Ponte sobre o Tejo, Atamarma e Alfange” (CE, 10/6/1916, p. 3). Os bairros da Ribeira e de Alfange delimitavam-se desde a passagem de nível do caminho-de-ferro nas Assacaias até às Alcaçarias e daí até ao Parque respectivamente.

Em 1926, um novo código de posturas restabeleceu o perímetro da cidade dividindo-a em parte alta, o bairro de Marvila, e em parte baixa, o bairro da Ribeira incluindo Alfange. O perímetro de Marvila incluía S. Bento, avenida Conde de Monsanto, Carne Coita, Monte, Monte Cravo, calçada das Padeiras até à fonte, S. Lázaro até ao Matadouro, Chã de S. Lázaro, avenida António dos Santos, largo das Capuchas, Portas do Sol, calçada de Atamarma, fonte das Figueiras, cerca do convento de Santa Clara e calçada de Santa Clara até à fonte do Rosário. A parte baixa da cidade limitava-se na passagem de nível das Assacaias e abrangia as Águas Férreas, ponte sobre o Tejo, ponte da Vala de Alcorça e Alfange. Do perímetro da cidade  cava excluída a estrada de Vale de Estacas até ao entroncamento do mesmo nome “que pode considerar-se bem um caminho de circunvalação e a dentro do qual  cam as construções novas e antigas não só dos Moinhos de S. Bento, mas ainda as que se têm feito ou vieram a fazer- se – e muitas serão, de certeza, no futuro – à beira da mesma estrada?” (Idem).

Apesar destes códigos de posturas tentarem reorganizar a “malha” urbana da cidade, muitas eram as ruas que necessitavam de uma “reparação radical”. A calçada no Monte ou rua Alexandre Herculano era a principal via de ligação da cidade aos seus bairros limítrofes sendo por isso muito movimentada. Em 1916, na rua, desde o seu início junto ao campo Sá da Bandeira até ao Entroncamento das Estradas, “quase não há um palmo que não precise de brita, encontrando-se nalguns sítios o pavimento a mais de meio metro abaixo das valetas, na parte urbana, que ainda milagrosamente conservam a calçada. Para fora do casario as valetas cursam ao acaso das enxurradas, não permitindo, em dias de chuva, a passagem aos peões” (CE, 19/2/1916, p. 3). Nestas circunstâncias e perante o constante trânsito de “veículos” o número de desastres acentuou-se. Também as árvores que “bordavam” o caminho sem casas se encontravam em risco de desaparecer devido ao descuido dos homens.

Em Fevereiro desse ano, “o largo das Amoreiras continua transformado em depósito de ferros velhos” (CE, 26/2/1916, p. 2) enquanto “o pavimento da calçada de Atamarma parece que foi ao barbeiro” (CE, 25/3/1916, p. 2). Também o casario da cidade ameaçava ruína que pedia “uma picareta misericordiosa para que Santarém não venha a imitar Pompeia” (CE, 26/2/1916, p. 2).

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Teresa Lopes Moreira